Apesar
de toda a fraternidade que existe na Maçonaria, os primeiros tempos de vida de
um maçom podem parecer-lhe estranhos porque terá de se relacionar com gente que,
no mundo profano, talvez evitasse. Se tal coisa acontecer ainda bem, pois assim
é possível um entendimento que de outra maneira não seria viável: como irmãos serão
levados a confraternizar, logo, a construir convergências, a adoptar
compromissos, a exercitar a Tolerância. E relacionando-se, conhecer-se-ão
melhor desfazendo preconceitos. Ou talvez não, talvez a má impressão e opinião negativa
sobre aquele irmão se mantenha. Afinal de contas os maçons são pessoas como as
outras, e não são perfeitos; a forma como combatem as suas
paixões e evitam os seus vícios é que os diferencia das outras pessoas.
2016/10/25
2016/10/23
Reflexões de um aprendiz do Mundo
Reflexões de um aprendiz do
Mundo
Definir o que é a Maçonaria não
é fácil, para além daquelas definições que encontramos nos nossos catecismos e
manuais. A razão para essa dificuldade reside no facto da Maçonaria não
ser isto ou aquilo. A Maçonaria sente-se e vive-se, não se reduz a
interpretações textuais (logo, sínteses superficiais que não revelam mais do
que a forma sem tocar no conteúdo). Assim é a natureza da Maçonaria porque
é sentida e vivida de forma diferente por cada Obr.˙. da Arte Real. Ora,
descrever sentimentos e experiências pessoais é algo que depende do ponto de
vista individual e da sensibilidade de cada um.
No entanto podemos dizer que
a Maçonaria, para além daquelas concepções que já temos como adquiridas, é
o caminho do equilíbrio entre a ciência e a espiritualidade, é um método de
compreender a harmonia de todas as coisas na busca pela Verdade, e é
também a práctica do Amor Universal. É, pois, muito mais do que a evocação
exaustiva do Lema (Justiça, Verdade, Honra, Progresso) e
da Divisa da Ord:. (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) que integra
profusamente a práctica ritual - porventura numa evocação bastamente mecanizada
e de sentido embotado pela repetição mas que em outros momentos devem ser
interiorizados como valores, regras de capital importância para a vivência do
quotidiano.
Que a mesma palavra pode ter
valores e poderes diferentes consoante o momento e o contexto em que as
aplicamos, isso já aprendemos; afinal de contas elas também transportam e
potenciam energias fundamentais, assim como o silêncio e a meditação. Descobri
que, quando realizamos a Cadeia de União, ao fechar os olhos me é mais fácil
canalizar o meu pensamento e, espero, a inestimável energia espiritual, em
benefício das pessoas que conheço - que vou fazendo desfilar na minha mente
como se fosse uma fita de cinema. Talvez sem tanto sucesso, mas também vou
tentando sentir a energia dos demais IIr:. em cadeia, canalizando-a para a
mesma finalidade.
Eis o terreno virgem a
explorar, a caminhada a percorrer por cada um de nós nesta fraternidade que dá
pelo nome de Maçonaria, onde não existem gurus nem líderes
infalíveis, pois não defendemos nenhum dogma religioso, nenhuma apostilha
indefectível, nenhum modelo de realidade singular. Para o Maç.˙. o
Mestre está dentro de si mesmo, e é seu dever procurar encontrá-lo.
Não buscamos o reconhecimento
e a fama entre os seres nossos iguais. Após décadas de estudo, práticas, erros
e acertos aprendemos e aceitamos ser indivíduos anónimos, sendo cada um de nós
apenas mais um na multidão, sem reconhecimento ou distinção especial e sem
nenhum engrandecimento social resultante dessa condição de ser Maç.˙..
A educação e instrução
tradicionais não nos preparam para aceitar o facto de que quando um indivíduo
se eleva, a sociedade humana, como um todo, também se eleva concomitantemente.
Então, todo esse trabalho individual representa na verdade uma caminhada
colectiva. A cada ser humano que tivermos o privilégio de tirar das trevas da
ignorância, mais Luz é derramada sobre toda a realidade mundana.
Para muitos a Luz e o
conhecimento significam independência, e esta independência é intolerável para
os que acreditam ser superiores aos outros. Por esse motivo a Maçonaria continua
a ser olhada com desconfiança e a ser desconsiderada, até atacada. Cada passo
que damos na direcção da Verdade e do conhecimento, congrega mais inimigos
contra nós. É, pois, uma caminhada de coragem e determinação.
Cada um de nós tem o poder de
transformar a sua própria vida e a vida dos que nos estão próximos, com os
nossos actos e exemplos. Afinal de contas de nada adiantaria que uma
fraternidade orientada por tão altas aspirações nos oferecesse tais
conhecimentos e práticas visando o equilíbrio espiritual, se não colocássemos
tudo isso em prática. Portanto, a Maçonaria exige de cada um dos
seus OObr .˙. mais do que estudo e dedicação, exige que pratiquemos
aquilo que aprendemos.
Se um pedinte nos pede
dinheiro, como MMaç.˙., temos a obrigação moral e espiritual de atender a
esse pedido de esmola. Não sabemos se aquela moeda irá contribuir para aliviar
um estômago vazio ou evitar que uma criança caia na perversidade por falta de
escolha. A beneficência é uma obrigação irredutível do Maç.˙.
Também os instrutores ou
guias devem ter humildade e equilíbrio, caso contrário estão a ser desleais
consigo e com os princípios que defendem. “Pobre daquele que se julga mestre e
pensa ter sobre si a responsabilidade espiritual dos actos de todos aqueles que
considera discípulos” O verdadeiro Mestre, está dentro de cada um de nós.
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
Reflexões de um aprendiz do Mundo
Reflexões de um aprendiz do
Mundo
Definir o que é a Maçonaria não
é fácil, para além daquelas definições que encontramos nos nossos catecismos e
manuais. A razão para essa dificuldade reside no facto da Maçonaria não
ser isto ou aquilo. A Maçonaria sente-se e vive-se, não se reduz a
interpretações textuais (logo, sínteses superficiais que não revelam mais do
que a forma sem tocar no conteúdo). Assim é a natureza da Maçonaria porque
é sentida e vivida de forma diferente por cada Obr.˙. da Arte Real. Ora,
descrever sentimentos e experiências pessoais é algo que depende do ponto de
vista individual e da sensibilidade de cada um.
No entanto podemos dizer que
a Maçonaria, para além daquelas concepções que já temos como adquiridas, é
o caminho do equilíbrio entre a ciência e a espiritualidade, é um método de
compreender a harmonia de todas as coisas na busca pela Verdade, e é
também a práctica do Amor Universal. É, pois, muito mais do que a evocação
exaustiva do Lema (Justiça, Verdade, Honra, Progresso) e
da Divisa da Ord:. (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) que integra
profusamente a práctica ritual - porventura numa evocação bastamente mecanizada
e de sentido embotado pela repetição mas que em outros momentos devem ser
interiorizados como valores, regras de capital importância para a vivência do
quotidiano.
Que a mesma palavra pode ter
valores e poderes diferentes consoante o momento e o contexto em que as
aplicamos, isso já aprendemos; afinal de contas elas também transportam e
potenciam energias fundamentais, assim como o silêncio e a meditação. Descobri
que, quando realizamos a Cadeia de União, ao fechar os olhos me é mais fácil
canalizar o meu pensamento e, espero, a inestimável energia espiritual, em
benefício das pessoas que conheço - que vou fazendo desfilar na minha mente
como se fosse uma fita de cinema. Talvez sem tanto sucesso, mas também vou
tentando sentir a energia dos demais IIr:. em cadeia, canalizando-a para a
mesma finalidade.
Eis o terreno virgem a
explorar, a caminhada a percorrer por cada um de nós nesta fraternidade que dá
pelo nome de Maçonaria, onde não existem gurus nem líderes
infalíveis, pois não defendemos nenhum dogma religioso, nenhuma apostilha
indefectível, nenhum modelo de realidade singular. Para o Maç.˙. o
Mestre está dentro de si mesmo, e é seu dever procurar encontrá-lo.
Não buscamos o reconhecimento
e a fama entre os seres nossos iguais. Após décadas de estudo, práticas, erros
e acertos aprendemos e aceitamos ser indivíduos anónimos, sendo cada um de nós
apenas mais um na multidão, sem reconhecimento ou distinção especial e sem
nenhum engrandecimento social resultante dessa condição de ser Maç.˙..
A educação e instrução
tradicionais não nos preparam para aceitar o facto de que quando um indivíduo
se eleva, a sociedade humana, como um todo, também se eleva concomitantemente.
Então, todo esse trabalho individual representa na verdade uma caminhada
colectiva. A cada ser humano que tivermos o privilégio de tirar das trevas da
ignorância, mais Luz é derramada sobre toda a realidade mundana.
Para muitos a Luz e o
conhecimento significam independência, e esta independência é intolerável para
os que acreditam ser superiores aos outros. Por esse motivo a Maçonaria continua
a ser olhada com desconfiança e a ser desconsiderada, até atacada. Cada passo
que damos na direcção da Verdade e do conhecimento, congrega mais inimigos
contra nós. É, pois, uma caminhada de coragem e determinação.
Cada um de nós tem o poder de
transformar a sua própria vida e a vida dos que nos estão próximos, com os
nossos actos e exemplos. Afinal de contas de nada adiantaria que uma
fraternidade orientada por tão altas aspirações nos oferecesse tais
conhecimentos e práticas visando o equilíbrio espiritual, se não colocássemos
tudo isso em prática. Portanto, a Maçonaria exige de cada um dos
seus OObr .˙. mais do que estudo e dedicação, exige que pratiquemos
aquilo que aprendemos.
Se um pedinte nos pede
dinheiro, como MMaç.˙., temos a obrigação moral e espiritual de atender a
esse pedido de esmola. Não sabemos se aquela moeda irá contribuir para aliviar
um estômago vazio ou evitar que uma criança caia na perversidade por falta de
escolha. A beneficência é uma obrigação irredutível do Maç.˙.
Também os instrutores ou
guias devem ter humildade e equilíbrio, caso contrário estão a ser desleais
consigo e com os princípios que defendem. “Pobre daquele que se julga mestre e
pensa ter sobre si a responsabilidade espiritual dos actos de todos aqueles que
considera discípulos” O verdadeiro Mestre, está dentro de cada um de nós.
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
Liberdade
O meu conceito de
Liberdade
Entendo que a Liberdade é o desejo
inato do ser humano em se tornar integralmente livre. Por isso a verdadeira
Liberdade não é apenas a liberdade física e política, mas também a liberdade de
pensamento. Só nesse estado o homem pode dar asas a todas as suas
potencialidades.
Porém, sendo algo tão grandioso e
completo, a Liberdade também assume significado diferente perante situações e
culturas diferentes.
Sob o jugo de uma ditadura o conceito
de liberdade poderá ser diferente dependendo de quem a avalia ou deseja: um
oprimido que nunca a experimentou ou um oprimido que a perdeu terão dela a
mesma perspectiva? Por outro lado, será livre aquele que não sofre expressa
coacção física, política ou mental mas que vive na insegurança de uma situação
de desemprego permanente?
Sei que para muitos a Liberdade não
pode ser uma figura de retórica mas um estado no qual o Homem, mesmo
amordaçado, permanece fiel áquilo em que acredita de forma integral, física,
moral, cultural e espiritual. Mas também sei que existem outros que consideram
viver em liberdade mesmo dando a terceiros o poder de decidir tudo em seu
lugar, aceitando, até, viver sob o jugo de pesadas regras e restrições,
preferindo viver nessa “segurança protectora” de um encarceramento relativo.
Daqui decorre a noção de que a liberdade não é mensurável pela austeridade ou
permissividade das regras, mas sim em função dos seus objectivos e da forma
como é sentida pelo indivíduo.
Uma coisa parece certa: para se ser
efectivamente livre é preciso que o Homem queira ser livre e que só em função
desse querer se liberte efectivamente das amarras da servidão, seja física,
política, religiosa, cultural, ou da sua própria consciência.
E chegamos a uma ideia de Liberdade que
trás implicada a ideia de Razão, esse juiz supremo dos nossos actos e ideias. A
ideia de julgar implica, inevitavelmente, a existência de regras e de limites.
E tal asserção conduz-nos agora à perspectiva maçónica: Para nós, maçons, o
conceito de Liberdade envolve a ideia de uma liberdade interior apenas limitada
pelo próprio indivíduo, e em que a limitação não depende de quaisquer
circunstâncias mas somente das qualidades éticas e morais do indivíduo.
A Liberdade maçônica – que não deveria
ser diferente da Liberdade em sentido genérico -, reside portanto no pensamento
pois é através do processo cognitivo que qualquer indivíduo se torna
absolutamente livre.
É pelo pensamento que a Maçonaria
liberta o homem para sua função de edificador da sociedade. Nenhum tirano
consegue censurar o que se passa na mente do indivíduo. Apenas o próprio pode
aprisionar-se ou libertar-se no íntimo dos seus processos mentais; libertar-se
implica trabalhar a pedra bruta; i. e. procurar e alcançar o autoconhecimento.
É esse esforço individual que conduz à
liberdade efectiva do indivíduo. Eis a mecânica libertadora que a Maçonaria
realiza, contribuindo com a metodologia, o local e as ferramentas; e o obreiro
com a sua alma, o coração, a mente, e o seu querer.
E, finalmente, para além de tudo o que
já falei atrás, qual é então o meu conceito de Liberdade?
Sou livre? Sinto-me livre? Sim e não!
Sim, no que concerne à consciência que
tenho acerca do exercício do meu livre arbítrio; não, pois entendo que a
Liberdade também implica Independência e esta não a consigo alcançar nesta
sociedade em que tudo tem um elevado valor monetário e em que eu estou limitado
no que toca a esse, erradamente híper exaltado, recurso financeiro.
Livre, mas não convencido, disse!
H.
O Marquês e os Jesuítas
O
Marquês e os Jesuítas
Passou
há pouco tempo na RTP Memória a série “O Processo dos Távoras”, em que o
ministro de D. José, Sebastião de Carvalho e Melo (Conde de Oeiras e futuro
Marquês de Pombal), é apresentado como um político injusto, um funcionário
prepotente animado de sanha persecutória contra nobres e religiosos. E a série
retrata a sua actuação contra os opositores, nomeadamente contra aqueles
que são apresentados como os seus maiores adversários: A ordem jesuíta.
Ora,
para além da nobreza caduca, refém do seu atavismo secular e da estagnação que
representa, os jesuítas constituem o outro pólo desse imobilismo que resiste às
reformas encetadas por Pombal na implementação de um singular modelo político
de Despotismo Esclarecido que constituiu o seu consulado.
Sobre
os jesuítas convém relembrar que embora esses homens cultos tenham desempenhado
um papel importante na difusão da cultura e da ciência (no início do século
XVII acompanharam alguns dos progressos astronómicos de Galileu e chegaram a apoiar
e complementar as suas descobertas), em meados do século XVIII recuaram a uma
cultura do passado distante, opondo-se às extraordinárias descobertas da última
centúria. Tanto assim foi que, em 1746, o padre jesuíta José Veloso, reitor em
Coimbra, proibiu o estudo de Descartes, Gassendi e Newton, entre outros, assim
como «quaisquer conclusõis oppostas ao
sistema de Aristoteles».
A
Companhia de Jesus tinha passado à posição de obstrução do progresso científico
mas a sociedade tinha-se transformado radicalmente, e o conflito explodiu em
1759, com a expulsão dos jesuítas de todo o território português.
Independentemente
de outras razões, mais triviais, moverem o 1º Ministro de D. José – interesses
comerciais familiares no Brasil, eventualmente causticados pelos jesuítas-, o
facto é que Sebastião de Carvalho e Melo, talvez doutrinado na dinâmica e na
política inglesa, que admirava, protagonizou o corte com a inércia da
fidalguia que não preconizava nem deixava florescer progressos idênticos ao que
outras nações registavam.
Os
jesuítas nunca foram esses destacados portadores dos ideais
humanistas, que alguns lhes atribuem. Uma abordagem antropológica à missionação
jesuíta no Brasil também é, disso, estudo bem revelador.
Com todos os erros que terá cometido no desempenho das suas funções, acrescentados pelas suas fraquezas e defeitos como pessoa, ainda assim Pombal reunirá um crédito de protagonismo benéfico para o Portugal dessa época, que os feitos da Companhia de Jesus e da nobreza coeva não terão logrado, sequer, imitar.
H.
Da Beleza
DA BELEZA
A Beleza
nunca foi algo de absoluto e imutável, pelo contrário assumiu formas diferentes
segundo a cultura de cada período histórico e de cada região, quer na
apreciação do homem ou da mulher quer na dos objectos, dos animais e das
paisagens, ou mesmo a beleza das ideias e, até, da divindade.
Por vezes,
num mesmo tempo histórico a beleza é abordada de forma muito diferente
consoante é retratada pelos pintores e escultores ou pelos escritores. Basta
pensar como um ser alienígena interpretaria a noção de beleza feminina se
deparasse simultaneamente com uma pintura de Almada Negreiros e uma descrição
literária de Camilo Castelo Branco, ainda que estes autores não tenham
coexistido no tempo (Camilo morreu em 1890, Negreiros nasceu 3 anos depois).
Do Almada
refiro-me a uma daquelas mulheres matronas, cubistas e debruçadas sobre si,
contendo o mundo em si. Do Camilo, a pormenorizada descrição de uma Isaura que,
cito: «… não é alta. Pertence àquela
estatura que chamam mediana, a mais regular, a menos defeituosa, (…) [os
cabelos] Negros e luzentes, levemente ondeados, nus de enfeites e ataviados com
comodidade, e gentileza. Duas grandes tranças lhos dividiam, para se
entrançarem de novo, presas em duas grossas roscas por travessas. Quando as
soltava, as duas serpentes ondeavam-lhe por sobre as espáduas até à cinta. (…)
[as sobrancelhas] irrepreensivelmente curvas, dividem-se por uma incisão quase
imperceptível: longas, negras, e bastas. As pestanas, se ela descai as
pálpebras naquele pendor da meiguice natural, quase lhe quebram a luz dos
olhos, alindando-os, se é possível, ainda mais. (…) [os olhos] Meigos e
vertiginosos. Reflectem a luz frouxa das paixões suaves, e as labaredas
cintilantes das paixões escandecidas.».
Ora, na
sociedade ocidental é o ideal masculino que pontifica, um ideal preso ao
instinto sexual que explica e justifica o apreço pelos traseiros femininos proeminentes,
com reservas de gordura para a gestação, os quadris largos que facilitam o
parto, e os seios fartos para amamentar. E contra isto pouco pode a moda,
contra essa memória táctil dos homens que por muito que apreciem uma mulher
linda e magra jamais esquecerão a diferença entre estreitar nos seus braços uma
cintura feminina que deixa revelar os ossos ou uma cintura substancial, bem
mais voluptuosa.
As
sociedades modernas ocidentais estabelecem ainda uma relação entre beleza
física, inteligência e poder económico, ou seja, cultiva-se a crença de que uma
pessoa bonita tem mais capacidades e mais sucesso. Dos feios considera-se
sempre que são pobres, rudes, e falhos de êxito. Tal preconceito ainda amplia mais
as dificuldades de ascensão social dessas pessoas; o poeta Vinicius de Morais já
tinha escrito a respeito das mulheres: «as muito feias que me perdoem, mas
beleza é fundamental.».
As
preocupações com o Belo já vêm de longe. Platão terá sido um dos primeiros
pensadores a formular a pergunta “O que é o Belo?”, empreendendo uma resposta
ampla e cabal em que o Belo é identificado com o Bem, a Verdade e a Perfeição.
Assim, ao
conceito de beleza atribuiu uma natureza autónoma, separada do mundo sensível,
justificando que uma coisa é mais ou menos bela dependendo da sua inscrição/participação
na ideia suprema de beleza; e criticou a arte que se limitava a copiar a
natureza ignorando a beleza que o mundo das ideias contém. Mas se Platão ligou
a arte à beleza, Aristóteles separou-a, anunciando que a arte é uma criação
especificamente humana, e que o Belo não pode ser desligado do homem pois
existe neste intrinsecamente.
Na Idade
Média o cristianismo fundou um conceito de Beleza identificando-a com Deus, o
Bem e a Verdade. E por aqui se seguirá durante séculos, numa colagem excessiva
da ética à estética. Santo Agostinho acorrentou a beleza à harmonia, evocando o
concurso da unidade, do número, da igualdade, da proporção e da ordem; reiterando
que a beleza do mundo não é mais do que o reflexo da suprema beleza de Deus. Por
sua vez, São Tomás de Aquino ligou-a ao Bem e à observância de determinadas
condições fundamentais: Integridade ou Perfeição; Proporção ou Harmonia;
Claridade ou Luminosidade; uma vez mais identificando a beleza com Deus.
Entre os
séculos XVI e XVIII as academias impõem as estéticas aristotélicas e as suas
regras visando alcançar a perfeição na arte, ainda que na segunda metade do
séc. XVIII comecem a emergir ideias que proclamam a subjectividade do Belo. É o
tempo em que as sociedades europeias atravessam grandes convulsões, com o
início da revolução industrial e as importantes alterações políticas verificadas
na América e na França. Nesta conjuntura de efervescências novas ideias
despontam e a questão do Belo é equacionada como um problema de gosto.
E neste contexto surge Immanuel Kant, o criador do pensamento
que embasa a estética contemporânea. Para este filósofo do séc. XVIII os nossos
entendimentos estéticos têm fundamentos subjectivos dado que não se podem
apoiar em conceitos pré-determinados. E assim, o critério de beleza que neles
se exprime é o do simples prazer que nos acomete. A universalidade do Belo
passa a ser subjectiva, como subjectivo é o juízo do gosto.
«Continua a ser verdade que, ao
julgar belo um objecto, consideramos que o nosso juízo deve ter um valor
universal e que todos devem (ou deveriam) partilhar o nosso julgamento. Mas
como a universalidade do juízo do gosto não requer a existência de um conceito
a que e deva adequar, a universalidade do belo é subjectiva: é uma pretensão
legítima da parte de quem exprime o julgamento, mas não pode assumir de maneira
nenhuma o valor de universalidade cognoscitiva. “Sentir” com o intelecto que a
forma de um quadro de Watteau que representa uma cena galante é rectangular ou
“sentir” com a razão que cada gentil-homem tem o dever de oferecer ajuda a uma
mulher em dificuldade não é o mesmo que “sentir” que seja belo o quadro que
está a ser examinado: de facto, neste caso, tanto o intelecto como a razão
renunciam à supremacia que respectivamente exercem no campo cognoscitivo e no
moral, e metem-se em jogo livre com a faculdade imaginativa, segundo as regras
ditadas por esta última.» ECO, Umberto – História da Beleza (p. 264)
Embora se reconheça,
então, a incapacidade da Razão em impor os seus valores sobre esta matéria tão
subjectiva que é a definição do Belo, ela (a Razão) não está afastada da
discussão; mormente pela mão daquele eminente filósofo que consegue inscrever
parcialmente essa natureza vaga nas regras da Razão.
Ainda no
século XVIII ganham força as noções de génio, gosto, imaginação e sentimento e
assiste-se à construção do conceito Sublime. Uma vez que o Belo é uma expressão
da liberdade, sentimo-nos livres na beleza porque os instintos sensíveis estão
em harmonia com a lei da razão; já o sentimento de liberdade no sublime deriva
do facto dos instintos sensíveis não terem influência sobre as leis da razão,
porque aqui é o espírito que age autonomamente. Esta aparente contradição mais
não espelha do que o dualismo da natureza humana.
Em seguida,
os românticos exploram as dualidades, nomeadamente a anterior entre Belo e
Sublime, e levam mais longe essa constatação da natureza dual, da ocorrência
dos géneros, na nossa qualificação estética do mundo: beleza e melancolia;
coração e razão; reflexão e impulso coexistem, sendo essa coexistência encarada
como natural.
O Séc. XIX
trará consigo uma autêntica religião da beleza, emoldurada pela efémera época
de ouro do Ocidente: o período vitoriano em Inglaterra, o Segundo Império em
França, o pontificado das virtudes burguesas e o despontar do capitalismo.
Neste ambiente os artistas arriscam e avançam quebrando todas as normas,
procurando o inusitado, o excêntrico, o inalcançável, ofendidos e talvez
assustados pelas máquinas que oferecem a pura funcionalidade de novos materiais.
Em parte, como reacção a essa uniformização e democratização galopantes,
artistas como Courbet, Monet, Manet, Cézanne e outros rompem com os cânones e
as convenções do academismo, anunciando a eclosão da arte moderna.
E no século
XX sucedem-se as rupturas e explode uma multiplicidade de novas manifestações
criativas. Surgem as artes decorativas, a art
naif, a arte dos povos primitivos coevos, o artesanato rural; a Fotografia,
o Cinema, o Design, a Rádio, etc.
Por outro
lado, assiste-se a uma permanente insistência desconstrutivista em relação a
todas as categorias estéticas: os conceitos e as fronteiras entre as artes são contestados;
a arte é dessacralizada e perde a sua carga mítica e iniciática, tornando-se
frequentemente um simples produto de consumo.
Neste
ambiente, as estéticas normativas concebem uma beleza fundamentada em
princípios inalteráveis, como a estética fenomenológica de Husserl; as estéticas
marxistas e neomarxistas que vincam marcadamente a sua orientação sociológica; ou
a estética informativa que procura sistematizar a avaliação da componente
inovadora presente em cada obra de arte; mas é na estética das ciências que os
ideais de beleza alcançam um discurso tanto mais revelador quanto inesperado.
Raul Penaguião, um jovem matemático português, de 18 anos, dizia em 2012: «…a Matemática aplicada não me entusiasma
muito, entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas, pelo que quero seguir
Matemática pura e investigação, e não tanto o
quanto se relaciona com a realidade, pois nesse relacionamento perde-se muito:
já dizia Albert Einstein, “Se as
leis da Matemática se referem à realidade, elas não estão correctas; e, se
estiverem correctas, não se referem à realidade”.»
Eis como
ideia do Belo se impõe de uma forma tão óbvia aos valores concretos da
realidade, reafirmando que a vida também encontra sentido numa componente subjectiva
que existe para além do universo material.
Nós, seres humanos,
temos necessidade de procurar ou criar a beleza, não só para recreação
intelectual mas sobretudo porque ela é um guia para a vida, mesmo que o seu
conceito dependa apenas de uma noção pessoal de harmonia.
H.
Fontes
consultadas:
- BOHM, Camila Camacho - UM
PESO, UMA MEDIDA - O padrão da beleza feminina apresentado por três revistas
brasileiras, Universidade Bandeirante de São Paulo
São Paulo, 2004
- ECO,
Umberto – História da Beleza, Ed. Difel, Lisboa 2005
- GUATIMOSIM,
Bárbara Maria Brandão - O BELO E O SUBLIME, Psicanálise &
Barroco em Revista v.6, n.3: 48-59, jul.2008
- LINO,
Alice de Carvalho - Considerações kantianas sobre os Gêneros -
PADÊ:estudos
em filosofia, raça, gênero e direitos humanos, UniCEUB, FACJS Vol.2,N.1/07. ISSN 1980-8887
- LINO, Alice de Carvalho – Belo e Sublime: A
Mulher e o Homem na Filosofia de Immanuel Kant – Universidade Federal de Ouro
Preto, 2008
- PENAGUIÃO,
Raul “entrevista em 2012” http://caras.sapo.pt/famosos/2012-09-09-raul-penaguiao-entusiasma-me-a-beleza-das-ideias-matematicas
- SATIE, Luis - Estética e ética em Kant - Escola Superior de Administração Fazendária,
Filosofia Unisinos, 2009
- VALENTE, Mariana – A Beleza das Ideias na
Educação Científica – Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência,
Departamento de Física, Universidade de Évora. Comunicação ao Seminário
transdisciplinar “Currículo, Didáctica e Formação de Professores”- Évora, Maio,
2014
Igualdade e Justiça Social
Igualdade e justiça social
Quando, num sistema de Economia de
Mercado, ouvimos falar em Igualdade imediatamente depreendemos que se trata da
tão famosa igualdade de oportunidades para empreender e ter êxito. Mas bem
sabemos que em nenhuma sociedade existe essa igualdade real de oportunidades,
porque o sistema a não promove minimamente ou porque, promovendo-a,
compromete-a pela acção corrupta de muitos dos agentes do Estado – p. ex. os
políticos.
John Rawls (1921-2002) propôs um
método para construção de uma sociedade efectivamente justa. Vou explicar-vos
como funciona a coisa. Porém, atentemos previamente a estes casos díspares que
ocorrem frequentemente na sociedade tal como está estruturada. O futebolista
Cristiano Ronaldo factura cerca de 33 milhões de euros por ano, entre salário e
ganhos com publicidade - mais de 90 mil euros por dia, quase 4 mil euros por
hora.
Quando, em 2012, se soube que o
ex-ministro Eduardo Catroga poderia vir a receber 600 mil euros por ano pelas
suas funções de presidente do Conselho Geral da EDP, houve indignação; até
porque o ex-ministro tinha participado nas negociações com a troika – e
portanto teve responsabilidades nos cortes salariais de pessoas que recebem uma
ínfima parte daqueles valores. Aos críticos Catroga explicou que, tal como
acontece no futebol, o seu salário era ditado pelo valor de mercado.
Uma notícia proveniente do distante
Camboja faz-nos saber que uma mulher de 48 anos, pressionada pela fome, vendeu
o seu cabelo por cerca de 6 euros, explicando ao jornalista que embora todas as
mulheres gostem de estar lindas, entre a beleza e a fome, não tinha dúvidas
sobre o que escolher. Em conclusão ficamos a saber que o valor de mercado do
cabelo de uma cambojana de 48 anos é de 6 euros.
Perante estes exemplos facilmente
concluímos que a fonte de muitos problemas que actualmente ferem a humanidade
reside neste sistema baseado no mercado.
A solução de John Rawls passa por
reiniciar o sistema social imaginando que não sabemos a posição que ocuparemos
nela – se seremos ricos ou pobres, bonitos ou feios, homens ou mulheres,
jogadores de futebol, ministros ou serventes de limpeza porque, se à partida,
eu não souber que posição ocuparei na sociedade, tentarei garantir que a
repartição dos bens e das riquezas seja equitativa, e essa será a única forma
de garantir a minha satisfação, seja qual for a posição, a ocupação ou a posse material
que me caiba.
Interessante, não acham?
H.
Da Moral Maçónica
Diz-se
moral aquilo que está em conformidade com a honestidade e a justiça, que tem
bons costumes; diz-se de tudo o que é decente, educativo e instrutivo. Moral é
também a disciplina da Filosofia que trata dos actos humanos assentes nos bons
costumes, e nos deveres do homem em sociedade e perante os seus iguais. Moral
é, ainda, o conjunto de normas ou preceitos adoptados para dirigir os actos
humanos de acordo com a justiça e a equidade natural.
A
moral surge nos alvores da civilização humana. E é importante esta percepção de
que a moral depende da civilização, ou é por ela reformulada nos moldes em que
a conhecemos, já que a sociedade primitiva não censurava o canibalismo, o
incesto, a pedofilia, os homicídios dos idosos e inválidos, e toda uma panóplia
de atrocidades que o progresso intelectual e a construção cultural vieram instituir
e regular.
Até
ao final do regime feudal, em que vigorou o sistema esclavagista, os estratos
sociais inferiores não passavam de objectos e como tal tratados no âmbito da transação
de propriedade. Chegado à Idade Contemporânea, balizada pela revolução
Francesa, o Homem liberta-se da opressão do feudalismo, cria a liberdade de
ação e de pensamento e surgem os ideais humanistas e uma nova moral, várias
morais até, e algumas delas individualistas pois é verdade que não existe uma
moral eterna e imutável; a moral é histórica, conjuntural e sempre determinada
pela classe dominante.
A
Maçonaria exige aos seus membros uma boa reputação moral, o exercício da tolerância
para com as diferentes manifestações de opinião, religião, política, ou
filosofia, desde que os seus objetivos prossigam a conquista da verdade e a
defesa dos valores morais, e propugnem pela paz e o bem-estar social. A moral
maçónica constitui o objeto principal da sua filosofia racionalista. Esta moral
está vertida nos símbolos e rituais que se têm mantido imutáveis ao longo da
existência da Maçonaria.
Sendo
a Maçonaria uma instituição comprometida com o Mundo - embora de cariz ético,
filosófico e iniciático -, instrui os seus membros para serem homens de bem,
com sólidos princípios morais e para trabalharem para o seu aperfeiçoamento em
benefício individual e colectivo. Os ensinamentos maçónicos direccionam os maçons
para a dedicação à felicidade dos seus semelhantes, não somente porque tal
obrigação é imposta pela razão e pela moral mas principalmente porque esse
sentimento de solidariedade os transforma em irmãos. Desta forma o maçom é útil
ao progresso moral da humanidade.
Por
tudo isto é importante desenvolver uma moral maçónica que controle as paixões,
ajude a reconhecer e corrigir os nossos defeitos e cultue a inteligência. Esse
é o nosso caminho moral.
H.
2016/06/20
A Maçonaria Feminina
LIVRO: As Mulheres na Maçonaria (Portugal 1864-1950);
AUTOR: Fernando Marques da Costa;
EDIÇÃO: Editora Âncora (Campo da Comunicação), 2016
(…) A história da maçonaria é um território de equívocos. Equívocos que incorrem os maçons, os antimaçons, os historiadores militantes ou mesmo os mais frios profissionais. Para a que a culpa não morra solteira é bom referir que tanto equívoco foi criado pela maçonaria.(...)
Texto completo aqui
2016/05/26
espiões ou piolhões?
«Era um dos mais antigos funcionários
dos serviços de intelligence. Foi detido sexta-feira, as autoridades
portuguesas confirmaram a notícia esta segunda-feira, sem adiantar a identidade
do espião. O Expresso sabe que se trata de Frederico Carvalhão Gil. Frederico
Carvalhão Gil é apontado como sendo membro da maçonaria, primeiro na Grande
Loja, depois no GOL.» notícia daqui
A Tolerância maçónica é um valor
profundo mas, simultaneamente, a maior fragilidade da maçonaria. Qualquer homem
de maus costumes e escravo de vícios, mestre de artimanhas e fingimentos,
poderá enganar os irmãos, a loja e a Ordem e fazer parecer aquilo que não é. Quanto a este assunto, convém saber que a traição à pátria é um crime grave referenciado nas
leis maçónicas.
2016/02/02
Mono arquias
Em resposta a este artigo
«A maçonaria - os pedreiros livres - nascem como um dos
primeiros lobbies corporativos registados na Europa. A esquerda gosta de os
apresentar associando-os a uma condição humilde (pedreiros!) omitindo que eram
a elite cultural do seu tempo e que como artífices altamente qualificados que
eram, auferiam os rendimentos mais elevados da época.»
Se isso é o que diz a esquerda, o
que diz a direita maçónica? Bem se vê que o autor não leu nenhum livro de História da Maçonaria,
se o tivesse feito saberia que em todos eles se distingue Maçonaria Operativa
de Maçonaria Especulativa e se reconhece que efectivamente esta última era
constituída pela elite cultural do seu tempo, e maioritariamente monárquica. A
composição da maçonaria francesa nas vésperas da Revolução serve de exemplo:
alta burguesia, clero e alguma nobreza, sans culottes e revolucionários é que
certamente não havia. São os mitos sobre a Revolução Francesa, mormente sobre a
participação da Maçonaria. Mesmo a respeito de republicanos, deviam contar-se
pelos dedos de uma mão os que assim se consideravam e que participaram na
revolução de 1789. Há uma incapacidade “digestiva” que afecta os monárquicos contemporâneos
em reconhecer que a revolução francesa foi iniciada por monárquicos e não por
republicanos – e certamente contava com alguns maçons entre eles.
.
«Como elite cultural, e sentindo a necessidade de discrição
inerente a todos os grupos corporativos, associado às crenças próprias da época
do seu surgimento - final da idade média / início da idade moderna - a
maçonaria encasulou-se em práticas próprias, cheias de rictos místicos e
símbolos cujo significado procuram proteger. Ainda hoje assim é (embora os
artesãos que a compõem já sejam de outras “artes”).»
Associado às crenças, não. Antes
denunciando as crenças e pugnando pelo livre-pensamento, coisa que veio
incomodar o establisment mental, principalmente o tutelado pela religião, enquanto
pseudo-detentora da Verdade, i.e. os pais do dogmatismo.
Em todo o caso, generalizar é tão
acertado que até me permitiria dizer que todos os monárquicos são idiotas e
anacrónicos – o que é obviamente ridículo.
.
«E ao longo da sua história, a maçonaria mais não tem feito
que, continuadamente, obrigar os seus membros a uma obediência estrita e cega,
única forma de garantir que se protegem uns aos outros e que isolada e
colectivamente concorrem para a defesa dos interesses de cada um.
Ocasionalmente até se darão uns ares de contribuírem para a sociedade no meio
da qual se movem e vivem, embora a nobreza das suas intenções esteja por
comprovar.»
Falar daquilo que se desconhece tem
sempre o inconveniente de errar desbragadamente. Mas convinha não confundir a
Maçonaria com qualquer Igreja ou partido político. Não há, na Maçonaria, dogma
intangível em que acreditar nem ordem superior a que obedecer cegamente. Quanto
ao defenderem-se uns aos outros, se assim não procedessem ao longo dos tempos teriam
sido exterminados pela verrina do obscurantismo de que o presente texto é um
bom exemplo, embora atenuado pela civilidade hodierna - e não é difícil
imaginar como seria se escrito há um século atrás.
E não, os maçons não se dão ares de
contribuírem para a sociedade porque os seus contributos, parcos ou avultados,
são sempre discretos. Ao contrário da hipocrisia dos bem-feitores tradicionais,
não publicitam a oferta de uma cadeira de rodas a um necessitado, como não procedem
ao espectáculo da esmola à porta da igreja local (mas tais atitudes são compreensíveis
sobretudo quando provenientes de uma religião que tem por divindade uma
entidade que deixou o seu filho morrer na cruz por uma questão de marketing).
.
«Diga-se que nem todos os maçons o sejam apenas por ambição
interesseira, que muitos o são por crença dogmática na bondade da organização.
Poderá ser boa... mas da fama de má é que não se livra.»
A crença dogmática é para outros,
que se sentem necessitados dela, não para os maçons. Quanto à má fama, ela
deve-se tanto aos falsos maçons – que também os há, ao aproveitarem-se da tolerância
da Ordem – como das históricas perseguições movidas pelos seus detractores de
antanho, tanto quanto à incompreensão derivada do obscurantismo dos detractores
de hoje.
.
«Foi a maçonaria que dividiu o país durante as invasões
francesas - as obediências francesa e inglesa nunca se puseram de acordo e
submetidas a uma “obediência portuguesa” que não existia.»
Para além de não se perceber a
relação que tenta estabelecer estre as duas maçonarias estrangeiras com a
portuguesa, também não é assertivo nessa ânsia de tudo imputar à Maçonaria. Independentemente
da influência dos maçons presentes em ambos os lados do conflito, as razões da
divisão do país serão mais do foro político e de imperativos de ordem prática
militar. Teríamos de tratar aspectos mais concretos para abordar este assunto.
.
«Foi a maçonaria que influenciou a independência do Brasil
(país onde está fortemente implantada).»
E também pode acrescentar os Estados
Unidos da América, mas não o afirme em relação à França pois tal não é correcto
– ainda que alguns maçons desavisados também o tenham afirmado, reproduzindo a
invenção do Abade Barruel.
.
«Foi a maçonaria que iniciou o republicanismo em Portugal -
e da forma como o fez, é este o seu maior crime contra o país:»
Parece não haver dúvidas acerca da
participação activa de inúmeros maçons na implantação do republicanismo em Portugal.
Quanto à qualificação desse facto, o autor apoda-o de crime, eu de glória. Mas
convinha diferenciar entre acção da Maçonaria, que não o foi, de acção em que participaram maçons, o que terá sido.
.
«No dia 1 de Fevereiro de 1908, Manuel Buiça e Alfredo
Costa, num atentado de surpresa tiram a vida ao Rei D. Carlos e ao Príncipe D.
Luís Filipe, até este dia, herdeiro do trono. Os dois atiradores eram elementos
da carbonária, uma organização subsidiária da maçonaria (aliás, por muitos
vista como o seu “braço armado”) e no dia 4 de Outubro de 1910 a maçonaria
inicia o golpe que numa fantochada rocambolesca - digna das melhores comédias
de Hollywood - culmina com a declaração da implantação da república (em Lisboa)
no dia seguinte. No resto do país a república foi implantada por telégrafo e
apenas no dia 6, perante a indiferença geral. E a partir deste dia, os
criminosos Manuel Buiça e Alfredo Costa deixaram de o ser e passaram a louvados
mártires da causa republicana.»
Tal era a qualidade dessa monarquia
que caiu e foi obliterada por uma “fantochada rocambolesca”?! Nada a acrescentar,
pois perante tais afirmações só posso ironizar.
.
«E de então para cá a maçonaria não tem parado de crescer e
de exercer a sua influência em todos os sectores de actividade de um país cuja
única esperança é que ela cresça de tal forma que impluda sobre si própria.»
Durante a 1ª República a Maçonaria
cresceu efectivamente, para reduzir drasticamente durante o Estado Novo, e crescido
moderadamente após 1974, mantendo-se assim até ao presente (não alcançará os 7.000
membros divididos pela meia dúzia de obediências existentes). Gostava de saber
é como é que estes 7.000 portugueses conseguem “influenciar todos os sectores
de actividade” quando apenas uma percentagem reduzida deles está envolvida na
política e estão, ainda, divididos por 3 ou 4 partidos e, mais importante,
divididos em meia dúzia de obediências maçónicas, algumas sem qualquer relação
entre si, tampouco um tratado de amizade que permita reuniões comuns?! Andamos
com a febre das teorias conspirativas, claro!
.
«Ciente da fragilidade da pretensa “pulsão republicana” do
país, a maçonaria apressou-se a blindar o modelo de organização do Estado,
impondo no texto Constitucional que Portugal é uma república, o que impede
quaisquer veleidades monárquicas a quem quer que seja antes do texto ser revisto.
Ciente da fragilidade da pulsão republicana do país e da credulidade primária
do povo, a maçonaria tem até propagado que a república já foi sufragada (e
quando questionada sobre quando é que isso foi feito, respondem com os parcos
resultados eleitorais do PPM em todos os sufrágios a que se apresentou).»
É evidente e natural que o novo regime
(e não a Maçonaria) tenha procurado blindar-se e evitar o regresso ao anterior.
Se o fenómeno fosse o inverso, seria perfeitamente natural que sucedesse coisa semelhante.
Porém, hoje, e ao abrigo das concepções que temos da Democracia, os maçons são
os primeiros a defender a possibilidade de alterar a constituição para permitir
a vigência de um regime monárquico; tal como defendem o valor superior do referendo
universal; tal como é intrínseco ao próprio conceito de Democracia.
A Maçonaria não está nem esteve
contra a monarquia; simplesmente não impõe aos seus membros nenhum modelo
político, deixando-os lutar e pugnar pelos ideais em que cada um acredita.
Hoje, tal como em 1910 ou 1920, existem republicanos e monárquicos na Maçonaria.
.
«Passam hoje 108 anos sobre o assassínio de um Rei e do seu
Filho.
Um Rei que se debatia com a fragilidade económica, mas mesmo
assim procurava modernizar o país e puxá-lo para o mesmo patamar das nações suas
parceiras, um Rei que procurava a unidade do Estado e pugnava pelo bem-estar do
povo (quiçá, por não apoiar ilicitudes na protecção de interesses de uns
quantos teve o fim que se conhece), acaba trocado por um regime que se tinha a
si próprio como o fim em si mesmo, perdido nas intrigas mesquinhas e nas
disputas de interesses que ainda hoje testemunhamos, com os resultados que
estão à vista de todos.»
É o chamado lirismo de alcova. O
facto é que se sua majestade procurava tudo isso, nunca o alcançou, nem andou
perto. Provavelmente procurava no fundo do mar ou nas telas que pintava, ou
nalgum dos pauis em que caçava patos. É escusado tentar elevar o protagonismo da
real pessoa acima da existência fútil, e relativamente alheada da realidade, que
caracterizava a esmagadora maioria dos coroados dos inícios do séc. XX. Também
não vale a pena tentar imputar ao rei os males que se viviam no Portugal de
então. É certamente, e principalmente, culpa da qualidade dos políticos que
existiam (na monarquia e na república que lhe sobreveio), tal como o é aos
políticos de hoje a falta de qualidade da Democracia que temos. E em última
análise, à falta de qualidade do povo que somos.
.
«Seriam estes resultados evitáveis se ainda vivêssemos sob
uma Coroa?
Ninguém sabe - as coisas são como são e foram como foram.
Seguramente, a monarquia em Portugal sempre procurou andar ao compasso do seu
tempo e o fosso que separava Portugal dos restantes países, longe de estreitar,
com a república aumentou.
É este texto um libelo contra a república? Contra a
maçonaria?
Os factos são o que são.
Se a República quiser ser melhor que a Monarquia, tem que
fazer melhor, muito melhor. Se a Maçonaria quer limpar a sua imagem, tem que se
tornar mais transparente, muito mais!»
«Se a Republica quiser ser melhor»,
como se a Monarquia o tivesse sido. Se o povo e os políticos são os mesmos, com
a mesma qualidade ou falta dela, como pode a monarquia ser substancialmente diferente
da república? Cada um pinta os factos como pode. Eu tenho consciência do (meu) uso
das tintas, por isso duvido bastante, sobretudo daquilo que me é próprio e
próximo. Ao que não me é próximo encolho os ombros, porque me parece que aí não
pontifica esse exercício da dúvida. E de dogmas não estou comprador.
.
«Apenas recordo factos:
Há 108 anos, houve um duplo assassinato e há 106 os
assassinos passaram a heróis...»
E depois? Quantos príncipes e reis não
o fizeram em 700 anos de história monárquica portuguesa, nunca plebiscitada?!
.
Assim respondo eu, livre-pensador, libertário
de Direita, agnóstico e maçom, sem vincular com estas respostas o pensamento de
nenhum outro livre-pensador, libertário de Direita, agnóstico ou maçom.
2015/09/13
Não vou, fico!
Nesta vida neurótica hodierna destruímos a
nossa identidade, deformámos a nossa personalidade. Andamos por aí, à deriva
pela vida, vagueando num limbo pejado de imitações dos arquétipos ditados pelo consumismo
vigente.
O homem de hoje já não sabe coexistir com a sua natural inquietude,
tampouco com a sua própria subjectividade. Tudo tem de obedecer a um desígnio
pragmático; os rituais do quotidiano foram substituídos por autênticos vícios
que causam dependência, a Internet, o hipermercado, a TV com a telenovela e o
futebol... tal como as férias alucinantes em que se tem, obrigatoriamente, de
sair de casa arrastando a família, ou sendo arrastado por ela, em que se tem de
ir àquela praia, àquela party; e se assim não acontecer, ficamos frustrados e
infelizes.
Já não sabemos conversar, conviver,
partilhar. E as viagens, esses périplos neuróticos para onde nos atiramos com
bagagens e paus de selfies para
registar tudo, tudo aquilo que não vivemos, com a chancela do nosso rosto
afirmando “eu estou aqui”.
É a neurose da sociedade global em ligação, em
produção de ruído - coisa diferente de comunicação.
Hoje não existe recato, não existe privacidade.
Frequentemente, gosto de me isolar, quer mentalmente
nos meus sonhos, leituras, imaginações e reflexões, quer fisicamente em algum
lugar pouco frequentado como um vale verdejante não muito distante, ou o sótão
da minha casa.
Para quê, então, esse imperativo de viajar, para
que tenho de ir conhecer mais lugares se nem consigo conhecer, como gostaria, o
pequeno mundo que me rodeia?
Porque devo ir em busca de outros e do que
porventura terão para me oferecer, se nem exploro convenientemente o que
acontece dentro de mim?
- Vamos acolá, vem.
- Não vou, fico!
2015/09/11
2015/06/02
Maçonaria Para Quê?
![]() |
A child cries in a cave shelter in Tess village in the
rebel-held territory of the Nuba Mountains in South Kordofan.
|
É inequívoca a crescente desumanização da sociedade resultante por
um lado da má condução dos povos e das economias nesse processo empolgante a
que demos o nome de Globalização, e por outro lado pelo modo de vida
vertiginoso que desregula o pulsar natural do ser humano e prejudica o seu
ritmo ingénito – efeito secundário e nocivo da sociedade industrializada.
Os antimaçónicos esgrimem que a
maçonaria, ao posicionar-se contra as “verdades” mundanas e
o dogma teológico convencional, é inimiga das instituições que
são contrárias aos princípios do racionalismo, da dúvida metódica, ou da liberdade
religiosa. Trata-se, claro, de uma falsidade, pois bem sabemos que a Maçonaria
não tem por objectivo confrontar ou destruir religiões, desde logo porque não
se foca nas instituições, depois porque pugna pela liberdade total do indivíduo
na escolha das suas convicções. A Maçonaria defende ideias e tem exactamente
por objecto e objectivo, o indivíduo. Portanto não se coloca na posição de “atacar”,
mas sim na posição de “defender”. Defende a liberdade de cada um adoptar o que
entende melhor para si, a liberdade de construir o seu presente e decidir o seu
futuro, de edificar o seu templo interior e a identidade que almeja.
Assistimos, quotidianamente, a uma profunda e entorpecedora
alienação dos indivíduos em relação a muitos assuntos que deviam preocupar
todos os homens e mulheres deste mundo insano em que alastra a
corrupção, em que se ampliam as assimetrias sociais e económicas e se
aprofundam os fossos entre ricos e pobres, em que a miséria se multiplica
vertiginosamente. Num mundo assim a Maçonaria continua a ser necessária,
como imperioso continua a ser defender os valores que a civilização conquistou
ao longo de 7.000 anos (considerando-a fundada pelos Sumérios cerca de 5000
a.C).
Por outro lado, a Maçonaria
mantém-se como um reduto de quantos acreditam que a existência humana não é apenas
aquilo que se manifesta materialmente e que a condição humana é estática e que a
essa condição nos devemos resignar. Podemos ser melhores, podemos
aperfeiçoar-nos como indivíduos, como cidadãos, como profissionais, como pais e
mães, como amigos, e também na relação com os outros e com o princípio criador.
E nessa caminhada de progresso interior cada um traça o seu caminho para se
aperfeiçoar.
A Maçonaria afirma que é possível, e desejável, construir
uma sociedade em que cada indivíduo possa alcançar a felicidade. Ora, considerando
a quantidade de pessoas que não possuem essa satisfação, nem sequer um qualquer
patamar de realização pessoal, a Maçonaria continua com uma gigantesca e
hercúlea tarefa pela frente.
Contra a modorra da alienação, contra
o logro da mentira e o facilitismo da irresponsabilidade, contra uma sociedade
patologicamente neurótica, repleta de vacuidades e futilidades, vivendo das
aparências; contra tudo isso brandimos a Razão, numa luta pela Justiça, pela
Verdade e pela Fraternidade, que inclua todos os seres humanos.
LIF
2015/03/29
Da Maçonaria na Revolução Francesa à Revolução Francesa na Maçonaria
| dos sans-culotte aos sem-cabeça |
Da Maçonaria na Revolução Francesa
à Revolução Francesa na Maçonaria
Sobre a relação da Maçonaria com a Revolução Francesa são muitos os
absurdos publicados, quer em obras consideradas idóneas e de referência
historiográfica quer em múltiplos sítios na Internet. No fundo, tudo não passa
de uma
lenda que imputa aos maçons a autoria da Revolução. Lenda nascida em 1792 sob a
pena do Abade Lefranc, popularizada em 1797 pelo Abade Barruel e continuada no
século XX por Augustin Cochin entre outros, e que coloca em evidência o suposto
grande número de revolucionários maçons e a importância do simbolismo maçónico
na iconografia revolucionária. O despautério propagou-se e multiplicou-se até
aos nossos dias, encontrando eco em várias formas e suportes de informação, mesmo
entre maçons, eis alguns deles:
«A maçonaria teve influência decisiva em grandes
acontecimentos mundiais, tais como a Revolução Francesa e
a Independência dos Estados Unidos. Tem sido relevante, desde a Revolução
Francesa em diante, a participação da Maçonaria em levantes, sedições,
revoluções e guerras separatistas…»
«Em 1789 , de todos os movimentos libertários, foi
na Revolução Francesa que a Maçonaria teve uma participação mais forte, e
que resultou no massacre de milhares de pessoas e na anulação do conceito de
religião, quando a França “aboliu” a existência de Deus e entronizou em seu
lugar uma prostituta como deusa “Razão”; passando à perseguição dos religiosos
e à destruição de todos os exemplares das Escrituras Sagradas, o que resultou
num caos e nas trevas morais.»
«A história da França desde a Revolução Francesa permite uma
ilustração impressionante do que vimos ser o mot d’ordre das forças
naturalistas ou anti-sobrenaturalistas – favorecer durante algum tempo uma
Potência Protestante a fim de arruinar uma Potência Católica. Na obra maçónica
As Constituições da Maçonaria ou Ahiman Rezon, publicada pela Grande Loja da
Irlanda em 1858, consta que Frederico “O Grande” da Prússia foi iniciado em 1738
e que em 1761 pediu ao seu representante que convocasse um Grande Consistório
de Príncipes do Segredo Real em Paris, a fim de dar uma patente ao Irmão
Stephen Morin para que apresentasse aquele sistema ao mundo. Em 1762,
Frederico, Rei da Prússia, foi proclamado Grande Inspector-geral Soberano, 33º
grau, para ambos os hemisférios. Essas datas são mencionadas porque Frederico,
usou toda sua influência na Maçonaria para instigar a preparação da Revolução e
enfraquecer a França. Além disso, ele fez tudo em seu poder para separar a
França da Áustria e desfazer os efeitos benéficos causados pelo casamento de
Maria Antonieta com o futuro rei, Luís XVI, em 1770.»
Como pano de fundo para
este devaneio, a imensa tapeçaria fantástica urdida pelos assustados e intolerantes
religiosos, de que o jesuíta Barruel é apenas um de vários exemplos; ele, que
afirmou na sua obra “Mémoires pour
servir à l'histoire du Jacobinisme” [Memórias e Contributos para a
História do Jacobinismo]:
«Nesta Revolução Francesa, tudo, até nos seus crimes mais espantosos, tudo foi
previsto, meditado, constituído, resolvido, estatuído; tudo tem tido o efeito
da mais profunda perversidade, pois que tudo foi preparado, conduzido por
homens que tinham, sozinhos, o fio das conspirações há muito tempo tramadas
dentro das sociedades secretas».
E uma vez mais o
espírito demagógico do zeloso Barruel atribuía a Diderot, d’Alembert, Voltaire
e a outros maçons, a inspiração da Revolução, incluindo, entre os cúmplices,
d’Argenson, Choiseul, Malesherbes, Turgot e Necker. Nessa obra afirma ainda: «A conjuração visa, antes de tudo, destruir o
Cristianismo».
Ora, para perceber os factos e encontrar a verdade devemos começar pelo contexto histórico:
A França do Antigo Regime
era um país absolutista i. e., o rei governava com poderes absolutos
controlando a economia, a justiça, a política e até mesmo a religião dos
súbditos. Não existia qualquer tipo de democracia, e os opositores eram presos
ou condenados à morte. O Terceiro Estado era formado pelos trabalhadores
urbanos, camponeses e pequena burguesia comercial, que arcavam com a quase
totalidade dos impostos que alimentavam uma nobreza ociosa e uma corte
ofuscante. A vida dos trabalhadores e camponeses era de extrema miséria, o que
suscitava um crescente mal-estar e o ardente desejo de melhorias. A pequena burguesia,
mesmo tendo uma condição social melhor, desejava uma maior participação
política e mais liberdade económica, a exemplo do que acontecia na
Inglaterra.
Para além de alguns
aspectos estruturais, já referidos, analisemos com mais detalhe os aspectos
conjunturais. Na
década de 1780, a
produção agrícola, base da economia francesa, ressentiu-se das severas
condições climáticas, materializadas em más colheitas, com consequente aumento
dos preços dos alimentos e ocorrência de fome e miséria para grande parte da
população. Registou-se
também uma crise na produção manufactureira resultante de um mau acordo com a
Inglaterra, em que a França aceitou baixar os impostos sobre os produtos
ingleses em troca de semelhante redução dos impostos sobre o vinho francês no
mercado inglês; daí resultando muitas falências e aumento do desemprego. Outro
factor considerável para o profundo descontentamento popular reside na crise
política que atingiu a monarquia francesa, principalmente ligada ao aumento dos
gastos da corte e ao custo das guerras em que a França se envolveu.
Perante este cenário o rei Luís XVI convocou os Estados Gerais para tentar resolver os problemas. Na abertura dos trabalhos da
Assembleia, em Maio de 1789, o rei insistiu no voto por estados e que a
Assembleia tratasse apenas das questões do deficit financeiro da monarquia e
das medidas para combatê-lo. Face à insistência dos representantes do povo e da
pequena burguesia – o Terceiro Estado –, na questão do voto individual, o rei
decidiu abruptamente encerrar os trabalhos da Assembleia. Os deputados do Terceiro
Estado saíram de Versalhes e dirigiram-se a Paris com a intenção de formar uma
Assembleia Nacional e redigir uma constituição para a França. Luís XVI receando
perder o domínio dos acontecimentos instou os demais estados (nobreza e clero)
a participarem nessa nova assembleia. Porém, numa manifestação de força e de
afirmação do poder real enviou tropas com o intuito de dispersar as
manifestações populares que se verificavam em Paris. E este terá sido o
rastilho que incendiou a população revoltada, que em 14 de Julho de 1789
invadiu a Bastilha, a prisão dos inimigos da monarquia e símbolo maior da
repressão.
Analisemos, agora, o que foi a Revolução:
Não houve apenas uma mas quatro revoluções, entre 1789 e 1799; e
cada uma delas consumiu a sua antecessora. A primeira revolução teve claramente
um cunho aristocrático e constitucional, por um lado partidária do Duque
D’Órleans (Grão-Mestre do GOF), por outro defensora de um sistema de monarquia
constitucional com Luís XVI, segundo o modelo inglês, ou, preservando a
monarquia, mas seguindo os passos do constitucionalismo liberal americano. A
primeira Assembleia Constituinte saída da revolução integrava cerca de 200
maçons, num total de cerca de 1177 deputados - e por aqui se vê qual a
expressão maçónica nesta importante instituição da Revolução. A segunda
revolução, girondina, foi burguesa, defensora dos direitos da propriedade,
monárquica e constitucionalista. Dos deputados da Assembleia girondina supõe-se
que pouco mais de 200 fossem maçons, num total de 745. Vários chefes girondinos
eram maçons, como Brissot, presumivelmente membro da loja Les Neuf
Soeurs (As nove Irmãs), de
que também fariam parte Danton e Desmoulins, os algozes de Brissot e do
directório girondino, que os conduziram ao cadafalso. A terceira revolução,
jacobina, também contou com maçons nas suas fileiras, homens como
Georges-Jacques Danton e Maximilien Robespierre; ainda que este último não
fosse muito devoto à Ordem sabe-se que frequentara na juventude a loja Hesdin.
Mas nada disto, desta condição de fraternidade que une os maçons, fez com que
se verificasse qualquer harmonia entre eles, até porque Hébert, Desmoulins e
Danton, foram guilhotinados a mando de Robespierre. E na quarta Revolução,
thermidoriana, coube a vez aos maçons Robespierre e Couthon, entre outros, de
perderem a cabeça na guilhotina, de novo às mãos de revolucionários que também
integravam alguns maçons como Collot d’Herbois e Barras, p. ex. Por conseguinte:
«(…) não se vislumbra possível um complot
maçónico que traçasse um plano tão caótico quanto o foi a sucessão de
acontecimentos da Revolução Francesa, nem se imagina que os homens que
eventualmente tivessem delineado semelhante tragédia quisessem ser suas vítimas
pela sua própria morte e pela morte de muitos dos seus amigos.»
In RUI A.
“MAÇONARIA E REVOLUÇÃO”
http://revolucaoemfranca.blogspot.pt/2011/06/maconaria-e-revolucao.html
Analisemos agora a origem desta tese que faz da Revolução uma
produção maçónica. Ela é praticamente contemporânea dos primeiros
acontecimentos revolucionários, e é devida ao Abade Lefranc que em 1792
publicou um livro intitulado “Conjuration contre la religion catholique
et les souverains, dont le projet conçut en France doit s’exécuter dans
l’Univers entier”, [Conspiração Contra a Religião Católica e os Soberanos,
Cujo Projecto Concebido em França Deve Ser Executado em Todo o Mundo], onde
atribui à Maçonaria a autoria da Revolução. Lefranc, executado nesse mesmo ano
juntamente com quase duas centenas de outros clérigos, deixou a semente que
iria ser largamente divulgada em toda a literatura anti-maçónica e
anti-revolucionária, destacando-se nessa literatura o célebre livro [Memórias e
Contributos para a História do Jacobinismo] do abade Barruel publicado em
1798. E foram principalmente estas obras que instituíram essa ideia da
existência de uma conspiração tecida fora da França e que a toma de assalto
visando o derrube das monarquias europeias; assim foi identificada a
Franco-Maçonaria francesa, enquanto braço armado de uma sinistra Ordem dos
Iluminados da Baviera.
É evidente que a Maçonaria não terá sido um elemento
absolutamente neutro no curso dos acontecimentos, mas isso não faz dela agente
destacado da Revolução. Constatemos os factos:
1 - A Maçonaria tinha, muito antes dos primeiros actos
revolucionários, uma penetração efectiva na sociedade francesa, já que as
primeiras lojas surgiram logo após 1717, ano da fundação da Grande Loja de
Londres.
2 - Em 1735 eram inúmeras as lojas de origem inglesa e escocesa
em França, ao ponto de ter sido proclamado um Grão-Mestre para este país (em Junho
de 1738). Aí foi instituído o cargo de Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons
do Reino de França, e nele investido o Duque d’Antin, substituído depois da sua
morte pelo Conde de Clermont, ao qual sucede, em 1772, o Duque d’Orléans, como
Sereníssimo Grão-Mestre do então designado Grande Oriente de França.
3- Antes do começo da Revolução e até à fuga da aristocracia, a
Maçonaria francesa era composta eminentemente pela aristocracia e pela alta
burguesia, à qual se juntava um número considerável de padres católicos. A
Maçonaria francesa não era, portanto, um redil de conjurados anti-monárquicos
movidos pelo objectivo de destruir a nobreza e o clero e implantar uma república.
4 – Acerca do republicanismo dos primeiros revolucionários
franceses, recorde-se que Desmoulins disse, pouco antes de morrer, que em 1789,
na Tomada da Bastilha, os republicanos não seriam, em França, mais do que meia
dúzia. A reforçar esta ausência de espírito republicano, sublinhe-se que o
próprio Robespierre só se confessa republicano pouco antes da queda do Rei. Ou
seja, o republicanismo de 1792 a 1794 não existia ainda no espírito dos
revolucionários de 1789, menos ainda dos maçons dessa altura.
Agora já podemos compreender que a Maçonaria era, nesses tempos
primevos da Revolução, uma instituição de convergência entre a aristocracia, a
alta burguesia e o clero, na qual fervilhavam certamente ideias do iluminismo, mas não era uma organização que conspirava para derrubar
o poder político e as ordens sociais em vigor que tantos dos seus membros
integravam.
«Parece hoje inquestionável que, apoiado por
homens como Mirebeau e De Laclos e, até - há quem o sustente - pelo próprio
Danton, o Duque d’Orléans conspirou contra o rei seu primo e gastou nessa
actuação uma verdadeira fortuna, ele que era o segundo maior proprietário do
reino, imediatamente a seguir a Luís XVI. Estas eram, pelo menos, as suspeitas
de Luís XVI (…) embora hoje se acredite que a sua participação no fomento do
fervor revolucionário não teve a dimensão (…) que alguma historiografia lhe
concedeu. É certo que ele foi Grão-Mestre do GOF, mas parece também que a sua
proximidade à Maçonaria era mais honorífica e formal do que material. O
verdadeiro administrador-geral do GOF foi, por esses tempos e até 1789, quando
emigrou para Inglaterra na sequência dos primeiros acontecimentos
revolucionários (e, nesse mesmo ano, para Lisboa, onde veio a morrer), o émigré
Sigismond de Montemorency-Luxembourg, adversário declarado do Duque d´Orléans e
fiel partidário da Monarquia (na melhor das hipóteses, Constitucional...), que
queria ver protagonizada por Luís XVI e não pelo seu duvidoso primo.»
In RUI A. (obra citada)
Após a queda da monarquia a 10 de Agosto de 1792, o Duque D’Orleáns
tornou-se uma figura patética, mormente como Citoyen Égalité. Caído em desgraça foi preso em Abril de 1793,
durante o regime do Primeiro Terror e, e em desespero, tentou desmarcar-se do
seu passado maçónico – o que demonstra bem a falta de consideração que a jovem
República tinha pela Maçonaria –, publicando uma vergonhosa carta de contrição
onde pedia desculpa por ter sido maçom; que não lhe
serviu de nada pois a guilhotina decepou-lhe a cabeça em 6 de Novembro de 1793.
E assim se conclui que os acontecimentos até 1789 ultrapassam qualquer
conspiração da Maçonaria, ou de maçons, que pudesse ter sido traçada em prol
das pretensões do Duque d’Orléans, a figura apresentada como a mais proeminente
dessa maçonaria, pretensamente, mãe da Revolução.
Afigurando-se, agora, evidente que a Maçonaria não planificou a
Revolução Francesa, porque tal era manifestamente impossível pela natureza da
sua formação, bem como devido à extensa variedade dos interesses e das
sensibilidades que integraram aquela acção revolucionária, resta a hipótese da
maçonaria ter influenciado os amotinados através da divulgação das ideias revolucionárias.
Porém, se parece certo que Diderot, Rousseau e o próprio Condorcet foram
maçons, e se as lojas terão servido para fomentar a aproximação social e política entre a
nobreza dominante e a burguesia emergente, a realidade mostra que esses elementos
característicos de uma parte da Maçonaria actual não a influenciavam nesse
tempo e foram adquiridos posteriormente.
E assim é, pois no começo da Revolução a maçonaria francesa era
monárquica, uma vez que grande parte dos revolucionários admitia os valores
do Ancien Régime, embora já existisse no seu seio um componente
importante que perfilhava um reformismo constitucional - influência dos Estados
Unidos que Lafayette trouxera e fizera imprimir em 1789 no texto da Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão, a qual evoca os valores da liberdade e
da igualdade, do primado da lei, do direito da propriedade, da necessidade de
contenção do poder soberano, da Constituição, da separação de poderes do
Estado, etc. ideais provenientes mais do iluminismo inglês e escocês, do que do
iluminismo francês:
«Por outro lado, os valores que mais tarde
marcariam parte da Maçonaria francesa, como o anti-clericalismo e o jacobinismo
republicano, não podem atribuir-se ao pensamento maçónico do tempo da
Revolução. Voltaire, o grande filósofo anti-clerical, seria feito maçom a 7 de
Março de 1778, menos de três meses antes de morrer. Voltaire, toda a vida
anti-clerical e anti-católico, terá querido morrer católico (segundo o número
de Abril de 1778 da revista francesa Correspondence Littéraire Philosophique et Critique, onde está
publicada uma declaração do filósofo anunciando a sua conversão e a sua
confissão a um padre católico, o Padre Gautier), pelo que não terá procurado a
Maçonaria para a tentar influenciar com um anti-clericalismo que já não
possuía, como alguns autores defendem, obviamente sem qualquer sustentação.»
In RUI A. (obra citada)
E
para ajudar à perpetuação da lenda mirabolante, um pouco por toda a parte,
maçons desavisados proclamam que a Revolução Francesa foi feita pela Maçonaria,
inspirada na sua divisa LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE. Ora, repare-se que
essa divisa foi adoptada pela IIª República em 1848, e só no ano seguinte pelo Grand Orient de France. Mas é evidente
que esta partilha da mesma divisa também ajudou a alimentar a lenda que coloca
os maçons como arquitectos da Revolução, lenda reforçada pelas obras publicadas
no início do século XX, como a de Gustave Bord, La Franc-maçonnerie en France, que repete as teses fantasiosas da
conjura maçónica veiculadas pelo seu grande arauto, o abade Barruel. Acresce,
ainda, que no que toca ao plano religioso o ateísmo
que alguma Maçonaria proclama hoje era inequivocamente rejeitado pelos maçons
de então. Mesmo Robespierre tinha profundas convicções religiosas – tendo, até,
atacado os herbertistas pelo facto destes se declararem ateus. Todos estes
factos demonstram que a Revolução Francesa não foi urdida pela maçonaria.
Mas, então, a Maçonaria não possuía um ideal republicano?
Certamente que não, pois quando a República se implantou a
maçonaria praticamente desapareceu e tal facto é compreensível já que a Ordem
era defensora da Monarquia Constitucional e avessa a rupturas com os princípios
da primeira Revolução. Aliás,
Nicola Aslan no seu livro “História da Maçonaria”, assegura que no dia 17 de
Julho de 1789, «numa recepção feita a Luis XVI, depois da tomada da Bastilha,
os maçons, que lá estavam em grande número, fizeram a abóbada de aço sob a qual
o rei, espantado e amedrontado, passou». Esse gesto, de respeito e apoio
maçónico ao rei, desmente o jesuíta Barruel e reforça a convicção de que não
foram os maçons que fizeram a Revolução e, muito menos, pretenderam destruir o
Cristianismo.
Em
Conclusão: A Revolução Francesa foi um marco importante na história da
civilização. Proporcionou o fim do sistema absolutista e dos privilégios da
nobreza e granjeou autonomia e direitos sociais para o povo. A vida dos
trabalhadores, em geral, melhorou significativamente. Por outro lado, permitiu
à burguesia o acesso à condução da sociedade garantindo o seu domínio político
e social. Deve-se à Revolução Francesa o estabelecimento das bases da sociedade
burguesa e capitalista, e também influenciou, com os seus ideais iluministas, a
independência de muitos outros países, nomeadamente do continente americano, e
alguma abertura de espírito nas sociedades europeias mais tradicionais e
conservadoras.
Daqui
se conclui, sem margem para dúvidas, que não é possível estabelecer com plena
exactidão em que medida – quantidade, frequência e intensidade -, os maçons
participaram na Revolução Francesa, embora seja inequívoco que dela fizeram
parte, pois assim o testemunham inúmeros factos históricos, alguns dos quais
referidos neste sintético trabalho. Porém, a Ordem Maçónica não passou de um protagonista,
menor e silencioso, dessa revolução que mudou o Mundo, não obstante ter sido repetidamente maltratada por ela, ainda que a tenha
influenciado em vários momentos através das ideias; ideias que, de resto, não
eram originariamente suas, nem sequer partilhadas por todos os maçons.
Por isso, podemos afirmar que o contributo da Maçonaria na
Revolução Francesa aconteceu a nível individual, e de modo nenhum como resultado
de um plano previamente gizado. E também podemos dizer que uma parte importante
da Maçonaria que hoje conhecemos foi influenciada pelos valores saídos da
revolução, valores como a laicidade, o republicanismo e o igualitarismo. Ou
seja, não foi a Maçonaria que mudou a França e o Mundo através de uma
revolução, mas sim a Revolução Francesa que influenciou a Maçonaria, levando-a
a ir mais longe nos seus ideais, já que materializou velhas aspirações
libertárias e abriu caminho para trilhar novos percursos humanistas.
2015-03-28
H., M:. M:.
R:.L:. D:.P:. IV
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