2016/10/23

Reflexões de um aprendiz do Mundo

Reflexões de um aprendiz do Mundo

Definir o que é a Maçonaria não é fácil, para além daquelas definições que encontramos nos nossos catecismos e manuais. A razão para essa dificuldade reside no facto da Maçonaria não ser isto ou aquilo. A Maçonaria sente-se e vive-se, não se reduz a interpretações textuais (logo, sínteses superficiais que não revelam mais do que a forma sem tocar no conteúdo). Assim é a natureza da Maçonaria porque é sentida e vivida de forma diferente por cada Obr.˙. da Arte Real. Ora, descrever sentimentos e experiências pessoais é algo que depende do ponto de vista individual e da sensibilidade de cada um.

No entanto podemos dizer que a Maçonaria, para além daquelas concepções que já temos como adquiridas, é o caminho do equilíbrio entre a ciência e a espiritualidade, é um método de compreender a harmonia de todas as coisas na busca pela Verdade,  e é também a práctica do Amor Universal. É, pois, muito mais do que a evocação exaustiva do Lema (Justiça,  Verdade,  Honra, Progresso) e da Divisa da Ord:. (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) que integra profusamente a práctica ritual - porventura numa evocação bastamente mecanizada e de sentido embotado pela repetição mas que em outros momentos devem ser interiorizados como valores, regras de capital importância para a vivência do quotidiano.

Que a mesma palavra pode ter valores e poderes diferentes consoante o momento e o contexto em que as aplicamos, isso já aprendemos; afinal de contas elas também transportam e potenciam energias fundamentais, assim como o silêncio e a meditação. Descobri que, quando realizamos a Cadeia de União, ao fechar os olhos me é mais fácil canalizar o meu pensamento e, espero, a inestimável energia espiritual, em benefício das pessoas que conheço - que vou fazendo desfilar na minha mente como se fosse uma fita de cinema. Talvez sem tanto sucesso, mas também vou tentando sentir a energia dos demais IIr:. em cadeia, canalizando-a para a mesma finalidade.

Eis o terreno virgem a explorar, a caminhada a percorrer por cada um de nós nesta fraternidade que dá pelo nome de Maçonaria, onde não existem gurus nem líderes infalíveis, pois não defendemos nenhum dogma religioso, nenhuma apostilha indefectível, nenhum modelo de realidade singular. Para o Maç.˙. o Mestre está dentro de si mesmo, e é seu dever procurar encontrá-lo.

Não buscamos o reconhecimento e a fama entre os seres nossos iguais. Após décadas de estudo, práticas, erros e acertos aprendemos e aceitamos ser indivíduos anónimos, sendo cada um de nós apenas mais um na multidão, sem reconhecimento ou distinção especial e sem nenhum engrandecimento social resultante dessa condição de ser Maç.˙..

A educação e instrução tradicionais não nos preparam para aceitar o facto de que quando um indivíduo se eleva, a sociedade humana, como um todo, também se eleva concomitantemente. Então, todo esse trabalho individual representa na verdade uma caminhada colectiva. A cada ser humano que tivermos o privilégio de tirar das trevas da ignorância, mais Luz é derramada sobre toda a realidade mundana.

Para muitos a Luz e o conhecimento significam independência, e esta independência é intolerável para os que acreditam ser superiores aos outros. Por esse motivo a Maçonaria continua a ser olhada com desconfiança e a ser desconsiderada, até atacada. Cada passo que damos na direcção da Verdade e do conhecimento, congrega mais inimigos contra nós. É, pois, uma caminhada de coragem e determinação.

Cada um de nós tem o poder de transformar a sua própria vida e a vida dos que nos estão próximos, com os nossos actos e exemplos. Afinal de contas de nada adiantaria que uma fraternidade orientada por tão altas aspirações nos oferecesse tais conhecimentos e práticas visando o equilíbrio espiritual, se não colocássemos tudo isso em prática. Portanto, a Maçonaria exige de cada um dos seus OObr .˙. mais do que estudo e dedicação, exige que pratiquemos aquilo que aprendemos.

Se um pedinte nos pede dinheiro, como MMaç.˙., temos a obrigação moral e espiritual de atender a esse pedido de esmola. Não sabemos se aquela moeda irá contribuir para aliviar um estômago vazio ou evitar que uma criança caia na perversidade por falta de escolha. A beneficência é uma obrigação irredutível do Maç.˙. 

Também os instrutores ou guias devem ter humildade e equilíbrio, caso contrário estão a ser desleais consigo e com os princípios que defendem. “Pobre daquele que se julga mestre e pensa ter sobre si a responsabilidade espiritual dos actos de todos aqueles que considera discípulos” O verdadeiro Mestre, está dentro de cada um de nós.

O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.? 

Reflexões de um aprendiz do Mundo

Reflexões de um aprendiz do Mundo

Definir o que é a Maçonaria não é fácil, para além daquelas definições que encontramos nos nossos catecismos e manuais. A razão para essa dificuldade reside no facto da Maçonaria não ser isto ou aquilo. A Maçonaria sente-se e vive-se, não se reduz a interpretações textuais (logo, sínteses superficiais que não revelam mais do que a forma sem tocar no conteúdo). Assim é a natureza da Maçonaria porque é sentida e vivida de forma diferente por cada Obr.˙. da Arte Real. Ora, descrever sentimentos e experiências pessoais é algo que depende do ponto de vista individual e da sensibilidade de cada um.

No entanto podemos dizer que a Maçonaria, para além daquelas concepções que já temos como adquiridas, é o caminho do equilíbrio entre a ciência e a espiritualidade, é um método de compreender a harmonia de todas as coisas na busca pela Verdade,  e é também a práctica do Amor Universal. É, pois, muito mais do que a evocação exaustiva do Lema (Justiça,  Verdade,  Honra, Progresso) e da Divisa da Ord:. (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) que integra profusamente a práctica ritual - porventura numa evocação bastamente mecanizada e de sentido embotado pela repetição mas que em outros momentos devem ser interiorizados como valores, regras de capital importância para a vivência do quotidiano.

Que a mesma palavra pode ter valores e poderes diferentes consoante o momento e o contexto em que as aplicamos, isso já aprendemos; afinal de contas elas também transportam e potenciam energias fundamentais, assim como o silêncio e a meditação. Descobri que, quando realizamos a Cadeia de União, ao fechar os olhos me é mais fácil canalizar o meu pensamento e, espero, a inestimável energia espiritual, em benefício das pessoas que conheço - que vou fazendo desfilar na minha mente como se fosse uma fita de cinema. Talvez sem tanto sucesso, mas também vou tentando sentir a energia dos demais IIr:. em cadeia, canalizando-a para a mesma finalidade.

Eis o terreno virgem a explorar, a caminhada a percorrer por cada um de nós nesta fraternidade que dá pelo nome de Maçonaria, onde não existem gurus nem líderes infalíveis, pois não defendemos nenhum dogma religioso, nenhuma apostilha indefectível, nenhum modelo de realidade singular. Para o Maç.˙. o Mestre está dentro de si mesmo, e é seu dever procurar encontrá-lo.

Não buscamos o reconhecimento e a fama entre os seres nossos iguais. Após décadas de estudo, práticas, erros e acertos aprendemos e aceitamos ser indivíduos anónimos, sendo cada um de nós apenas mais um na multidão, sem reconhecimento ou distinção especial e sem nenhum engrandecimento social resultante dessa condição de ser Maç.˙..

A educação e instrução tradicionais não nos preparam para aceitar o facto de que quando um indivíduo se eleva, a sociedade humana, como um todo, também se eleva concomitantemente. Então, todo esse trabalho individual representa na verdade uma caminhada colectiva. A cada ser humano que tivermos o privilégio de tirar das trevas da ignorância, mais Luz é derramada sobre toda a realidade mundana.

Para muitos a Luz e o conhecimento significam independência, e esta independência é intolerável para os que acreditam ser superiores aos outros. Por esse motivo a Maçonaria continua a ser olhada com desconfiança e a ser desconsiderada, até atacada. Cada passo que damos na direcção da Verdade e do conhecimento, congrega mais inimigos contra nós. É, pois, uma caminhada de coragem e determinação.

Cada um de nós tem o poder de transformar a sua própria vida e a vida dos que nos estão próximos, com os nossos actos e exemplos. Afinal de contas de nada adiantaria que uma fraternidade orientada por tão altas aspirações nos oferecesse tais conhecimentos e práticas visando o equilíbrio espiritual, se não colocássemos tudo isso em prática. Portanto, a Maçonaria exige de cada um dos seus OObr .˙. mais do que estudo e dedicação, exige que pratiquemos aquilo que aprendemos.

Se um pedinte nos pede dinheiro, como MMaç.˙., temos a obrigação moral e espiritual de atender a esse pedido de esmola. Não sabemos se aquela moeda irá contribuir para aliviar um estômago vazio ou evitar que uma criança caia na perversidade por falta de escolha. A beneficência é uma obrigação irredutível do Maç.˙. 

Também os instrutores ou guias devem ter humildade e equilíbrio, caso contrário estão a ser desleais consigo e com os princípios que defendem. “Pobre daquele que se julga mestre e pensa ter sobre si a responsabilidade espiritual dos actos de todos aqueles que considera discípulos” O verdadeiro Mestre, está dentro de cada um de nós.

O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.? 

Liberdade

O meu conceito de Liberdade

Entendo que a Liberdade é o desejo inato do ser humano em se tornar integralmente livre. Por isso a verdadeira Liberdade não é apenas a liberdade física e política, mas também a liberdade de pensamento. Só nesse estado o homem pode dar asas a todas as suas potencialidades.

Porém, sendo algo tão grandioso e completo, a Liberdade também assume significado diferente perante situações e culturas diferentes.

Sob o jugo de uma ditadura o conceito de liberdade poderá ser diferente dependendo de quem a avalia ou deseja: um oprimido que nunca a experimentou ou um oprimido que a perdeu terão dela a mesma perspectiva? Por outro lado, será livre aquele que não sofre expressa coacção física, política ou mental mas que vive na insegurança de uma situação de desemprego permanente?

Sei que para muitos a Liberdade não pode ser uma figura de retórica mas um estado no qual o Homem, mesmo amordaçado, permanece fiel áquilo em que acredita de forma integral, física, moral, cultural e espiritual. Mas também sei que existem outros que consideram viver em liberdade mesmo dando a terceiros o poder de decidir tudo em seu lugar, aceitando, até, viver sob o jugo de pesadas regras e restrições, preferindo viver nessa “segurança protectora” de um encarceramento relativo. Daqui decorre a noção de que a liberdade não é mensurável pela austeridade ou permissividade das regras, mas sim em função dos seus objectivos e da forma como é sentida pelo indivíduo.

Uma coisa parece certa: para se ser efectivamente livre é preciso que o Homem queira ser livre e que só em função desse querer se liberte efectivamente das amarras da servidão, seja física, política, religiosa, cultural, ou da sua própria consciência.

E chegamos a uma ideia de Liberdade que trás implicada a ideia de Razão, esse juiz supremo dos nossos actos e ideias. A ideia de julgar implica, inevitavelmente, a existência de regras e de limites. E tal asserção conduz-nos agora à perspectiva maçónica: Para nós, maçons, o conceito de Liberdade envolve a ideia de uma liberdade interior apenas limitada pelo próprio indivíduo, e em que a limitação não depende de quaisquer circunstâncias mas somente das qualidades éticas e morais do indivíduo.

A Liberdade maçônica – que não deveria ser diferente da Liberdade em sentido genérico -, reside portanto no pensamento pois é através do processo cognitivo que qualquer indivíduo se torna absolutamente livre.

É pelo pensamento que a Maçonaria liberta o homem para sua função de edificador da sociedade. Nenhum tirano consegue censurar o que se passa na mente do indivíduo. Apenas o próprio pode aprisionar-se ou libertar-se no íntimo dos seus processos mentais; libertar-se implica trabalhar a pedra bruta; i. e. procurar e alcançar o autoconhecimento.

É esse esforço individual que conduz à liberdade efectiva do indivíduo. Eis a mecânica libertadora que a Maçonaria realiza, contribuindo com a metodologia, o local e as ferramentas; e o obreiro com a sua alma, o coração, a mente, e o seu querer.

E, finalmente, para além de tudo o que já falei atrás, qual é então o meu conceito de Liberdade?

Sou livre? Sinto-me livre? Sim e não!

Sim, no que concerne à consciência que tenho acerca do exercício do meu livre arbítrio; não, pois entendo que a Liberdade também implica Independência e esta não a consigo alcançar nesta sociedade em que tudo tem um elevado valor monetário e em que eu estou limitado no que toca a esse, erradamente híper exaltado, recurso financeiro.

Livre, mas não convencido, disse!

H.

O Marquês e os Jesuítas

O Marquês e os Jesuítas


Passou há pouco tempo na RTP Memória a série “O Processo dos Távoras”, em que o ministro de D. José, Sebastião de Carvalho e Melo (Conde de Oeiras e futuro Marquês de Pombal), é apresentado como um político injusto, um funcionário prepotente animado de sanha persecutória contra nobres e religiosos. E a série retrata a sua actuação contra os opositores, nomeadamente contra aqueles que são apresentados como os seus maiores adversários: A ordem jesuíta.

Ora, para além da nobreza caduca, refém do seu atavismo secular e da estagnação que representa, os jesuítas constituem o outro pólo desse imobilismo que resiste às reformas encetadas por Pombal na implementação de um singular modelo político de Despotismo Esclarecido que constituiu o seu consulado.

Sobre os jesuítas convém relembrar que embora esses homens cultos tenham desempenhado um papel importante na difusão da cultura e da ciência (no início do século XVII acompanharam alguns dos progressos astronómicos de Galileu e chegaram a apoiar e complementar as suas descobertas), em meados do século XVIII recuaram a uma cultura do passado distante, opondo-se às extraordinárias descobertas da última centúria. Tanto assim foi que, em 1746, o padre jesuíta José Veloso, reitor em Coimbra, proibiu o estudo de Descartes, Gassendi e Newton, entre outros, assim como «quaisquer conclusõis oppostas ao sistema de Aristoteles».

A Companhia de Jesus tinha passado à posição de obstrução do progresso científico mas a sociedade tinha-se transformado radicalmente, e o conflito explodiu em 1759, com a expulsão dos jesuítas de todo o território português.

Independentemente de outras razões, mais triviais, moverem o 1º Ministro de D. José – interesses comerciais familiares no Brasil, eventualmente causticados pelos jesuítas-, o facto é que Sebastião de Carvalho e Melo, talvez doutrinado na dinâmica e na política inglesa, que admirava,  protagonizou o corte com a inércia da fidalguia que não preconizava nem deixava florescer progressos idênticos ao que outras nações registavam.

Os jesuítas nunca foram esses destacados portadores dos ideais humanistas, que alguns lhes atribuem. Uma abordagem antropológica à missionação jesuíta no Brasil também é, disso, estudo bem revelador.


Com todos os erros que terá cometido no desempenho das suas funções, acrescentados pelas suas fraquezas e defeitos como pessoa, ainda assim Pombal reunirá um crédito de protagonismo benéfico para o Portugal dessa época, que os feitos da Companhia de Jesus e da nobreza coeva não terão logrado, sequer, imitar.

H.

Da Beleza

DA BELEZA

A Beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, pelo contrário assumiu formas diferentes segundo a cultura de cada período histórico e de cada região, quer na apreciação do homem ou da mulher quer na dos objectos, dos animais e das paisagens, ou mesmo a beleza das ideias e, até, da divindade.

Por vezes, num mesmo tempo histórico a beleza é abordada de forma muito diferente consoante é retratada pelos pintores e escultores ou pelos escritores. Basta pensar como um ser alienígena interpretaria a noção de beleza feminina se deparasse simultaneamente com uma pintura de Almada Negreiros e uma descrição literária de Camilo Castelo Branco, ainda que estes autores não tenham coexistido no tempo (Camilo morreu em 1890, Negreiros nasceu 3 anos depois).

Do Almada refiro-me a uma daquelas mulheres matronas, cubistas e debruçadas sobre si, contendo o mundo em si. Do Camilo, a pormenorizada descrição de uma Isaura que, cito: «… não é alta. Pertence àquela estatura que chamam mediana, a mais regular, a menos defeituosa, (…) [os cabelos] Negros e luzentes, levemente ondeados, nus de enfeites e ataviados com comodidade, e gentileza. Duas grandes tranças lhos dividiam, para se entrançarem de novo, presas em duas grossas roscas por travessas. Quando as soltava, as duas serpentes ondeavam-lhe por sobre as espáduas até à cinta. (…) [as sobrancelhas] irrepreensivelmente curvas, dividem-se por uma incisão quase imperceptível: longas, negras, e bastas. As pestanas, se ela descai as pálpebras naquele pendor da meiguice natural, quase lhe quebram a luz dos olhos, alindando-os, se é possível, ainda mais. (…) [os olhos] Meigos e vertiginosos. Reflectem a luz frouxa das paixões suaves, e as labaredas cintilantes das paixões escandecidas.».

Ora, na sociedade ocidental é o ideal masculino que pontifica, um ideal preso ao instinto sexual que explica e justifica o apreço pelos traseiros femininos proeminentes, com reservas de gordura para a gestação, os quadris largos que facilitam o parto, e os seios fartos para amamentar. E contra isto pouco pode a moda, contra essa memória táctil dos homens que por muito que apreciem uma mulher linda e magra jamais esquecerão a diferença entre estreitar nos seus braços uma cintura feminina que deixa revelar os ossos ou uma cintura substancial, bem mais voluptuosa.

As sociedades modernas ocidentais estabelecem ainda uma relação entre beleza física, inteligência e poder económico, ou seja, cultiva-se a crença de que uma pessoa bonita tem mais capacidades e mais sucesso. Dos feios considera-se sempre que são pobres, rudes, e falhos de êxito. Tal preconceito ainda amplia mais as dificuldades de ascensão social dessas pessoas; o poeta Vinicius de Morais já tinha escrito a respeito das mulheres: «as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.».

As preocupações com o Belo já vêm de longe. Platão terá sido um dos primeiros pensadores a formular a pergunta “O que é o Belo?”, empreendendo uma resposta ampla e cabal em que o Belo é identificado com o Bem, a Verdade e a Perfeição.

Assim, ao conceito de beleza atribuiu uma natureza autónoma, separada do mundo sensível, justificando que uma coisa é mais ou menos bela dependendo da sua inscrição/participação na ideia suprema de beleza; e criticou a arte que se limitava a copiar a natureza ignorando a beleza que o mundo das ideias contém. Mas se Platão ligou a arte à beleza, Aristóteles separou-a, anunciando que a arte é uma criação especificamente humana, e que o Belo não pode ser desligado do homem pois existe neste intrinsecamente.

Na Idade Média o cristianismo fundou um conceito de Beleza identificando-a com Deus, o Bem e a Verdade. E por aqui se seguirá durante séculos, numa colagem excessiva da ética à estética. Santo Agostinho acorrentou a beleza à harmonia, evocando o concurso da unidade, do número, da igualdade, da proporção e da ordem; reiterando que a beleza do mundo não é mais do que o reflexo da suprema beleza de Deus. Por sua vez, São Tomás de Aquino ligou-a ao Bem e à observância de determinadas condições fundamentais: Integridade ou Perfeição; Proporção ou Harmonia; Claridade ou Luminosidade; uma vez mais identificando a beleza com Deus.

Entre os séculos XVI e XVIII as academias impõem as estéticas aristotélicas e as suas regras visando alcançar a perfeição na arte, ainda que na segunda metade do séc. XVIII comecem a emergir ideias que proclamam a subjectividade do Belo. É o tempo em que as sociedades europeias atravessam grandes convulsões, com o início da revolução industrial e as importantes alterações políticas verificadas na América e na França. Nesta conjuntura de efervescências novas ideias despontam e a questão do Belo é equacionada como um problema de gosto.

E neste contexto surge Immanuel Kant, o criador do pensamento que embasa a estética contemporânea. Para este filósofo do séc. XVIII os nossos entendimentos estéticos têm fundamentos subjectivos dado que não se podem apoiar em conceitos pré-determinados. E assim, o critério de beleza que neles se exprime é o do simples prazer que nos acomete. A universalidade do Belo passa a ser subjectiva, como subjectivo é o juízo do gosto.

«Continua a ser verdade que, ao julgar belo um objecto, consideramos que o nosso juízo deve ter um valor universal e que todos devem (ou deveriam) partilhar o nosso julgamento. Mas como a universalidade do juízo do gosto não requer a existência de um conceito a que e deva adequar, a universalidade do belo é subjectiva: é uma pretensão legítima da parte de quem exprime o julgamento, mas não pode assumir de maneira nenhuma o valor de universalidade cognoscitiva. “Sentir” com o intelecto que a forma de um quadro de Watteau que representa uma cena galante é rectangular ou “sentir” com a razão que cada gentil-homem tem o dever de oferecer ajuda a uma mulher em dificuldade não é o mesmo que “sentir” que seja belo o quadro que está a ser examinado: de facto, neste caso, tanto o intelecto como a razão renunciam à supremacia que respectivamente exercem no campo cognoscitivo e no moral, e metem-se em jogo livre com a faculdade imaginativa, segundo as regras ditadas por esta última.» ECO, Umberto – História da Beleza (p. 264)

Embora se reconheça, então, a incapacidade da Razão em impor os seus valores sobre esta matéria tão subjectiva que é a definição do Belo, ela (a Razão) não está afastada da discussão; mormente pela mão daquele eminente filósofo que consegue inscrever parcialmente essa natureza vaga nas regras da Razão.

Ainda no século XVIII ganham força as noções de génio, gosto, imaginação e sentimento e assiste-se à construção do conceito Sublime. Uma vez que o Belo é uma expressão da liberdade, sentimo-nos livres na beleza porque os instintos sensíveis estão em harmonia com a lei da razão; já o sentimento de liberdade no sublime deriva do facto dos instintos sensíveis não terem influência sobre as leis da razão, porque aqui é o espírito que age autonomamente. Esta aparente contradição mais não espelha do que o dualismo da natureza humana.

Em seguida, os românticos exploram as dualidades, nomeadamente a anterior entre Belo e Sublime, e levam mais longe essa constatação da natureza dual, da ocorrência dos géneros, na nossa qualificação estética do mundo: beleza e melancolia; coração e razão; reflexão e impulso coexistem, sendo essa coexistência encarada como natural.

O Séc. XIX trará consigo uma autêntica religião da beleza, emoldurada pela efémera época de ouro do Ocidente: o período vitoriano em Inglaterra, o Segundo Império em França, o pontificado das virtudes burguesas e o despontar do capitalismo. Neste ambiente os artistas arriscam e avançam quebrando todas as normas, procurando o inusitado, o excêntrico, o inalcançável, ofendidos e talvez assustados pelas máquinas que oferecem a pura funcionalidade de novos materiais. Em parte, como reacção a essa uniformização e democratização galopantes, artistas como Courbet, Monet, Manet, Cézanne e outros rompem com os cânones e as convenções do academismo, anunciando a eclosão da arte moderna.

E no século XX sucedem-se as rupturas e explode uma multiplicidade de novas manifestações criativas. Surgem as artes decorativas, a art naif, a arte dos povos primitivos coevos, o artesanato rural; a Fotografia, o Cinema, o Design, a Rádio, etc.

Por outro lado, assiste-se a uma permanente insistência desconstrutivista em relação a todas as categorias estéticas: os conceitos e as fronteiras entre as artes são contestados; a arte é dessacralizada e perde a sua carga mítica e iniciática, tornando-se frequentemente um simples produto de consumo.

Neste ambiente, as estéticas normativas concebem uma beleza fundamentada em princípios inalteráveis, como a estética fenomenológica de Husserl; as estéticas marxistas e neomarxistas que vincam marcadamente a sua orientação sociológica; ou a estética informativa que procura sistematizar a avaliação da componente inovadora presente em cada obra de arte; mas é na estética das ciências que os ideais de beleza alcançam um discurso tanto mais revelador quanto inesperado. Raul Penaguião, um jovem matemático português, de 18 anos, dizia em 2012: «…a Matemática aplicada não me entusiasma muito, entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas, pelo que quero seguir Matemática pura e investigação, e não tanto o quanto se relaciona com a realidade, pois nesse relacionamento perde-se muito: já dizia Albert Einstein, “Se as leis da Matemática se referem à realidade, elas não estão correctas; e, se estiverem correctas, não se referem à realidade”.»

Eis como ideia do Belo se impõe de uma forma tão óbvia aos valores concretos da realidade, reafirmando que a vida também encontra sentido numa componente subjectiva que existe para além do universo material.

Nós, seres humanos, temos necessidade de procurar ou criar a beleza, não só para recreação intelectual mas sobretudo porque ela é um guia para a vida, mesmo que o seu conceito dependa apenas de uma noção pessoal de harmonia.

H.

Fontes consultadas:
- BOHM, Camila Camacho - UM PESO, UMA MEDIDA - O padrão da beleza feminina apresentado por três revistas brasileiras, Universidade Bandeirante de São Paulo
São Paulo, 2004
- ECO, Umberto – História da Beleza, Ed. Difel, Lisboa 2005
- GUATIMOSIM, Bárbara Maria Brandão - O BELO E O SUBLIME, Psicanálise & Barroco em Revista v.6, n.3: 48-59, jul.2008
- LINO, Alice de Carvalho - Considerações kantianas sobre os Gêneros -
PADÊ:estudos em filosofia, raça, gênero e direitos humanos, UniCEUB, FACJS Vol.2,N.1/07. ISSN 1980-8887
- LINO, Alice de Carvalho – Belo e Sublime: A Mulher e o Homem na Filosofia de Immanuel Kant – Universidade Federal de Ouro Preto, 2008
- SATIE, Luis - Estética e ética em Kant - Escola Superior de Administração Fazendária,
Filosofia Unisinos, 2009

- VALENTE, Mariana – A Beleza das Ideias na Educação Científica – Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência, Departamento de Física, Universidade de Évora. Comunicação ao Seminário transdisciplinar “Currículo, Didáctica e Formação de Professores”- Évora, Maio, 2014

Igualdade e Justiça Social

Igualdade e justiça social

Quando, num sistema de Economia de Mercado, ouvimos falar em Igualdade imediatamente depreendemos que se trata da tão famosa igualdade de oportunidades para empreender e ter êxito. Mas bem sabemos que em nenhuma sociedade existe essa igualdade real de oportunidades, porque o sistema a não promove minimamente ou porque, promovendo-a, compromete-a pela acção corrupta de muitos dos agentes do Estado – p. ex. os políticos.

John Rawls (1921-2002)  propôs um método para construção de uma sociedade efectivamente justa. Vou explicar-vos como funciona a coisa. Porém, atentemos previamente a estes casos díspares que ocorrem frequentemente na sociedade tal como está estruturada. O futebolista Cristiano Ronaldo factura cerca de 33 milhões de euros por ano, entre salário e ganhos com publicidade - mais de 90 mil euros por dia, quase 4 mil euros por hora.

Quando, em 2012, se soube que o ex-ministro Eduardo Catroga poderia vir a receber 600 mil euros por ano pelas suas funções de presidente do Conselho Geral da EDP, houve indignação; até porque o ex-ministro tinha participado nas negociações com a troika – e portanto teve responsabilidades nos cortes salariais de pessoas que recebem uma ínfima parte daqueles valores. Aos críticos Catroga explicou que, tal como acontece no futebol, o seu salário era ditado pelo valor de mercado.

Uma notícia proveniente do distante Camboja faz-nos saber que uma mulher de 48 anos, pressionada pela fome, vendeu o seu cabelo por cerca de 6 euros, explicando ao jornalista que embora todas as mulheres gostem de estar lindas, entre a beleza e a fome, não tinha dúvidas sobre o que escolher. Em conclusão ficamos a saber que o valor de mercado do cabelo de uma cambojana de 48 anos é de 6 euros.

Perante estes exemplos facilmente concluímos que a fonte de muitos problemas que actualmente ferem a humanidade reside neste sistema baseado no mercado.

A solução de John Rawls passa por reiniciar o sistema social imaginando que não sabemos a posição que ocuparemos nela – se seremos ricos ou pobres, bonitos ou feios, homens ou mulheres, jogadores de futebol, ministros ou serventes de limpeza porque, se à partida, eu não souber que posição ocuparei na sociedade, tentarei garantir que a repartição dos bens e das riquezas seja equitativa, e essa será a única forma de garantir a minha satisfação, seja qual for a posição, a ocupação ou a posse material que me caiba.


Interessante, não acham?

H.

Da Moral Maçónica


Diz-se moral aquilo que está em conformidade com a honestidade e a justiça, que tem bons costumes; diz-se de tudo o que é decente, educativo e instrutivo. Moral é também a disciplina da Filosofia que trata dos actos humanos assentes nos bons costumes, e nos deveres do homem em sociedade e perante os seus iguais. Moral é, ainda, o conjunto de normas ou preceitos adoptados para dirigir os actos humanos de acordo com a justiça e a equidade natural.

A moral surge nos alvores da civilização humana. E é importante esta percepção de que a moral depende da civilização, ou é por ela reformulada nos moldes em que a conhecemos, já que a sociedade primitiva não censurava o canibalismo, o incesto, a pedofilia, os homicídios dos idosos e inválidos, e toda uma panóplia de atrocidades que o progresso intelectual e a construção cultural vieram instituir e regular.

Até ao final do regime feudal, em que vigorou o sistema esclavagista, os estratos sociais inferiores não passavam de objectos e como tal tratados no âmbito da transação de propriedade. Chegado à Idade Contemporânea, balizada pela revolução Francesa, o Homem liberta-se da opressão do feudalismo, cria a liberdade de ação e de pensamento e surgem os ideais humanistas e uma nova moral, várias morais até, e algumas delas individualistas pois é verdade que não existe uma moral eterna e imutável; a moral é histórica, conjuntural e sempre determinada pela classe dominante.

A Maçonaria exige aos seus membros uma boa reputação moral, o exercício da tolerância para com as diferentes manifestações de opinião, religião, política, ou filosofia, desde que os seus objetivos prossigam a conquista da verdade e a defesa dos valores morais, e propugnem pela paz e o bem-estar social. A moral maçónica constitui o objeto principal da sua filosofia racionalista. Esta moral está vertida nos símbolos e rituais que se têm mantido imutáveis ao longo da existência da Maçonaria.

Sendo a Maçonaria uma instituição comprometida com o Mundo - embora de cariz ético, filosófico e iniciático -, instrui os seus membros para serem homens de bem, com sólidos princípios morais e para trabalharem para o seu aperfeiçoamento em benefício individual e colectivo. Os ensinamentos maçónicos direccionam os maçons para a dedicação à felicidade dos seus semelhantes, não somente porque tal obrigação é imposta pela razão e pela moral mas principalmente porque esse sentimento de solidariedade os transforma em irmãos. Desta forma o maçom é útil ao progresso moral da humanidade.


Por tudo isto é importante desenvolver uma moral maçónica que controle as paixões, ajude a reconhecer e corrigir os nossos defeitos e cultue a inteligência. Esse é o nosso caminho moral.

H.

2016/06/20

A Maçonaria Feminina


LIVRO: As Mulheres na Maçonaria (Portugal 1864-1950);
AUTOR: Fernando Marques da Costa;
EDIÇÃO: Editora Âncora (Campo da Comunicação), 2016



(…) A história da maçonaria é um território de equívocos. Equívocos que incorrem os maçons, os antimaçons, os historiadores militantes ou mesmo os mais frios profissionais. Para a que a culpa não morra solteira é bom referir que tanto equívoco foi criado pela maçonaria.(...)

Texto completo aqui

2016/05/26

espiões ou piolhões?

«Era um dos mais antigos funcionários dos serviços de intelligence. Foi detido sexta-feira, as autoridades portuguesas confirmaram a notícia esta segunda-feira, sem adiantar a identidade do espião. O Expresso sabe que se trata de Frederico Carvalhão Gil. Frederico Carvalhão Gil é apontado como sendo membro da maçonaria, primeiro na Grande Loja, depois no GOL.» notícia daqui

A Tolerância maçónica é um valor profundo mas, simultaneamente, a maior fragilidade da maçonaria. Qualquer homem de maus costumes e escravo de vícios, mestre de artimanhas e fingimentos, poderá enganar os irmãos, a loja e a Ordem e fazer parecer aquilo que não é. Quanto a este assunto, convém saber que a traição à pátria é um crime grave referenciado nas leis maçónicas.

2016/02/02

Mono arquias

Em resposta a este artigo 

«A maçonaria - os pedreiros livres - nascem como um dos primeiros lobbies corporativos registados na Europa. A esquerda gosta de os apresentar associando-os a uma condição humilde (pedreiros!) omitindo que eram a elite cultural do seu tempo e que como artífices altamente qualificados que eram, auferiam os rendimentos mais elevados da época.»
Se isso é o que diz a esquerda, o que diz a direita maçónica? Bem se vê que o autor não leu nenhum livro de História da Maçonaria, se o tivesse feito saberia que em todos eles se distingue Maçonaria Operativa de Maçonaria Especulativa e se reconhece que efectivamente esta última era constituída pela elite cultural do seu tempo, e maioritariamente monárquica. A composição da maçonaria francesa nas vésperas da Revolução serve de exemplo: alta burguesia, clero e alguma nobreza, sans culottes e revolucionários é que certamente não havia. São os mitos sobre a Revolução Francesa, mormente sobre a participação da Maçonaria. Mesmo a respeito de republicanos, deviam contar-se pelos dedos de uma mão os que assim se consideravam e que participaram na revolução de 1789. Há uma incapacidade “digestiva” que afecta os monárquicos contemporâneos em reconhecer que a revolução francesa foi iniciada por monárquicos e não por republicanos – e certamente contava com alguns maçons entre eles.
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«Como elite cultural, e sentindo a necessidade de discrição inerente a todos os grupos corporativos, associado às crenças próprias da época do seu surgimento - final da idade média / início da idade moderna - a maçonaria encasulou-se em práticas próprias, cheias de rictos místicos e símbolos cujo significado procuram proteger. Ainda hoje assim é (embora os artesãos que a compõem já sejam de outras “artes”).»
Associado às crenças, não. Antes denunciando as crenças e pugnando pelo livre-pensamento, coisa que veio incomodar o establisment mental, principalmente o tutelado pela religião, enquanto pseudo-detentora da Verdade, i.e. os pais do dogmatismo.
Em todo o caso, generalizar é tão acertado que até me permitiria dizer que todos os monárquicos são idiotas e anacrónicos – o que é obviamente ridículo.
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«E ao longo da sua história, a maçonaria mais não tem feito que, continuadamente, obrigar os seus membros a uma obediência estrita e cega, única forma de garantir que se protegem uns aos outros e que isolada e colectivamente concorrem para a defesa dos interesses de cada um. Ocasionalmente até se darão uns ares de contribuírem para a sociedade no meio da qual se movem e vivem, embora a nobreza das suas intenções esteja por comprovar.»
Falar daquilo que se desconhece tem sempre o inconveniente de errar desbragadamente. Mas convinha não confundir a Maçonaria com qualquer Igreja ou partido político. Não há, na Maçonaria, dogma intangível em que acreditar nem ordem superior a que obedecer cegamente. Quanto ao defenderem-se uns aos outros, se assim não procedessem ao longo dos tempos teriam sido exterminados pela verrina do obscurantismo de que o presente texto é um bom exemplo, embora atenuado pela civilidade hodierna - e não é difícil imaginar como seria se escrito há um século atrás.
E não, os maçons não se dão ares de contribuírem para a sociedade porque os seus contributos, parcos ou avultados, são sempre discretos. Ao contrário da hipocrisia dos bem-feitores tradicionais, não publicitam a oferta de uma cadeira de rodas a um necessitado, como não procedem ao espectáculo da esmola à porta da igreja local (mas tais atitudes são compreensíveis sobretudo quando provenientes de uma religião que tem por divindade uma entidade que deixou o seu filho morrer na cruz por uma questão de marketing).
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«Diga-se que nem todos os maçons o sejam apenas por ambição interesseira, que muitos o são por crença dogmática na bondade da organização. Poderá ser boa... mas da fama de má é que não se livra.»
A crença dogmática é para outros, que se sentem necessitados dela, não para os maçons. Quanto à má fama, ela deve-se tanto aos falsos maçons – que também os há, ao aproveitarem-se da tolerância da Ordem – como das históricas perseguições movidas pelos seus detractores de antanho, tanto quanto à incompreensão derivada do obscurantismo dos detractores de hoje.
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«Foi a maçonaria que dividiu o país durante as invasões francesas - as obediências francesa e inglesa nunca se puseram de acordo e submetidas a uma “obediência portuguesa” que não existia.»
Para além de não se perceber a relação que tenta estabelecer estre as duas maçonarias estrangeiras com a portuguesa, também não é assertivo nessa ânsia de tudo imputar à Maçonaria. Independentemente da influência dos maçons presentes em ambos os lados do conflito, as razões da divisão do país serão mais do foro político e de imperativos de ordem prática militar. Teríamos de tratar aspectos mais concretos para abordar este assunto.
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«Foi a maçonaria que influenciou a independência do Brasil (país onde está fortemente implantada).»
E também pode acrescentar os Estados Unidos da América, mas não o afirme em relação à França pois tal não é correcto – ainda que alguns maçons desavisados também o tenham afirmado, reproduzindo a invenção do Abade Barruel.
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«Foi a maçonaria que iniciou o republicanismo em Portugal - e da forma como o fez, é este o seu maior crime contra o país:»
Parece não haver dúvidas acerca da participação activa de inúmeros maçons na implantação do republicanismo em Portugal. Quanto à qualificação desse facto, o autor apoda-o de crime, eu de glória. Mas convinha diferenciar entre acção da Maçonaria, que não o foi, de acção em que participaram maçons, o que terá sido.
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«No dia 1 de Fevereiro de 1908, Manuel Buiça e Alfredo Costa, num atentado de surpresa tiram a vida ao Rei D. Carlos e ao Príncipe D. Luís Filipe, até este dia, herdeiro do trono. Os dois atiradores eram elementos da carbonária, uma organização subsidiária da maçonaria (aliás, por muitos vista como o seu “braço armado”) e no dia 4 de Outubro de 1910 a maçonaria inicia o golpe que numa fantochada rocambolesca - digna das melhores comédias de Hollywood - culmina com a declaração da implantação da república (em Lisboa) no dia seguinte. No resto do país a república foi implantada por telégrafo e apenas no dia 6, perante a indiferença geral. E a partir deste dia, os criminosos Manuel Buiça e Alfredo Costa deixaram de o ser e passaram a louvados mártires da causa republicana.»
Tal era a qualidade dessa monarquia que caiu e foi obliterada por uma “fantochada rocambolesca”?! Nada a acrescentar, pois perante tais afirmações só posso ironizar.
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«E de então para cá a maçonaria não tem parado de crescer e de exercer a sua influência em todos os sectores de actividade de um país cuja única esperança é que ela cresça de tal forma que impluda sobre si própria.»
Durante a 1ª República a Maçonaria cresceu efectivamente, para reduzir drasticamente durante o Estado Novo, e crescido moderadamente após 1974, mantendo-se assim até ao presente (não alcançará os 7.000 membros divididos pela meia dúzia de obediências existentes). Gostava de saber é como é que estes 7.000 portugueses conseguem “influenciar todos os sectores de actividade” quando apenas uma percentagem reduzida deles está envolvida na política e estão, ainda, divididos por 3 ou 4 partidos e, mais importante, divididos em meia dúzia de obediências maçónicas, algumas sem qualquer relação entre si, tampouco um tratado de amizade que permita reuniões comuns?! Andamos com a febre das teorias conspirativas, claro!
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«Ciente da fragilidade da pretensa “pulsão republicana” do país, a maçonaria apressou-se a blindar o modelo de organização do Estado, impondo no texto Constitucional que Portugal é uma república, o que impede quaisquer veleidades monárquicas a quem quer que seja antes do texto ser revisto. Ciente da fragilidade da pulsão republicana do país e da credulidade primária do povo, a maçonaria tem até propagado que a república já foi sufragada (e quando questionada sobre quando é que isso foi feito, respondem com os parcos resultados eleitorais do PPM em todos os sufrágios a que se apresentou).»
É evidente e natural que o novo regime (e não a Maçonaria) tenha procurado blindar-se e evitar o regresso ao anterior. Se o fenómeno fosse o inverso, seria perfeitamente natural que sucedesse coisa semelhante. Porém, hoje, e ao abrigo das concepções que temos da Democracia, os maçons são os primeiros a defender a possibilidade de alterar a constituição para permitir a vigência de um regime monárquico; tal como defendem o valor superior do referendo universal; tal como é intrínseco ao próprio conceito de Democracia.
A Maçonaria não está nem esteve contra a monarquia; simplesmente não impõe aos seus membros nenhum modelo político, deixando-os lutar e pugnar pelos ideais em que cada um acredita. Hoje, tal como em 1910 ou 1920, existem republicanos e monárquicos na Maçonaria.
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«Passam hoje 108 anos sobre o assassínio de um Rei e do seu Filho.
Um Rei que se debatia com a fragilidade económica, mas mesmo assim procurava modernizar o país e puxá-lo para o mesmo patamar das nações suas parceiras, um Rei que procurava a unidade do Estado e pugnava pelo bem-estar do povo (quiçá, por não apoiar ilicitudes na protecção de interesses de uns quantos teve o fim que se conhece), acaba trocado por um regime que se tinha a si próprio como o fim em si mesmo, perdido nas intrigas mesquinhas e nas disputas de interesses que ainda hoje testemunhamos, com os resultados que estão à vista de todos.»
É o chamado lirismo de alcova. O facto é que se sua majestade procurava tudo isso, nunca o alcançou, nem andou perto. Provavelmente procurava no fundo do mar ou nas telas que pintava, ou nalgum dos pauis em que caçava patos. É escusado tentar elevar o protagonismo da real pessoa acima da existência fútil, e relativamente alheada da realidade, que caracterizava a esmagadora maioria dos coroados dos inícios do séc. XX. Também não vale a pena tentar imputar ao rei os males que se viviam no Portugal de então. É certamente, e principalmente, culpa da qualidade dos políticos que existiam (na monarquia e na república que lhe sobreveio), tal como o é aos políticos de hoje a falta de qualidade da Democracia que temos. E em última análise, à falta de qualidade do povo que somos.
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«Seriam estes resultados evitáveis se ainda vivêssemos sob uma Coroa?
Ninguém sabe - as coisas são como são e foram como foram. Seguramente, a monarquia em Portugal sempre procurou andar ao compasso do seu tempo e o fosso que separava Portugal dos restantes países, longe de estreitar, com a república aumentou.
É este texto um libelo contra a república? Contra a maçonaria?
Os factos são o que são.
Se a República quiser ser melhor que a Monarquia, tem que fazer melhor, muito melhor. Se a Maçonaria quer limpar a sua imagem, tem que se tornar mais transparente, muito mais!»
«Se a Republica quiser ser melhor», como se a Monarquia o tivesse sido. Se o povo e os políticos são os mesmos, com a mesma qualidade ou falta dela, como pode a monarquia ser substancialmente diferente da república? Cada um pinta os factos como pode. Eu tenho consciência do (meu) uso das tintas, por isso duvido bastante, sobretudo daquilo que me é próprio e próximo. Ao que não me é próximo encolho os ombros, porque me parece que aí não pontifica esse exercício da dúvida. E de dogmas não estou comprador.
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«Apenas recordo factos:
Há 108 anos, houve um duplo assassinato e há 106 os assassinos passaram a heróis...»
E depois? Quantos príncipes e reis não o fizeram em 700 anos de história monárquica portuguesa, nunca plebiscitada?!
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Assim respondo eu, livre-pensador, libertário de Direita, agnóstico e maçom, sem vincular com estas respostas o pensamento de nenhum outro livre-pensador, libertário de Direita, agnóstico ou maçom.

2015/09/13

Não vou, fico!

Nesta vida neurótica hodierna destruímos a nossa identidade, deformámos a nossa personalidade. Andamos por aí, à deriva pela vida, vagueando num limbo pejado de imitações dos arquétipos ditados pelo consumismo vigente. 
O homem de hoje já não sabe coexistir com a sua natural inquietude, tampouco com a sua própria subjectividade. Tudo tem de obedecer a um desígnio pragmático; os rituais do quotidiano foram substituídos por autênticos vícios que causam dependência, a Internet, o hipermercado, a TV com a telenovela e o futebol... tal como as férias alucinantes em que se tem, obrigatoriamente, de sair de casa arrastando a família, ou sendo arrastado por ela, em que se tem de ir àquela praia, àquela party; e se assim não acontecer, ficamos frustrados e infelizes.
Já não sabemos conversar, conviver, partilhar. E as viagens, esses périplos neuróticos para onde nos atiramos com bagagens e paus de selfies para registar tudo, tudo aquilo que não vivemos, com a chancela do nosso rosto afirmando “eu estou aqui”.
É a neurose da sociedade global em ligação, em produção de ruído - coisa diferente de comunicação.
Hoje não existe recato, não existe privacidade.
Frequentemente, gosto de me isolar, quer mentalmente nos meus sonhos, leituras, imaginações e reflexões, quer fisicamente em algum lugar pouco frequentado como um vale verdejante não muito distante, ou o sótão da minha casa.
Para quê, então, esse imperativo de viajar, para que tenho de ir conhecer mais lugares se nem consigo conhecer, como gostaria, o pequeno mundo que me rodeia?
Porque devo ir em busca de outros e do que porventura terão para me oferecer, se nem exploro convenientemente o que acontece dentro de mim?
- Vamos acolá, vem.

- Não vou, fico!

2015/06/02

Maçonaria Para Quê?


A child cries in a cave shelter in Tess village in the rebel-held territory of the Nuba Mountains in South Kordofan.

É inequívoca a crescente desumanização da sociedade resultante por um lado da má condução dos povos e das economias nesse processo empolgante a que demos o nome de Globalização, e por outro lado pelo modo de vida vertiginoso que desregula o pulsar natural do ser humano e prejudica o seu ritmo ingénito – efeito secundário e nocivo da sociedade industrializada.

Os antimaçónicos esgrimem que a maçonaria, ao posicionar-se contra as “verdades” mundanas e o dogma teológico convencional, é inimiga das instituições que são contrárias aos princípios do racionalismo, da dúvida metódica, ou da liberdade religiosa. Trata-se, claro, de uma falsidade, pois bem sabemos que a Maçonaria não tem por objectivo confrontar ou destruir religiões, desde logo porque não se foca nas instituições, depois porque pugna pela liberdade total do indivíduo na escolha das suas convicções. A Maçonaria defende ideias e tem exactamente por objecto e objectivo, o indivíduo. Portanto não se coloca na posição de “atacar”, mas sim na posição de “defender”. Defende a liberdade de cada um adoptar o que entende melhor para si, a liberdade de construir o seu presente e decidir o seu futuro, de edificar o seu templo interior e a identidade que almeja.

Assistimos, quotidianamente, a uma profunda e entorpecedora alienação dos indivíduos em relação a muitos assuntos que deviam preocupar todos os homens e mulheres deste mundo insano em que alastra a corrupção, em que se ampliam as assimetrias sociais e económicas e se aprofundam os fossos entre ricos e pobres, em que a miséria se multiplica vertiginosamente. Num mundo assim a Maçonaria continua a ser necessária, como imperioso continua a ser defender os valores que a civilização conquistou ao longo de 7.000 anos (considerando-a fundada pelos Sumérios cerca de 5000 a.C).

Por outro lado, a Maçonaria mantém-se como um reduto de quantos acreditam que a existência humana não é apenas aquilo que se manifesta materialmente e que a condição humana é estática e que a essa condição nos devemos resignar. Podemos ser melhores, podemos aperfeiçoar-nos como indivíduos, como cidadãos, como profissionais, como pais e mães, como amigos, e também na relação com os outros e com o princípio criador. E nessa caminhada de progresso interior cada um traça o seu caminho para se aperfeiçoar.

A Maçonaria afirma que é possível, e desejável, construir uma sociedade em que cada indivíduo possa alcançar a felicidade. Ora, considerando a quantidade de pessoas que não possuem essa satisfação, nem sequer um qualquer patamar de realização pessoal, a Maçonaria continua com uma gigantesca e hercúlea tarefa pela frente.

Contra a modorra da alienação, contra o logro da mentira e o facilitismo da irresponsabilidade, contra uma sociedade patologicamente neurótica, repleta de vacuidades e futilidades, vivendo das aparências; contra tudo isso brandimos a Razão, numa luta pela Justiça, pela Verdade e pela Fraternidade, que inclua todos os seres humanos.


LIF

2015/03/29

Da Maçonaria na Revolução Francesa à Revolução Francesa na Maçonaria



dos sans-culotte aos sem-cabeça
Da Maçonaria na Revolução Francesa

à Revolução Francesa na Maçonaria

Sobre a relação da Maçonaria com a Revolução Francesa são muitos os absurdos publicados, quer em obras consideradas idóneas e de referência historiográfica quer em múltiplos sítios na Internet. No fundo, tudo não passa de uma lenda que imputa aos maçons a autoria da Revolução. Lenda nascida em 1792 sob a pena do Abade Lefranc, popularizada em 1797 pelo Abade Barruel e continuada no século XX por Augustin Cochin entre outros, e que coloca em evidência o suposto grande número de revolucionários maçons e a importância do simbolismo maçónico na iconografia revolucionária. O despautério propagou-se e multiplicou-se até aos nossos dias, encontrando eco em várias formas e suportes de informação, mesmo entre maçons, eis alguns deles:

«A maçonaria teve influência decisiva em grandes acontecimentos mundiais, tais como a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos. Tem sido relevante, desde a Revolução Francesa em diante, a participação da Maçonaria em levantes, sedições, revoluções e guerras separatistas…»  

«Em 1789 , de todos os movimentos libertários, foi na Revolução Francesa que a Maçonaria teve uma participação mais forte, e que resultou no massacre de milhares de pessoas e na anulação do conceito de religião, quando a França “aboliu” a existência de Deus e entronizou em seu lugar uma prostituta como deusa “Razão”; passando à perseguição dos religiosos e à destruição de todos os exemplares das Escrituras Sagradas, o que resultou num caos e nas trevas morais.»

«A história da França desde a Revolução Francesa permite uma ilustração impressionante do que vimos ser o mot d’ordre das forças naturalistas ou anti-sobrenaturalistas – favorecer durante algum tempo uma Potência Protestante a fim de arruinar uma Potência Católica. Na obra maçónica As Constituições da Maçonaria ou Ahiman Rezon, publicada pela Grande Loja da Irlanda em 1858, consta que Frederico “O Grande” da Prússia foi iniciado em 1738 e que em 1761 pediu ao seu representante que convocasse um Grande Consistório de Príncipes do Segredo Real em Paris, a fim de dar uma patente ao Irmão Stephen Morin para que apresentasse aquele sistema ao mundo. Em 1762, Frederico, Rei da Prússia, foi proclamado Grande Inspector-geral Soberano, 33º grau, para ambos os hemisférios. Essas datas são mencionadas porque Frederico, usou toda sua influência na Maçonaria para instigar a preparação da Revolução e enfraquecer a França. Além disso, ele fez tudo em seu poder para separar a França da Áustria e desfazer os efeitos benéficos causados pelo casamento de Maria Antonieta com o futuro rei, Luís XVI, em 1770.»

Como pano de fundo para este devaneio, a imensa tapeçaria fantástica urdida pelos assustados e intolerantes religiosos, de que o jesuíta Barruel é apenas um de vários exemplos; ele, que afirmou na sua obraMémoires pour servir à l'histoire du Jacobinisme[Memórias e Contributos para a História do Jacobinismo]: «Nesta Revolução Francesa, tudo, até nos seus crimes mais espantosos, tudo foi previsto, meditado, constituído, resolvido, estatuído; tudo tem tido o efeito da mais profunda perversidade, pois que tudo foi preparado, conduzido por homens que tinham, sozinhos, o fio das conspirações há muito tempo tramadas dentro das sociedades secretas».

E uma vez mais o espírito demagógico do zeloso Barruel atribuía a Diderot, d’Alembert, Voltaire e a outros maçons, a inspiração da Revolução, incluindo, entre os cúmplices, d’Argenson, Choiseul, Malesherbes, Turgot e Necker. Nessa obra afirma ainda: «A conjuração visa, antes de tudo, destruir o Cristianismo».

Ora, para perceber os factos e encontrar a verdade devemos começar pelo contexto histórico:
A França do Antigo Regime era um país absolutista i. e., o rei governava com poderes absolutos controlando a economia, a justiça, a política e até mesmo a religião dos súbditos. Não existia qualquer tipo de democracia, e os opositores eram presos ou condenados à morte. O Terceiro Estado era formado pelos trabalhadores urbanos, camponeses e pequena burguesia comercial, que arcavam com a quase totalidade dos impostos que alimentavam uma nobreza ociosa e uma corte ofuscante. A vida dos trabalhadores e camponeses era de extrema miséria, o que suscitava um crescente mal-estar e o ardente desejo de melhorias. A pequena burguesia, mesmo tendo uma condição social melhor, desejava uma maior participação política e mais liberdade económica, a exemplo do que acontecia na Inglaterra. 

Para além de alguns aspectos estruturais, já referidos, analisemos com mais detalhe os aspectos conjunturais. Na década de 1780, a produção agrícola, base da economia francesa, ressentiu-se das severas condições climáticas, materializadas em más colheitas, com consequente aumento dos preços dos alimentos e ocorrência de fome e miséria para grande parte da população. Registou-se também uma crise na produção manufactureira resultante de um mau acordo com a Inglaterra, em que a França aceitou baixar os impostos sobre os produtos ingleses em troca de semelhante redução dos impostos sobre o vinho francês no mercado inglês; daí resultando muitas falências e aumento do desemprego. Outro factor considerável para o profundo descontentamento popular reside na crise política que atingiu a monarquia francesa, principalmente ligada ao aumento dos gastos da corte e ao custo das guerras em que a França se envolveu.  Perante este cenário o rei Luís XVI convocou os Estados Gerais para tentar resolver os problemas. Na abertura dos trabalhos da Assembleia, em Maio de 1789, o rei insistiu no voto por estados e que a Assembleia tratasse apenas das questões do deficit financeiro da monarquia e das medidas para combatê-lo. Face à insistência dos representantes do povo e da pequena burguesia – o Terceiro Estado –, na questão do voto individual, o rei decidiu abruptamente encerrar os trabalhos da Assembleia. Os deputados do Terceiro Estado saíram de Versalhes e dirigiram-se a Paris com a intenção de formar uma Assembleia Nacional e redigir uma constituição para a França. Luís XVI receando perder o domínio dos acontecimentos instou os demais estados (nobreza e clero) a participarem nessa nova assembleia. Porém, numa manifestação de força e de afirmação do poder real enviou tropas com o intuito de dispersar as manifestações populares que se verificavam em Paris. E este terá sido o rastilho que incendiou a população revoltada, que em 14 de Julho de 1789 invadiu a Bastilha, a prisão dos inimigos da monarquia e símbolo maior da repressão.

Analisemos, agora, o que foi a Revolução:
Não houve apenas uma mas quatro revoluções, entre 1789 e 1799; e cada uma delas consumiu a sua antecessora. A primeira revolução teve claramente um cunho aristocrático e constitucional, por um lado partidária do Duque D’Órleans (Grão-Mestre do GOF), por outro defensora de um sistema de monarquia constitucional com Luís XVI, segundo o modelo inglês, ou, preservando a monarquia, mas seguindo os passos do constitucionalismo liberal americano. A primeira Assembleia Constituinte saída da revolução integrava cerca de 200 maçons, num total de cerca de 1177 deputados - e por aqui se vê qual a expressão maçónica nesta importante instituição da Revolução. A segunda revolução, girondina, foi burguesa, defensora dos direitos da propriedade, monárquica e constitucionalista. Dos deputados da Assembleia girondina supõe-se que pouco mais de 200 fossem maçons, num total de 745. Vários chefes girondinos eram maçons, como Brissot, presumivelmente membro da loja Les Neuf Soeurs (As nove Irmãs), de que também fariam parte Danton e Desmoulins, os algozes de Brissot e do directório girondino, que os conduziram ao cadafalso. A terceira revolução, jacobina, também contou com maçons nas suas fileiras, homens como Georges-Jacques Danton e Maximilien Robespierre; ainda que este último não fosse muito devoto à Ordem sabe-se que frequentara na juventude a loja Hesdin. Mas nada disto, desta condição de fraternidade que une os maçons, fez com que se verificasse qualquer harmonia entre eles, até porque Hébert, Desmoulins e Danton, foram guilhotinados a mando de Robespierre. E na quarta Revolução, thermidoriana, coube a vez aos maçons Robespierre e Couthon, entre outros, de perderem a cabeça na guilhotina, de novo às mãos de revolucionários que também integravam alguns maçons como Collot d’Herbois e Barras, p. ex. Por conseguinte:
«(…) não se vislumbra possível um complot maçónico que traçasse um plano tão caótico quanto o foi a sucessão de acontecimentos da Revolução Francesa, nem se imagina que os homens que eventualmente tivessem delineado semelhante tragédia quisessem ser suas vítimas pela sua própria morte e pela morte de muitos dos seus amigos.»
In RUI A. “MAÇONARIA E REVOLUÇÃO” http://revolucaoemfranca.blogspot.pt/2011/06/maconaria-e-revolucao.html

Analisemos agora a origem desta tese que faz da Revolução uma produção maçónica. Ela é praticamente contemporânea dos primeiros acontecimentos revolucionários, e é devida ao Abade Lefranc que em 1792 publicou um livro intitulado “Conjuration contre la religion catholique et les souverains, dont le projet conçut en France doit s’exécuter dans l’Univers entier”, [Conspiração Contra a Religião Católica e os Soberanos, Cujo Projecto Concebido em França Deve Ser Executado em Todo o Mundo], onde atribui à Maçonaria a autoria da Revolução. Lefranc, executado nesse mesmo ano juntamente com quase duas centenas de outros clérigos, deixou a semente que iria ser largamente divulgada em toda a literatura anti-maçónica e anti-revolucionária, destacando-se nessa literatura o célebre livro [Memórias e Contributos para a História do Jacobinismo] do abade Barruel publicado em 1798. E foram principalmente estas obras que instituíram essa ideia da existência de uma conspiração tecida fora da França e que a toma de assalto visando o derrube das monarquias europeias; assim foi identificada a Franco-Maçonaria francesa, enquanto braço armado de uma sinistra Ordem dos Iluminados da Baviera.

É evidente que a Maçonaria não terá sido um elemento absolutamente neutro no curso dos acontecimentos, mas isso não faz dela agente destacado da Revolução. Constatemos os factos:
1 - A Maçonaria tinha, muito antes dos primeiros actos revolucionários, uma penetração efectiva na sociedade francesa, já que as primeiras lojas surgiram logo após 1717, ano da fundação da Grande Loja de Londres.
2 - Em 1735 eram inúmeras as lojas de origem inglesa e escocesa em França, ao ponto de ter sido proclamado um Grão-Mestre para este país (em Junho de 1738). Aí foi instituído o cargo de Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino de França, e nele investido o Duque d’Antin, substituído depois da sua morte pelo Conde de Clermont, ao qual sucede, em 1772, o Duque d’Orléans, como Sereníssimo Grão-Mestre do então designado Grande Oriente de França.
3- Antes do começo da Revolução e até à fuga da aristocracia, a Maçonaria francesa era composta eminentemente pela aristocracia e pela alta burguesia, à qual se juntava um número considerável de padres católicos. A Maçonaria francesa não era, portanto, um redil de conjurados anti-monárquicos movidos pelo objectivo de destruir a nobreza e o clero e implantar uma república.
4 – Acerca do republicanismo dos primeiros revolucionários franceses, recorde-se que Desmoulins disse, pouco antes de morrer, que em 1789, na Tomada da Bastilha, os republicanos não seriam, em França, mais do que meia dúzia. A reforçar esta ausência de espírito republicano, sublinhe-se que o próprio Robespierre só se confessa republicano pouco antes da queda do Rei. Ou seja, o republicanismo de 1792 a 1794 não existia ainda no espírito dos revolucionários de 1789, menos ainda dos maçons dessa altura.

Agora já podemos compreender que a Maçonaria era, nesses tempos primevos da Revolução, uma instituição de convergência entre a aristocracia, a alta burguesia e o clero, na qual fervilhavam certamente ideias do iluminismo, mas não era uma organização que conspirava para derrubar o poder político e as ordens sociais em vigor que tantos dos seus membros integravam.
«Parece hoje inquestionável que, apoiado por homens como Mirebeau e De Laclos e, até - há quem o sustente - pelo próprio Danton, o Duque d’Orléans conspirou contra o rei seu primo e gastou nessa actuação uma verdadeira fortuna, ele que era o segundo maior proprietário do reino, imediatamente a seguir a Luís XVI. Estas eram, pelo menos, as suspeitas de Luís XVI (…) embora hoje se acredite que a sua participação no fomento do fervor revolucionário não teve a dimensão (…) que alguma historiografia lhe concedeu. É certo que ele foi Grão-Mestre do GOF, mas parece também que a sua proximidade à Maçonaria era mais honorífica e formal do que material. O verdadeiro administrador-geral do GOF foi, por esses tempos e até 1789, quando emigrou para Inglaterra na sequência dos primeiros acontecimentos revolucionários (e, nesse mesmo ano, para Lisboa, onde veio a morrer), o émigré Sigismond de Montemorency-Luxembourg, adversário declarado do Duque d´Orléans e fiel partidário da Monarquia (na melhor das hipóteses, Constitucional...), que queria ver protagonizada por Luís XVI e não pelo seu duvidoso primo.»
In RUI A. (obra citada)

Após a queda da monarquia a 10 de Agosto de 1792, o Duque D’Orleáns tornou-se uma figura patética, mormente como Citoyen Égalité. Caído em desgraça foi preso em Abril de 1793, durante o regime do Primeiro Terror e, e em desespero, tentou desmarcar-se do seu passado maçónico – o que demonstra bem a falta de consideração que a jovem República tinha pela Maçonaria –, publicando uma vergonhosa carta de contrição onde pedia desculpa por ter sido maçom; que não lhe serviu de nada pois a guilhotina decepou-lhe a cabeça em 6 de Novembro de 1793. E assim se conclui que os acontecimentos até 1789 ultrapassam qualquer conspiração da Maçonaria, ou de maçons, que pudesse ter sido traçada em prol das pretensões do Duque d’Orléans, a figura apresentada como a mais proeminente dessa maçonaria, pretensamente, mãe da Revolução.

Afigurando-se, agora, evidente que a Maçonaria não planificou a Revolução Francesa, porque tal era manifestamente impossível pela natureza da sua formação, bem como devido à extensa variedade dos interesses e das sensibilidades que integraram aquela acção revolucionária, resta a hipótese da maçonaria ter influenciado os amotinados através da divulgação das ideias revolucionárias. Porém, se parece certo que Diderot, Rousseau e o próprio Condorcet foram maçons, e se as lojas terão servido para fomentar a aproximação social e política entre a nobreza dominante e a burguesia emergente, a realidade mostra que esses elementos característicos de uma parte da Maçonaria actual não a influenciavam nesse tempo e foram adquiridos posteriormente.

E assim é, pois no começo da Revolução a maçonaria francesa era monárquica, uma vez que grande parte dos revolucionários admitia os valores do Ancien Régime, embora já existisse no seu seio um componente importante que perfilhava um reformismo constitucional - influência dos Estados Unidos que Lafayette trouxera e fizera imprimir em 1789 no texto da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a qual evoca os valores da liberdade e da igualdade, do primado da lei, do direito da propriedade, da necessidade de contenção do poder soberano, da Constituição, da separação de poderes do Estado, etc. ideais provenientes mais do iluminismo inglês e escocês, do que do iluminismo francês:
«Por outro lado, os valores que mais tarde marcariam parte da Maçonaria francesa, como o anti-clericalismo e o jacobinismo republicano, não podem atribuir-se ao pensamento maçónico do tempo da Revolução. Voltaire, o grande filósofo anti-clerical, seria feito maçom a 7 de Março de 1778, menos de três meses antes de morrer. Voltaire, toda a vida anti-clerical e anti-católico, terá querido morrer católico (segundo o número de Abril de 1778 da revista francesa Correspondence Littéraire Philosophique et Critique, onde está publicada uma declaração do filósofo anunciando a sua conversão e a sua confissão a um padre católico, o Padre Gautier), pelo que não terá procurado a Maçonaria para a tentar influenciar com um anti-clericalismo que já não possuía, como alguns autores defendem, obviamente sem qualquer sustentação.»
In RUI A. (obra citada)

E para ajudar à perpetuação da lenda mirabolante, um pouco por toda a parte, maçons desavisados proclamam que a Revolução Francesa foi feita pela Maçonaria, inspirada na sua divisa LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE. Ora, repare-se que essa divisa foi adoptada pela IIª República em 1848, e só no ano seguinte pelo Grand Orient de France. Mas é evidente que esta partilha da mesma divisa também ajudou a alimentar a lenda que coloca os maçons como arquitectos da Revolução, lenda reforçada pelas obras publicadas no início do século XX, como a de Gustave Bord, La Franc-maçonnerie en France, que repete as teses fantasiosas da conjura maçónica veiculadas pelo seu grande arauto, o abade Barruel. Acresce, ainda, que no que toca ao plano religioso o ateísmo que alguma Maçonaria proclama hoje era inequivocamente rejeitado pelos maçons de então. Mesmo Robespierre tinha profundas convicções religiosas – tendo, até, atacado os herbertistas pelo facto destes se declararem ateus. Todos estes factos demonstram que a Revolução Francesa não foi urdida pela maçonaria.

Mas, então, a Maçonaria não possuía um ideal republicano?
Certamente que não, pois quando a República se implantou a maçonaria praticamente desapareceu e tal facto é compreensível já que a Ordem era defensora da Monarquia Constitucional e avessa a rupturas com os princípios da primeira Revolução. Aliás, Nicola Aslan no seu livro “História da Maçonaria”, assegura que no dia 17 de Julho de 1789, «numa recepção feita a Luis XVI, depois da tomada da Bastilha, os maçons, que lá estavam em grande número, fizeram a abóbada de aço sob a qual o rei, espantado e amedrontado, passou». Esse gesto, de respeito e apoio maçónico ao rei, desmente o jesuíta Barruel e reforça a convicção de que não foram os maçons que fizeram a Revolução e, muito menos, pretenderam destruir o Cristianismo.

Em Conclusão: A Revolução Francesa foi um marco importante na história da civilização. Proporcionou o fim do sistema absolutista e dos privilégios da nobreza e granjeou autonomia e direitos sociais para o povo. A vida dos trabalhadores, em geral, melhorou significativamente. Por outro lado, permitiu à burguesia o acesso à condução da sociedade garantindo o seu domínio político e social. Deve-se à Revolução Francesa o estabelecimento das bases da sociedade burguesa e capitalista, e também influenciou, com os seus ideais iluministas, a independência de muitos outros países, nomeadamente do continente americano, e alguma abertura de espírito nas sociedades europeias mais tradicionais e conservadoras.

Daqui se conclui, sem margem para dúvidas, que não é possível estabelecer com plena exactidão em que medida – quantidade, frequência e intensidade -, os maçons participaram na Revolução Francesa, embora seja inequívoco que dela fizeram parte, pois assim o testemunham inúmeros factos históricos, alguns dos quais referidos neste sintético trabalho. Porém, a Ordem Maçónica não passou de um protagonista, menor e silencioso, dessa revolução que mudou o Mundo, não obstante ter sido repetidamente maltratada por ela, ainda que a tenha influenciado em vários momentos através das ideias; ideias que, de resto, não eram originariamente suas, nem sequer partilhadas por todos os maçons.

Por isso, podemos afirmar que o contributo da Maçonaria na Revolução Francesa aconteceu a nível individual, e de modo nenhum como resultado de um plano previamente gizado. E também podemos dizer que uma parte importante da Maçonaria que hoje conhecemos foi influenciada pelos valores saídos da revolução, valores como a laicidade, o republicanismo e o igualitarismo. Ou seja, não foi a Maçonaria que mudou a França e o Mundo através de uma revolução, mas sim a Revolução Francesa que influenciou a Maçonaria, levando-a a ir mais longe nos seus ideais, já que materializou velhas aspirações libertárias e abriu caminho para trilhar novos percursos humanistas.



2015-03-28
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