2012/04/20

A Maçonaria em Portugal




A MAÇONARIA EM PORTUGAL
(Segundo textos de Isabel Oliveira)

Ínicio
Herdeira do ritual de transmissão de conhecimentos dos construtores de catedrais da Idade Média, a Maçonaria transforma-se numa ordem de carácter especulativo no século XVIII. Desde então, a pedra bruta é o homem, que se deve ir aperfeiçoando no contacto com os «irmãos» através de uma aprendizagem simbólica. Na comemoração de 200 anos de existência, o Grande Oriente Lusitano entreabre as suas portas ao mundo profano, procurando rectificar algumas ideias feitas sobre a matéria.
O que é então a Maçonaria? Maçonaria (de maçom, pedreiro) significa literalmente pedreiro-livre, podendo traduzir-se modernamente por livre-pensador. Historicamente, a Ordem Maçónica é herdeira das associações de artistas do Mundo Antigo, especialmente do Egipto, da Grécia e de Roma, e está ligada às corporações de pedreiros da Idade Média (século VIII). A religiosidade então dominante exprimiu-se, sobretudo, na construção de templos e catedrais góticas, todas, de resto, semeadas de sinais maçónicos, como acontece, entre nós, na Batalha, em Tomar e nos Jerónimos. Os arquitectos e construtores desses monumentos tinham de ser dotados de profundos conhecimentos técnicos, científicos e artísticos. Tais conhecimentos eram interditos a elementos estranhos, pois a sua divulgação e entrada no domínio público implicavam a perda de prerrogativas. Por isso, apenas eram transmitidos secretamente nas lojas (local de reunião dos maçons) pelos mestres aos discípulos de reconhecida aptidão e honorabilidade, após um juramento solene. Assim surgiu a maçonaria operativa (de operários construtores) e o segredo maçónico ou iniciático. Há indícios de que o chefe destas corporações passou a designar-se em Inglaterra, a partir de 1278, por mestre maçons, o mesmo sucedendo em França com a construção da catedral de Notre-Dame (1283).

Reforma de Lutero
Com a Reforma de Lutero e a cessação da edificação de templos, as irmandades e lojas maçónicas franquearam as portas a pessoas não iniciadas na arte da construção, desde que fosse aprovada a sua admissão e depois de serem regularmente iniciados. Com o passar do tempo, estas lojas foram ficando nas mãos dos membros adoptados. A organização profissional dos construtores de catedrais deriva então para esta Maçonaria, não operativa, mas especulativa, que tomou corpo a partir de 1717, quando quatro Lojas de Londres - cujos membros eram exclusivamente especulativos ou adoptados - fundam a Grande Loja de Inglaterra.

Obediência ou federação de lojas
Nasce também um novo conceito: o de obediência ou federação de lojas. Daqui por diante residirá a soberania, já que unicamente a Grande Loja de Inglaterra tinha autoridade para criar novas lojas. O que o Grande Oriente Lusitano comemora este fim-de-semana é a carta patente que lhes foi concedida pela Grande Loja de Inglaterra em 12 de Maio de 1802, permitindo criar a primeira Obediência portuguesa. O seu primeiro grão-mestre foi um neto do marquês de Pombal: Sebastião José de Sampaio e Melo Castro Lusignan, conde de São Paio.

As Constituições de Anderson
Redigidas em 1723, mas ainda hoje veneradas e respeitadas por toda a Maçonaria - viriam esclarecer que o templo de pedra deixava de ser a tarefa do maçom: o edifício a ser levantado em honra e glória ao Grande Arquitecto do Universo passaria a ser a catedral do Universo, ou seja, a Humanidade. Assim como o trabalho sobre a pedra bruta destinada a transformar-se em cúbica, quer dizer, apta às exigências construtivas, seria o homem, que se iria polindo no contacto com os seus irmãos através de um ensinamento em grande parte simbólico.
Cada instrumento dos pedreiros passou a ter um sentido simbólico: o esquadro para regular as acções; o compasso para dar o sentido dos limites; o avental, símbolo do trabalho, a indicar a simplicidade dos costumes e a igualdade; as luvas brancas, para recordar ao maçom que nunca deve manchar as mãos com a iniquidade; e a Bíblia, para regular ou governar a fé. A finalidade da Maçonaria, à luz destas Constituições, consiste na construção de um templo de fraternidade universal baseado na sabedoria, na força, na beleza, na prática da tolerância religiosa, moral e política, na luta contra todo o tipo de fanatismo e no exercício da liberdade.

Maçonaria anglo-saxónica e a latina
Como existem muitas Maçonarias, há especialistas que estabelecem uma divisão entre a Maçonaria anglo-saxónica e a latina. A primeira é qualificada também como regular, porque se fundamenta na fidelidade aos princípios e às regras ditadas pelos fundadores. As que se encontram sob a influência da Grande Loja de Inglaterra são teístas: apenas aceitam no seu seio os que (cristãos, muçulmanos, judeus, hindus) reconhecem um Deus como princípio criador - o Grande Arquitecto do Universo e uma fé na verdade revelada, tal como se encontra na Bíblia ou noutros livros sagrados como o Corão, os Vedas, etc.

Maçonaria em Portugal
Em Portugal, a Maçonaria regular é representada pela Grande Loja Regular de Portugal/Grande Loja Legal de Portugal (GLRP/GLLP) A outra corrente, dita latina, é de inspiração racionalista ou liberal e renega, como o Grande Oriente de França, a referência ao Grande Arquitecto do Universo. Professa um estrito laicismo, suprimindo a Bíblia dos seus rituais. Deste ponto de vista, o Grande Oriente Lusitano tende a seguir a tendência latina, embora se afirme plural: aceita crentes e não crentes, católicos, judeus, muçulmanos, agnósticos e ateus. «Acima de tudo, somos anti-dogmáticos», afirma João Soares Louro, destacado membro do GOL, acrescentando que «a única certeza que temos é que nos assiste a dúvida permanente. Esta atitude confere uma abertura muito grande». Admite que «nos tempos da I República cometeram-se excessos, o que levou a que muitos pensassem que a Maçonaria era anticlerical. Não somos. Colocamos todos os credos em pé de igualdade». Não obstante a divisão de águas, os maçons de todas as Obediências trabalham com o mesmo objectivo, respeitando-se e tratando-se como irmãos. O projecto de uma Europa unida é também obra dos maçons sem distinção de Obediências. Se se construir, de facto, a Europa dos direitos sociais, talvez se tenha iniciado o que Krause, filósofo maçónico alemão do século XIX, chamou a terceira etapa da Maçonaria, depois das fases operativa e especulativa, ou seja, a transformação do mundo na verdadeira «Aliança da Humanidade».

A maçonaria é uma sociedade secreta?
A maioria dos maçons nega pertencer a uma sociedade secreta. António Arnaut - membro assumido do GOL - chama-lhe «organização discreta», na medida em que «não está aberta ao público e reserva apenas aos seus membros o conhecimento de certas práticas e saberes. Nisso consiste o segredo maçónico». Como afirma Manuel P. Santos no livro «Com a Maçonaria não se Brinca!»: «Actualmente ser maçom não é fácil, pois a discrição que envolve toda a sociedade maçónica revela-se como oposta à ‘transparência’ que deve existir em qualquer sociedade democrática.»
Os maçons reconhecem-se entre si como irmãos, identificando-se com toques, sinais e palavras. Discretíssimo, Ramos Horta, na cerimónia em que recebeu o Premio Nobel da Paz, em 1996, não deixou de levar a mão ao peito, num gesto ritual de agradecimento à Maçonaria. «Este é um dos nossos sinais que passou para a sociedade profana e tende a generalizar-se», explicam-nos. A Maçonaria, como organização iniciativa que é, não pode viver sem um ritual, isto é, sem uma acção simbólica constituída por objectos, gestos e palavras sistematicamente repetidos, os quais, no seu conjunto, representam uma ordem cósmica, um universo ordenado. Parte da iniciação maçónica consiste na vivência, pelo candidato, da sua passagem pelos quatro elementos: terra, ar, água e fogo. A primeira fase tem lugar na Câmara de Reflexões, símbolo da Terra, onde o candidato redige o seu testamento filosófico, ou seja, a manifestação das suas últimas vontades antes de deixar o mundo profano. Numa das paredes desta câmara estão patentes as letras V.I.T.R.I.O.L., significando Visita Interior Terrae Rectificando que Invenies Occultum Lapidem (Visita o Interior da Terra e Rectificando Encontrarás a Pedra Oculta). De natureza alquímica, esta mensagem chama a atenção para o trabalho interior que o profano deve fazer sobre si mesmo, mediante a meditação. Entrado no templo, o neófito submete-se à prova do ar, da água e do fogo. Terminada a cerimónia da iniciação, o candidato, que durante estas três provas tem os olhos vendados, toma pela primeira vez contacto visual com o templo e com os irmãos que fraternalmente o rodeiam e acolhem. Ao entrar na Ordem Maçónica, o iniciado recebe o avental de aprendiz, cuja finalidade simbólica é protegê-lo na sua missão de desbastar a pedra bruta. E é junto às duas colunas que se encontram à entrada do templo - e que simbolizam as colunas da Força e da Estabilidade do Templo de Salomão - que o aprendiz recebe os ensinamentos do seu grau.
O toque deve ser dado em sinal de reconhecimento maçónico, entre irmãos. É um código que, apesar da sua utilização dever ficar circunscrita ao espaço do templo, com o avançar do tempo, ganhou foros universais, permitindo em qualquer sítio saber se alguém foi iniciado como maçom. Quando alguém estranho à Maçonaria estava entre maçons, era costume usar a palavra «chove» para dar a conhecer a presença de um não iniciado. Passados os tempos da clandestinidade, só a tradição justifica o seu uso. O espaço do templo é muito específico, o que exige que o caminhar (marchar) seja executado segundo regras particulares. A marcha no templo varia conforme o grau em que os maçons trabalham, mas obedece à regra da geometria, que salienta a posição vertical do maçom, exemplo da conduta que ele deve levar na vida profana.
A cadeia de união é outro acto praticado por todos os maçons em loja, no qual eles dão as mãos, colocando o braço direito sobre o esquerdo, de forma a criarem entre si uma verdadeira cadeia. Se, por um lado, o cerimonial maçónico exige silêncio, por outro, requer a presença de música, de modo a que os sentidos sejam estimulados para o ritual que se pratica. A tradicional música maçónica de Mozart ainda hoje é tocada nos trabalhos de loja, em particular nas sessões de iniciação e noutras de carácter solene. Não é por acaso que no III Encontro da Maçonaria Latina se inclui uma ópera de Mozart, neste caso «A Flauta Mágica». Identificando-se o aprendiz com a pedra bruta, os instrumentos simbólicos que lhe são atribuídos para o seu aperfeiçoamento são o martelo e o escopo, próprios ao desbaste. Já o companheiro requer instrumentos de maior precisão, nomeadamente o esquadro, o nível, a perpendicular, a alavanca e a régua. Os companheiros são elevados a mestre na Câmara do Meio. A partir deste grau, que pode demorar anos a obter, o maçom está em condições de ajudar novos obreiros no seu percurso iniciático.
Actualmente, para se ser maçom é preciso ter mais de 18 anos, ter recursos para pagar as captações - a quota mensal no GOL ronda os 17,5 euros (3500$00) - ser livre e de «bons costumes».
Tem de se procurar um padrinho ou proponente e submeter-se às «provas».
Na Maçonaria regular, a estes requisitos junta-se a obrigatoriedade de se crer num Deus, o Grande Arquitecto do Universo. A relação da Igreja Católica com a Maçonaria conheceu períodos de grande tensão, sobretudo a partir do século XVIII. Nas décadas de 1720-1730 e 1730-1740, a Maçonaria penetrou em toda a Europa e fora dela. Foi um avanço impressionante, que assustou sobretudo a Igreja. O Papa Clemente XII, logo em 1738, promulgou a primeira bula de excomunhão contra os pedreiros-livres, iniciando uma longa série de documentos papais a condenar a Ordem Maçónica. Ordenou ainda à Inquisição a perseguição dos seus adeptos. No nosso país, a Inquisição prendeu, torturou e condenou ao degredo os maçons da loja de John Coustos, um suíço, depois naturalizado inglês, que se tinha radicado em Lisboa.

A Maçonaria e o marquês de Pombal
A Maçonaria só voltaria a ter paz sob o governo do marquês de Pombal, um estrangeirado, que se supõe ter sido iniciado durante o período de residência além fronteiras. Na sequência do terramoto de Lisboa, em 1755, o plano de reconstrução da cidade contaria com a colaboração do arquitecto húngaro Carlos Mardel, um destacado maçom da Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitânia. A praça do Rossio e a do Comércio têm a sua «assinatura». Há quem considere que o Terreiro do Paço (também chamado Praça do Comércio) não é mais do que a recriação de um templo maçónico: o Cais das Colunas, que actualmente se encontra em obras, representaria a entrada, com as colunas J e B; o Arco da Rua Augusta é visto como a sua continuidade. De notar ainda que o triângulo por cima do Arco é outro símbolo maçónico por excelência.

A maçonaria com Pina Manique
Derrubado o marquês de Pombal, a Maçonaria voltou a conhecer a perseguição, agravada com D. Miguel e com Pina Manique. O triunfo definitivo do Liberalismo (1834) e a ascensão de D. Pedro IV, grão-mestre da Maçonaria brasileira, marca um período de apogeu da Ordem, que só viria a terminar com a revolução de 28 de Maio de 1926. Em finais do século XIX e princípios do XX, o ideário maçónico começou a identificar-se com a ideologia republicana, apesar de haver muitos obreiros monárquicos. Por isso, a República foi, essencialmente, obra de maçons. A revolução de 28 de Maio de 1926 não promoveu, nos primeiros anos, qualquer ofensiva contra a Maçonaria, talvez porque alguns dos seus chefes, incluindo Carmona e o Almirante Cabeçadas, eram maçons. A entrada de Salazar para o governo e a sua rápida ascensão tutelar reavivaria os velhos ódios das forças obscurantistas. Em 19 de Janeiro de 1935 é apresentado na Assembleia Nacional um projecto de lei a proibir as associações secretas e a confiscar-lhes todos os bens. O alvo era claro: a Maçonaria. Nem a circunstância de o presidente da Assembleia Nacional, José Alberto dos Reis, ser um antigo maçom lhes valeu. Curiosamente, o Estado Novo não varreu completamente a Ordem do mapa de Lisboa: muitas ruas mantiveram os nomes de destacados maçons, como ainda hoje se pode verificar.
Outro dos actos comemorativos dos 200 anos do GOL será, precisamente, a divulgação completa da toponímia lisboeta associada à Maçonaria.
Com o 25 de Abril de 1974, é restabelecido o direito de associação. O primeiro Governo Provisório foi chefiado por um maçom, Adelino da Palma Carlos. O Palácio Maçónico, no Bairro Alto, ocupado durante a ditadura pela Legião Portuguesa, foi restituído ao Grande Oriente Lusitano.

A Maçonaria nos tempos que correm
Nos tempos que correm, sobretudo após João XXIII, o Concílio Vaticano II e a própria Companhia de Jesus, a Igreja encara com outros olhos o fenómeno maçónico. Não é, pois, de estranhar que o actual Código de Direito Canónico (1983) tenha omitido qualquer referência à Maçonaria, e revogado o cânone 2335 do anterior (1917), que excomungava «ipso facto» os inscritos na «seita maçónica» e em organizações «que maquinam contra a Igreja ou contra as legítimas autoridades civis». À intolerância sucedeu a compreensão e uma certa simpatia. A esta mudança de mentalidade não foi, seguramente alheia a circunstância de muitos católicos e altos dignitários da Igreja serem maçons. Regimes como o comunismo e o fascismo também não quiseram nada com a Maçonaria. O IV Congresso Internacional dos partidos comunistas, em 1922, aprovaria a seguinte resolução: «Aquele que não tenha declarado abertamente à sua organização, e feito público através da imprensa do partido, a sua ruptura total com a Maçonaria, será automaticamente excluído do Partido Comunista». Curiosamente, no mesmo ano em que a Internacional Comunista lançava o anátema contra os maçons, na Itália, o primeiro Estado fascista da história, dirigido por Mussolini, convidava «os fascistas que são maçons a escolher entre pertencer ao Partido Nacional Fascista ou à Maçonaria, porque para os fascistas somente há uma disciplina, a disciplina do fascismo; uma só hierarquia, a hierarquia do fascismo; uma só obediência absoluta, devotada e diária ao chefe e aos chefes do fascismo». «Onde há um maçom, há uma semente de liberdade. Por isso fomos considerados um perigo tanto para o comunismo como para o fascismo», diz-nos Fernando Sacramento, membro do GOL. «Nas lojas, tudo é debatido (excepção feita para a política e a religião) e tudo é votado (através de bola preta e bola branca), é o centro de maior democracia que pode existir», garante, acrescentando que «não temos um projecto de poder nem de afirmação na sociedade». Explica: «Os maçons têm obrigação de intervir na vida pública e política, de lutar pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade (os nossos três grandes princípios), mas apenas a título individual.»
No mundo profano, a Maçonaria funciona em grande parte através de instituições que fomenta, cria ou dirige, mas que têm vida própria, desligada da vida maçónica interna.
Em Portugal, este tipo de instituições que o historiador Oliveira Marques designa como «para-maçónicas» existem desde o século XVIII, especializadas em múltiplos aspectos da actividades social: cultura, beneficência, política, direitos do homem, relações internacionais, etc. Os exemplos são inúmeros: a Academia das Ciências (nos idos de Setecentos), as «Escolas Livres» fundadas no princípio do século passado; A Voz do Operário (1883); os Jardins-Escola João de Deus (1911). As associações para-maçonicas também intervieram para criar estruturas laicas na vida social, como a Associação Liberal Portuguesa (1889) e a Associação do Registo Civil (1895). Há ainda notícia de grupos de combate à escravatura e à pena de morte fundados no século XIX com ampla participação maçónica, e de alguns criados no século XX para lutar contra a prostituição, o alcoolismo e o jogo.

A Maçonaria e os seus Santos Patronos
A Maçonaria tem dois santos patronos e protectores: São João Baptista e São João Evangelista. Porquê São João? Porque foi a 24 de Junho - dia de São João - que, em 1717, as quatro lojas de Londres se reuniram e deliberaram criar a Grande Loja de Londres, dirigida por um grão-mestre. São João Evangelista abre o solstício de Verão; São João Baptista é comemorado com o solstício de Inverno. A Ordem maçónica respeita e venera o ciclo solar - os trabalhos dos pedreiros fundadores realizavam-se entre o meio-dia (zénite solar) e a meia-noite em ponto (zénite polar) - e as estações do ano. O equinócio de Setembro marca o início dos trabalhos, que são encerrados por altura do solstício de Junho. Este calendário maçónico seria depois importado pelo sistema judicial e académico. Ainda hoje, tanto os tribunais como as universidades continuam fiéis a esta programação ditada pela Natureza. Mas os maçons distinguem-se ainda por comemorar a passagem de ano no equinócio de Março, com a chegada da Primavera. De acordo com as suas contas, estamos no segundo mês do ano de 6002. Antes de encerrarem as lojas para as férias de Verão e logo após os festejos do bicentenário, os maçons do GOL entram em campanha eleitoral. As eleições para grão-mestre estão marcadas para 1 de Junho. Entre os candidatos já conhecidos, estão António Arnaut, José Fava e Carlos Morais dos Santos. Os dois mais votados irão ao tira-teimas da segunda volta. Outra importação dos modelos maçónicos, novamente por parte do meio judiciário e académico, tem a ver com o traje. O balandrau, bata preta comprida, com gola ampla para tapar a cabeça, é a indumentária «oficial» da Maçonaria, por cima da qual se coloca a paramentação (avental). Ora, as becas dos advogados e juízes e as togas, usadas em cerimónias solenes nas universidades, não são mais do que «adaptações» do ritual maçónico. As becas e as togas antigas chegaram a ter também gola e aquela espécie de capuz que caracteriza o balandrau.

Maçonaria no Mundo
Existem cerca de dez milhões de maçons em todo o mundo. Mas é na Inglaterra e nos Estados Unidos da América que a sua influência mais se faz notar. Convém não esquecer que a Inglaterra foi o berço da Maçonaria: em 1717, quatro lojas de pedreiros de Londres organizaram-se numa espécie de federação a que deram o nome de Grande Loja, elegendo um primeiro grão-mestre com autoridade sobre todos os maçons. Seis anos mais tarde, o pastor escocês James Anderson era incumbido de elaborar umas Constituições que todos aceitassem. Fernando Sacramento, membro do GOL, não tem dúvidas em afirmar que os ingleses edificaram o seu extenso império colonial com a ajuda da Maçonaria: «A instalação de lojas militares nos quatro cantos do mundo - abertas, posteriormente, às profissões liberais, e integrando as classes com maior influência social e económica nas diferentes possessões - contribuiu decisivamente para a propagação do sistema democrático defendido e praticado na Grande Loja de Londres.» Organismos de grande prestígio internacional como a ONU, criada em 1945 em Nova Iorque, a UNESCO (instituição da ONU para a Educação, Ciência e Cultura) ou a Cruz Vermelha Internacional, foram impulsionados sobretudo por maçons. Há também quem diga que o Acordo de Paz de Camp David, firmado em 1978 entre Israel e o Egipto, parecia um encontro de irmãos, pela simbologia utilizada nas saudações finais.
A crer nesta interpretação, os três protagonistas do acordo - Menahem Begin, primeiro-ministro de Israel, Anouar el-Sadate, primeiro-ministro egípcio, e Jimmy Carter, presidente dos EUA - quiseram dar provas da sua gratidão para com a Maçonaria, que tinha manobrado intensamente nos bastidores para que tudo desse certo.
Em Inglaterra - à semelhança de outros países nórdicos - existe ainda uma ligação estreita entre a Monarquia e a Maçonaria e o grão-mestre é o rei por inerência de cargo. Actualmente, e porque está uma mulher no trono (Isabel II), é o duque de Kent que detém a autoridade máxima da maçonaria inglesa. Em terras de Sua Majestade ninguém estranha a influência e a participação de maçons nas mais altas esferas do poder: da Câmara dos Lordes aos Serviços Secretos, Forças Armadas, Governo. Winston Churchill, primeiro-ministro inglês em 1940-45 e em 1951-55, era maçom. A disposição espacial da Câmara dos Comuns (rectangular, com cadeiras face a face) é uma recriação de um templo maçónico.
A Maçonaria desempenhou também um papel importantíssimo na fundação dos Estados Unidos da América. Não é com certeza por acaso que a nota de um dólar está ainda repleta de símbolos maçónicos. Como não é por acaso que a Bíblia sobre a qual prestam juramento todos os presidentes dos EUA é proveniente de uma loja maçónica.
O Livro Sagrado foi usado por George Washington, o primeiro presidente dos EUA e maçom assumido. Antes, Benjamin Franklin, cientista e «pai» da independência dos «States», também pertencera à organização. E o mesmo se pode dizer de outros presidentes dos EUA: Abraham Lincoln (republicano) e Franklin Roosevelt (democrata), à frente da nação americana entre 1933 e 45.


Em Portugal
O GOL não é a única organização maçónica em Portugal. Um grupo descontente com a tendência laica do Grande Oriente decide promover o ressurgimento da Maçonaria Regular no nosso país, criando em 1991 a Grande Loja Regular de Portugal (GLRP).
Em 1996, já com Luís Nandim de Carvalho como grão-mestre, a sede - a célebre Casa do Sino - é tomada por cisionistas (entre os quais figurava José Braga Gonçalves, que viria a ser preso em 2001 na sequência do «caso Universidade Moderna»), que assumem o nome de Grande Loja Regular de Portugal, pelo que os fundadores da Maçonaria Regular, mantendo a designação, têm de adoptar para efeitos legais profanos o nome de Grande Loja Legal de Portugal (GLRP/GLLP). O seu atual grão-mestre, José Manuel de Morais Anes, sublinha que a Maçonaria anglo-saxónica «reconhece exclusivamente em Portugal a GLRP/GLLP», que também comemorará o aniversário da criação da primeira Obediência maçónica regular portuguesa. José Anes insiste que não se poderão comemorar os 200 anos de Maçonaria Regular «porque a Grande Loja Unida de Inglaterra decidiu retirar o reconhecimento ao GOL pouco mais de 100 anos depois». A sessão solene de Junho, que marca o 11º aniversário da Grande Loja Regular de Portugal, contará com a presença do marquês de Northampton, pró-grão-mestre da Maçonaria inglesa. O programa das comemorações inclui ainda uma homenagem ao rei Eduardo VII.
Júlia Maranha é a grã-mestra da Grande Loja Feminina de Portugal, que integra nomes conhecidos, como Helena Sanches Osório (ex-directora de «A Capital», ex-subdirectora de «O Independente»), Leonor Coutinho (ex-secretária de Estado da Habitação) e Maria Belo (antiga euro deputada do PS).
Entre as correntes menos expressivas, destaca-se a Jurisdição Nacional da Federação Internacional do Direito Humano, por ser um caso único de organização mista. É liderada por Jorge Gomes.
A Grande Loja Regular de Portugal (cisionista), que foi fundada por diversas personalidades ligadas ao «caso Universidade Moderna», é actualmente dirigida por Marques Miguel.
E a Grande Loja Nacional de Portugal, que foi criada após uma cisão com a anterior, tem como dirigente máximo Álvaro Carva. Finalmente, a Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia, que é fruto de uma segunda cisão operada entre os dissidentes que haviam ocupado a Casa do Sino, está praticamente extinta.

Literatura sobre a matéria
Sobre a matéria recomenda-se a leitura da «Introdução à Maçonaria», de António Arnaut (Coimbra Editora), «A Maçonaria em Portugal» e «A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo», de Oliveira Marques (Edição Gradiva e Publicações Dom Quixote, respectivamente), «História da Franco-Maçonaria em Portugal», de M. Borges Grainha (Edições Vega), «Com a Maçonaria não se Brinca!», de Joaquim M. Zeferino e Manuel P. Santos (Hugin Editores) e «O que é a Maçonaria», de Alberto Victor Castellet (Madras Editora).

Personagens maçónicos portugueses:
Afonso Costa - Alexandre Heculano - Alfred Keil - Almeiga Garrett - António Augusto de Aguiar - António José de Almeida - Bissaia Bareto - Bocage - Camilo Castelo Branco - Carlos Mardel - Castilho - Duque de Loulé - Duque de Saldanha - Eça de Queiroz - Egas Moniz - Elias Garcia - Fernando II - Gago Coutinho - Gomes Freire de Andrade - Henrique Lopes de Mendonça - Miguel Bombarda - Norton de Matos - A. H. de Oliveira Marques - Pedro IV - Rafael Bordalo Pinheiro - Raul Rego - Ribeiro Sabches - Teófilo Carvalho dos Santos - Viana da Mota

(Segundo textos de Isabel Oliveira 2007/8)

2012/04/16

o que é a maçonaria



A Maçonaria é uma instituição secular cuja acção deixou vincadas marcas em toda a história da humanidade. O legado maçónico é a formação de líderes pela educação do seu pensamento, livres de dogmas que aprisionem ou asfixiem o espírito. Nesse sentido, as lojas maçónicas não são tanto escolas filosóficas quanto são escolas éticas. São, pois, centros de aprendizagem visando a evolução moral é ética do indivíduo. Aquele que cruza os portais da maçonaria tem a oportunidade de se transformar num homem mais perfeito, num ser humano melhor, quer como cidadão quer como indivíduo.

Assim é este sistema de conduta moral que transmite ao iniciado a necessidade de vencer as suas paixões, dominar os seus vícios e ambições, reprimir e destruir o ódio, os desejos de vingança e tudo o que oprime o homem, tornando-se exemplo da liberdade, igualdade e fraternidade. O membro da maçonaria tem de ser um aluno fiel aos ensinamentos maçónicos, tem de querer evoluir. Simbolicamente, o maçom vê-se a si mesmo como uma pedra bruta que tem de ser trabalhada, de forma a converter-se numa perfeita pedra cúbica e polida, capaz de integrar a estrutura do templo (que simboliza o Universo). 

A maçonaria não é uma religião e muito menos uma seita, é uma sociedade de homens de bem, uma construtora de indivíduos que evoluem e se tornam homens iguais e fraternos. Não tem por objectivo alcançar lucros pessoais de nenhuma espécie para os seus membros; pelo contrário, procura juntar recursos para colocar ao serviço dos seus semelhantes mais desafortunados, sem fazer distinção de nacionalidade, sexo, religião, ou raça. 

O maçom tem princípios. Na maçonaria são três os princípios maiores: a liberdade dos indivíduos e dos grupos humanos sejam eles instituições, raças ou nações; a igualdade de direitos e obrigações dos indivíduos e dos grupos, sem distinção de religião, raça ou nacionalidade; e a fraternidade de todos os homens, já que somos todos oriundos do mesmo princípio criador.

Tudo aquilo que se desvia e contraria estes princípios está fora da maçonaria e, como tal, é repudiável pela Maçonaria.

2012/04/01

uma visão da maçonaria

«A Maçonaria do século XXI reconquistará e comandará poderosos foros de atuação nos segmentos políticos e administrativos das nações, iniciando em seus mistérios postulantes de ambos os sexos, sem distinção de raça, credo ou condição social, desde que preenchido o requisito fundamental de serem cidadãs e cidadãos livres e de bons costumes. Será a Maçonaria que reconheça, sob quaisquer circunstâncias, todo maçom - homem ou mulher – que haja sido regularmente iniciado ou iniciada numa Loja Maçônica, independente da Potência a que esteja subordinada.
 
A Maçonaria do presente século reconhecerá oficialmente toda e qualquer Loja Maçônica fundada por sete Mestres Maçons. Será a Maçonaria integralmente fiel aos princípios e sustentáculos básicos da fraternidade universal, da liberdade humana, da igualdade social e do direito de expressão. Em suas instruções e doutrinas, instituirá como dever de quantas e quantos integram os seus quadros um foro permanente de idéias pela paz, pela união, pela felicidade e prosperidade do gênero humano.
A Maçonaria do século XXI respeitará integralmente as leis justas dos países. Rejeitará com rigor qualquer Landmark ou Lei Maçônica que viole a Carta Magna das Nações, especialmente a igualdade de direitos e as garantias individuais, a liberdade de consciência.

A Maçonaria deste século excluirá de sua estrutura de obediência, o Landmark de No. 18, datado de 1723, incluído não se sabe por quem, igualmente aprovado não se sabe por que e por qual Assembléia, cujo texto, além de desfigurar os sustentáculos básicos da Ordem Maçônica, proíbe que mulheres sejam iniciadas nos seus quadros, passagem reconhecidamente ofensiva aos seus valores, artigo que também exclui de ingressar em seus quadros, coxos e aleijados ou quaisquer portadores de atenção especial.
Juntamente aos segmentos de elevada expressão no seio da comunidade internacional, instituições as mais avançadas do mundo, imaginadas, fundadas e implantadas por maçons, a exemplo da UNESCO, do ROTARY INTERNATIONAL, etc., que defendem a liberdade de consciência e a igualdade de direitos, a Maçonaria do século XXI entenderá que este Landmark é um anacronismo absurdo, cuja expressão contradiz flagrantemente os princípios de igualdade, liberdade e fraternidade, considerados cláusulas pétreas na estrutura da Ordem Maçônica Universal. O mencionado Landmark determina arbitrariamente de forma cruel, deselegante, anti-fraterna, quem tem e quem não tem direito à iniciação.»

texto integral aqui

Maçonaria no séc. XXI

«Há imensos paradoxos na actualidade! Um deles é a crescente “falta de tempo” que dispomos! Cada vez a esperança média de vida é maior, cada vez o progresso e o desenvolvimento tecnológico, nos “poupa” horas e horas de tarefas que antes nos absorviam e, seria portanto lógico que estivéssemos hoje mais disponíveis que os nossos antepassados, mas a verdade é que não estamos!

Um outro aspecto “profético” é a tendência cada vez maior para as mulheres se sobressaírem. (…) As mulheres da actualidade (abstraindo a parte fisiológica, o “invólucro”), nada têm a ver com a mulher da antiguidade, nem mesmo nada a ver com a do século XIX. Já não são apenas as donas de casa, as esposas submissas, as “cabeças fúteis”, as “apenas mães”. São seres maravilhosos, bem formadas, educadas, cheias de vontade de se enriquecerem espiritualmente, com carreiras de sucesso, com muito para partilhar e com um sentido estético e espiritual ímpar.

Ora o que tudo isto tem a ver com a Maçonaria? Imenso. Pois as lutas que os nossos antepassados, tenham sido eles portugueses ou de outras nacionalidades (muitos deles maçons), elaboraram no passado pela conquista de direitos humanos, pela libertação de povos, contra a opressão e tirania, pelas artes e pelas ciências... todo esse esforço não terminou. Cabe agora uma outra forma de luta, contra os males da nossa sociedade. É aqui que a Maçonaria tem um papel a desempenhar.»

Ler o texto completo aqui

2012/03/26

Universal

«A Maçonaria não é, não será, nem foi nunca regular, liberal, adogmática, operativa, especulativa, republicana, laica, monárquica, anarquista, socialista, mista, feminina, ecológica, verde ou libertária. Ela foi, e será sempre, Universal, atenta às mutações culturais, motor dos ideais vertentes sobre os valores que persegue, em cada momento histórico, em função de metas que vai atingindo e transpondo, fora de toda a estanqueidade, de todo o enquistamento que o mundo profano determina.»
Luis Conceição
M.•. M.•. (R.•. L.•. Convergência, n.º 501, a Oriente de Lisboa, G.•. O.•.. L.•..)

2012/03/05

Exercício de difusão

Uma entrevista que nunca existiu, na qual respondi a perguntas que nunca foram feitas, com respostas que nunca proferi.

P: - A maçonaria está sob os holofotes da opinião pública e não pelas melhores razões. Será a Maçonaria inocente de todas estas acusações?
R: - Efetivamente tem-se ouvido algum ruído do tipo: “A maçonaria isto; a maçonaria aquilo”, ora é bom que se compreenda, logo à partida, que a Maçonaria não é uma entidade singular mas um fenómeno plural. Existem várias ordens ou potências sem relação entre si, sem se reconhecerem sequer como organizações iguais. A única ligação possível, e efetiva, é a fraternidade universal que une todos os maçons. E esta relação acontece num plano singular/pessoal sem a intervenção de qualquer estrutura hierárquica que trace orientações ou imponha diretrizes. Até dentro de uma mesma Ordem, as lojas que a constituem possuem uma relativa autonomia não tendo que dar conta de tudo o que fazem. Por exemplo, ao decidir realizar um trabalho benemérito em favor do seu semelhante, pessoas do mundo profano que vivem uma conjuntura de provações, gente desamparada ou a braços com situações imponderáveis que lhes retiram o sustento ou empurram para uma condição de existência sub-humana, nenhuma chefia virá dizer que os proveitos terão de ser entregues ao grupo A ou B. Nesse sentido, uma ordem maçónica é mais flexível do que qualquer estrutura tradicional, seja ela política, religiosa, industrial ou militar.

P: - A maçonaria é composta pelos melhores cidadãos?
R: - A maçonaria tem nas suas fileiras alguns dos melhores mas, mais do que tentar juntar os melhores, procura alistar aqueles em quem reconhece potencial para virem a ser melhores cidadãos e melhores pessoas.
Até porque os melhores são, na maioria dos casos, cidadãos que já atingiram um pleno de experiência e de realizações, por vezes já com uma idade provecta, e que nem sempre estão animicamente disponíveis para integrar uma nova experiência tão envolvente como a maçonaria. Já os mais jovens, aqueles que possuem potencial e em que se reconhecem os atributos de pessoa de moral sólida e bons costumes, esses é que são a aposta da maçonaria. E poderão, ou não, vir a ser os melhores, mas em todo o caso virão a ser sempre melhores do que antes.

P: - E aqueles casos mediáticos, incidindo sobre suspeitas de tráfico de informação privilegiada, nomeadamente de âmbito económico, casos de apropriação indevida de património de empresas ou desvio de bens, e de que a imprensa e a blogosfera fazem eco?
R: - A maçonaria não é composta por marcianos mas por pessoas provenientes da nossa população e nesta, sabemos, existe uma percentagem relativa de pessoas com comportamentos desviantes. É, pois, natural que, à imagem da ideia errada que muitos fazem da maçonaria, por ignorância – atribuindo-lhe protagonismo em negócios e interesses obscuros -, alguns a procurem, e consigam introduzir-se nela, movidos por essas ideias e objetivos estranhos à maçonaria. Regra geral, desistem quando percebem que a instituição não serve para os seus fins; ou então são detetados e expulsos; ou não são detetados e por ali porfiam durante algum tempo.

P: - Porquê o secretismo da maçonaria?
R: - O secretismo advém da necessidade de salvaguarda, de reserva, dos rituais e dos processos de descoberta pessoal sobre as revelações acessíveis a todos aqueles que se propõem estudar os segredos iniciáticos, imbuídos do interesse de compreender o que é a condição humana e o sentido da vida: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Os ritos constituem a ligação ao passado, aos momentos primevos da decifração desses grandes mistérios e às formas ancestrais de transmissão do conhecimento. Colocar a nu estes aspectos é o mesmo que levar para a praça pública um concílio de bispos, uma reunião do Governo, ou as decisões do conselho de administração de uma grande empresa. Não é possível.

P:- Mas não é esse carácter secreto da sua existência e das suas práticas que conduz à desconfiança?
R: - Não há secretismo nas ações que relacionam a instituição com a sociedade, há descrição. O secretismo incide somente sobre o trabalho iniciático, de cariz filosófico, e na medida em que se alicerça numa busca, num estudo, numa caminhada pessoal e intima realizada por cada um dos maçons. Só as pessoas ignorantes devem desconfiança e receio àquilo que não conhecem.

P:- Numa Democracia faz sentido existirem sociedades secretas?
R:- A Democracia não é um regime consolidado: sem a participação ativa e permanente de cada cidadão, da maior parte possível da sociedade civil, e das suas instituições, livremente constituídas e exercendo livremente os seus direitos de cidadania, não é possível manter viva a Democracia. É conhecido, e recentemente verificado, que quando as situações económicas se tornam críticas, se levantam vozes clamando por revolução – mesmo em Democracia -, e também é sabido que muitas revoluções, mesmo as que terminaram em regimes ditatoriais ou totalitários, começaram evocando a libertação dos povos e a conquista de melhores condições para os cidadãos. Portanto, os velhos ideais da luta pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade mantém-se na agenda dos que por ela se bateram no passado, como aconteceu na 1ª República. Hoje, tal como então, faz sentido que existam estas instituições.

P: -Mesmo durante a 1ª República, período áureo da maçonaria em Portugal e que esta relembra constantemente, nem todo o protagonismo da maçonaria foi positivo, também houve muito desentendimento, muita luta fratricida, muita negociata na sombra, não?
R:- Nem tudo o que a maçonaria preconiza e procura influenciar se consegue realizar, sobretudo numa sociedade em convulsão. Se assim fosse já viveríamos numa sociedade mundial maçónica. Os seus detratores também têm poder, e prejudicam o saldo da ação maçónica. Por outro lado, sempre que um grupo se reúne disposto a fazer avançar as suas ideias através de algum tipo de influência no poder, logo se acercam outros elementos que parasitam esta dinâmica motivados por interesses contrários a ela. E conseguem, por vezes, ver os seus intentos realizados pois, regra geral, esses interesses são de cariz económico, pessoal e imediato.

P: - A Maçonaria Livre tem maior propensão do que a Maçonaria Regular para engajar políticos nas suas hostes?
Q: - Quanto à relação com a política atente-se no paradoxo de se partir do pressuposto de que a maçonaria livre é mais propensa à participação na vida política e, no entanto, os casos mediáticos recentes terem envolvido pessoas ligadas à maçonaria Regular, entendida como mais afastada da política. Parece-me que cai por terra a teoria da conspiração. Mas insisto, não podemos generalizar a partir de casos isolados. Faço parte da maçonaria dita livre, ou liberal, mas não me passaria pela cabeça qualificar a maçonaria Regular e todos os irmãos que a compõem, como prevaricadores, tendo como base dois episódios ocorridos na última quinzena de anos.


P: – Os maçons são acusados de se protegerem uns aos outros.
R: - Tal como os irmãos de uma família, já que o juramento e a relação que estabelecem entre si, assim constrói essa ligação de entreajuda e auxílio. Porém, não colocam acima da Lei a sua relação fraternal, iludindo a Justiça para proteger um irmão. Tal como o não devem fazer os membros de uma família. Aliás, sobre esse aspecto estou convencido que um juiz seria impelido a ser mais duro com um seu irmão maçom a quem tivesse de penalizar por um crime cometido, pois que reconheceria ali uma situação de dupla falta: contra a Lei civil e contra a lei maçónica.

P: -Também são acusados de através dessa relação fraternal conseguirem obter privilégios no acesso a um posto de trabalho, melhores remunerações, etc.
R: – Isso só pode ser falso. Se tal acontecesse não seria num país em que a cultura dominante está fortemente condicionada pela desconfiança e pela incompreensão em relação à maçonaria. Mais frequentemente acontecerá o inverso: os maçons é que terão razões para temer ser alvos de perseguição e detrimento profissional caso seja conhecida a sua filiação maçónica.


P: -Mas, e quando episodicamente se ouve falar de arranjos de negócios feitos entre maçons.
R: - E esses casos serão reais? E se são, não poderão ser legítimos e legais? Tal como se conhecem negócios semelhantes entre membros do mesmo clube de futebol, da mesma universidade, do mesmo partido político, entre profissionais do mesmo ofício, etc. 
O que é importante é denunciar os casos de violação da Lei e do funcionamento das instituições públicas. É isso que deve importar, independentemente de envolver maçons, militares, padres, gestores, políticos ou eletricistas. É uma questão de reorientar as baterias para os alvos certos.
Generalizar, estendendo à instituição o erro cometido por algum dos seus membros é que é um erro grosseiro, uma atitude de manifesta desonestidade intelectual. Se dois homens combinarem praticar uma ilegalidade e ambos pertenceram à mesma instituição de solidariedade social, vamos dizer que essa instituição é uma organização criminosa?

P: -Em toda esta desconfiança e suspeita instalada na opinião pública, não existirá um fundo de verdade? Não há fumo sem fogo, diz-se.
R: - Houve maçons condenados em tribunal, por crimes normais, mas nunca por associação criminosa ligada à instituição. Quanto à opinião pública, bem sabemos que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Muitas das revoluções registadas na história resultaram literalmente dessa falta de pão ou de outras contingências de carácter económico (razões comerciais estiveram na génese da revolução norte-americana, p. ex.). Logo, em cenários de crise económica e social, qualquer grupo ou instituição pode ser eleito como alvo dos contestatários, e apontado como responsável pela situação vivida. A maçonaria tem sido, ao longo dos seus 300 anos de existência, um desses alvos. A multidão tende a comportar-se acefalamente e é presa fácil dos mais absurdos argumentos.
Repare-se como uma sociedade democrática como a nossa, muda sensivelmente a perspectiva da fraternidade entre povos quando começa a faltar o trabalho e o emprego: recrudesce imediatamente a xenofobia e levantam-se vozes em coro contra a presença de imigrantes, mesmo em estratos culturais onde antes era impensável tal acontecer.  
E isto também tem a ver com a fragilidade da Democracia, atrás referida, fator que justifica o reforço da obra da ordem maçónica liberal, pois que é uma das instituições que combate o obscurantismo, a intolerância, a desigualdade, a opressão e toda a actuação própria dos regimes totalitários.

P: -Mas se existem outras instituições e outros actores que dão a cara pelos mesmos ideais, porque é que os maçons escondem a sua condição?
R: - Em parte pelo que se disse atrás, decorrente da natureza do seu trabalho de perfil iniciático que, pela sua essência singular, não contempla essa exposição pública; e em parte pela cultura intolerante enraizada na nossa sociedade, que retrai os impulsos de abertura. Noutros países isto não acontece, nomeadamente nos de cultura anglófona pois, ali, ser maçom é visto com naturalidade, ou até reconhecido como atributo dignificante para qualquer cidadão.

.˙.


2012/03/03

Ciências, Técnicas e Maçonaria

Tradução livre do castelhano de um excerto do artigo “Ciências, Técnicas e Maçonaria” de Amando Hurtado, publicado na revista espanhola CULTURA MASONICA Nº 10, Jan. 2012.

«(...) 
A Ciência é interpretada hoje – pela grande maioria das pessoas – não como um sistema teórico, mas como o conjunto das parcelas de conhecimento capazes de gerar aplicações técnicas socialmente úteis ( ou “rentáveis”), que se diluem no consumismo mercantilista.
A reflexão maçónica, perante este panorama, centra-se na busca pessoal do sentido que podemos dar à nossa própria vida enquanto membros da comunidade humana. Por ser humanista – ainda que sem situar o homem no centro do universo – e porque postula o trabalho como uma síntese de pensamento e acção, necessário à melhoria da condição humana, a Maçonaria envolve uma dimensão espiritual inseparável da sua própria natureza. Concebe o Homem como microcosmo, imagem do universo, com uma aspiração inata que o supera, que o transcende. Para além do mundo visível intui-se uma Arquitectura cósmica de que a humanidade faz parte e cujo código estrutural se torna gradualmente acessível através das ciências enquanto veículos do conhecimento.
A espiritualidade maçónica expressa-se na “busca da verdade”, simbolizada pela “Palavra Perdida”, identificável para muitos com a autêntica finalidade da Scientia de Philosophia Perenis, com o sentido que lhe atribui Karl Jaspers: apesar da grande variedade de escolas filosóficas e para além de todas as suas contradições e exclusões recíprocas como portadoras da “Verdade”, pontifica em toda a filosofia um “Uno” que nada contem mas em torno do qual gravitam os esforços filosóficos de todos os tempos como tema central de uma única e eterna Philopsophia Perennis.[*] O que implica também que os mesmos temas, intelectuais ou espirituais, podem ter diferentes aproximações e representações imaginárias e que a via para alcançar esse “Uno” universal não é exclusivamente místico-religiosa.
O permanente trabalho de busca exige uma praxis ética racional. A Maçonaria nasceu, evoluiu, e continuará evoluindo ao longo dos tempos, como projecto de fraternidade universal pioneiro na tomada de consciência da diversidade e da compatibilidade entre as culturas mundiais. Para a sua concretização, esse ideal de fraternidade terá de transcender os limites espaciais e temporais em que se cristalizou corporativamente no séc. XVIII, pois que o Homem é, como sublinha Jean-Marie Schaeffer, a cristalização genealógica instável de uma forma de vida em evolução.
A validade da metodologia simbolista maçónica perante os sucessivos reptos colocados pelas evoluções sócio-culturais afigura-se incontestável enquanto genuína expressão da Psychologia Perennis. Porém, a sua efectividade e alcance dependerão de que a nossa Ordem, como escola de uma Arte de viver em fraternidade, mantenha a sua própria capacidade evolutiva sem prejuízo da sua vocação iniciática, assimilando na sua didáctica ritualizada os valores essenciais dos conhecimentos que o buril inteligente vai criando.»


*[nota do obreiro deste blogue sobre Filosofia Pererne]
quem sou, de onde venho, para onde vou?
Visão ou intuição de muitos teólogos, místicos e filósofos espirituais de várias épocas, a Filosofia Perene é formada por pensamentos profundos e intemporais sobre as coisas e a vida. Sobre essa realidade os ensinamentos da Filosofia Perene afirmam que o universo não só está interligado e pulsando de vida como é multidimensional, e proclamam:
- A realidade ultima é composta pelo domínio físico (ou fenomenológico) e pelo domínio imaterial;
- os seres humanos existem nestes dois domínios e reflectem dos dois lados da realidade;
- os seres humanos possuem a capacidade de percepcionar a realidade imaterial e reconhecer a sua centelha espiritual mas essa capacidade de percepção encontra-se atrofiada, adormecida pela falta de uso;
- esta percepção é o objectivo maior (iluminação mística), e a sua busca é o bem maior (vivência espiritual) da existência humana.
Todos os grandes mensageiros espirituais e os mestres do misticismo declararam que o propósito da Humanidade é a reunião com o seu princípio criador. De acordo com os seguidores desta filosofia, podemos aceder ao reino espiritual através da meditação, dos rituais, e através de uma vida sagrada.


2012/02/28

o ritual, portal do verbo?


As reflexões não terminaram na câmara de preparação pois a ela segue-se a prática da racionalidade que nos coloca em permanente reflexão sobre nós e sobre o Mundo.
Quero falar-vos de uma das razões que sempre me impediram de praticar um culto religioso estruturado, i. e. abraçar uma das muitas religiões que existem, ainda que, como ser espiritual que também sou, tenha, por vezes, sentido necessidade de procurar, praticar, e partilhar uma exteriorização dessa espiritualidade, que bem podia acontecer através de uma abordagem essencialmente religiosa. Essa razão impeditiva foi o ritual: conjunto de gestos, posturas corporais, ritmos, palavras e formalismos eminentemente simbólicos que, ao “sapiens vertiginosus”, homem submetido ao materialismo e dominado pelo imediatismo, parecem coisa ridícula, senão burlesca.

Paralelamente, considerava de forma idêntica o exercício da exteriorização, da partilha, dos meus pensamentos e sentimentos com outros. Assim me formata a vida hodierna e profana, irónica e retoricamente postulando: Que homens são estes - do início do século XXI em que os avanços da ciência e da técnica são a quase todos os níveis sensacionais e vertiginosos -, que se prendem a pieguices de auto-crítica e contrição pelos seus actos e omissões perante outros que, frequentemente, até são completos desconhecidos?! Ora, nessa lógica superficial do mundo pragmático de hoje, tais coisas são próprias de gente fraca, medíocre, gente vencida, derrotada, que não acompanhou a mudança dos tempos. Neste pensar achava, portanto, ridículos os rituais, como se se tratasse de aprender danças exóticas e complexas de alguma ilha situada nos antípodas da civilização. Como achava ridículos os discursos de compunção, de penitência, ou mesmo a apresentação das mais simples reflexões das coisas espirituais, perante um colectivo.

E assim, neste mundo em que a doxa (opinião) leva a dianteira à aletheia (verdade), a prática de tais rituais e tais exposições pessoais são desconsiderados e desprezados como coisa lamecha e anacrónica. De lado ficam o exercício da racionalidade – a consciência dos valores fundadores da civilização e do humanismo –, e o desdém pela prática dos rituais recebidos em herança, com consequente perda da identidade cultural, da identidade espiritual e da própria consciência crítica.

E isto é grave? É, sim. Porque, descuidados, veremos que a nossa condição de seres humanos continua tão ambivalente como no tempo em que habitávamos as cavernas. Ora, descubro que os rituais possuem outra dimensão para além dos atributos proclamados, descubro que potenciam a aceitação da exteriorização dos nossos sentimentos. São, a um tempo, mnemónicas que abrem as portas do pensamento e do verbo e, simultaneamente, elementos ordenadores e disciplinadores do corpo e do espírito.

Eventualmente, alguns de vós não compreendereis a surpresa que constituiu o resultado desta reflexão pois para aqueles que praticam rituais desde jovens isto não prefigura nenhuma descoberta relevante, mas para aqueles que apenas conheceram uma realidade materialista e afastada de qualquer exploração no domínio do espiritual, ou para aqueles, como eu, que dessas abordagens sempre desconfiaram, esta reflexão é significativa.

Talvez esta exposição vos pareça um tanto falha de conteúdo, mas entendam-na como uma das reflexões iniciais sobre a nova realidade que me é apresentada, sendo também consequência da vontade de praticar e partilhar essa exteriorização da espiritualidade que não logrei reconhecer no culto de qualquer religião, em resposta a esta convicção: cada ser humano é um enigma porque para lá da sua existência material ele encerra um eu inacessível ao conhecimento alheio e difícil à auto-consciência.

2012/02/22

dos portugueses


No que toca à força anímica, não obstante a realidade se apresentar mais complexa e menos estremada do que a fórmula que enuncio a seguir, os portugueses dividem-se, grosso modo, em miserabilistas e cultores da “nacional fanfarrice”, i. e., ora encontramos compatriotas descrentes dos feitos do passado e nas perspectivas do futuro, ora deparamos com acérrimos defensores da exaltação de uma nação prodigiosa à qual está reservada um destino grandioso e iniludível, um protagonismo exclusivo determinado pelo demiurgo - que encontra eco, p. ex., no mito do V Império, desígnio que se cumprirá um dia (?) Pessoalmente, julgo-me num quadro mais colorido do que este, redutor, que acabei de referir. Algures a meio caminho entre um extremo e o outro, podendo tal dever-se à descrença na prática actual de valores basilares da civilização como o exercício da Justiça e o apego à Verdade

2012/01/30

reflexão inicial


«... Primeiro foi a espera, deixado sozinho numa pequena sala, com a sugestão de reflectir sobre a minha opção de entrar num mundo novo que me deveria aportar uma nova realidade, um modo diferente de estar e de ser. A preocupação que mais me assaltou, então, não incidia sobre essa opção, em si, mas sobre as qualidades que ela requeria: homem de bons costumes é algo difícil de definir neste tempo falho de valores em que as virtudes se misturam com atributos mundanos, e em que os referenciais desses valores herdados se mostram, muitas vezes, embotados ao discernimento. Vivemos num mundo repleto de ruídos ensurdecedores, em que não ouvimos os outros e, por vezes, nem a nós próprios. Ora, integrado neste mundo de probidade em convulsão, seria eu, ainda, um homem de bons costumes? Mas a resposta não poderia ser outra: Se o sou, estou no local certo para iniciar a caminhada, e se o não sou também estarei no lugar certo, pois pelo que anuncia a maçonaria, encontrarei nela a orientação para encetar uma caminhada rumo à justeza e à verdade. A busca da Luz.
(...)
Neste espaço obscuro, perante advertências e objectos singulares que convidam à meditação sobre nós próprios e a vida e, portanto, suscitam um olhar introspectivo sobre a minha existência, lembrei-me de um livro que narra as reflexões de doentes terminais, pessoas que, à beira do fim, manifestam frequentemente um profundo arrependimento por não terem tido a coragem de viver de acordo com as suas convicções mas segundo aquilo que acharam ser as expectativas dos outros; de não terem criado e alimentado fortes laços de amizade e fraternidade com os seus semelhantes, até mesmo com os seus familiares, rendendo-se a uma vida alucinante que impede a entrega e a partilha; e de não terem expressado mais vezes os seus verdadeiros sentimentos, tendo, ao invés, adoptado atitudes que visaram tão-somente viver em paz com os outros, afinal uma paz hipócrita, uma vida de falsidade.»