A Vida Num Só Dia
Rádio Macau
Eu podia desvendar os segredos mais secretos
O som, a cor, o olhar e o número fatal
Tomar de assalto os céus em cruzadas proibidas
Olhar nos olhos de Deus e esperar o final
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Eu podia conhecer os segredos mais secretos
Transmutar o meu ser em ouro filosofal
Esconder o rosto cansado sob o meu balandrau negro
Deixar o tempo parado e esperar o final
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia a vida num só dia
Viver como por magia...
2017/06/17
2017/02/16
Sobre Eutanásia
A EUTANÁSIA SEGUNDO PEDRO VAZ PATTO — (por Factos, ficção e filosofia in Facebook)
Há algumas semanas, a revista Sábado destacou o testemunho de um médico que eutanasiou quatro pessoas. Tornou-se assim público algo que, na verdade, já se sabia: a eutanásia é uma realidade em Portugal. Em resposta a esse testemunho, Pedro Vaz Patto (PVP) escreveu um artigo – aquele que está ali em baixo – onde avança algumas das objecções recorrentes à legalização da eutanásia. Vale a pena expor a sua fragilidade.
Tendo em mente a eutanásia voluntária, PVP alega o seguinte:
“[N]unca é absolutamente seguro que se respeita a vontade autêntica de uma pessoa que pede a eutanásia. Nunca pode haver a garantia absoluta de que o pedido de eutanásia é verdadeiramente livre, inequívoco e irreversível. Muitas vezes, traduz um estado de espírito momentâneo, que pode ser superado.”
Quem defende a eutanásia voluntária, entende que esta deve ser praticada apenas quando o paciente exprime, sem coerção, um desejo competente de morrer — ou quando, estando incapacitado, exprimiu competentemente esse desejo a respeito das circunstâncias em que agora se encontra. Para PVP, no entanto, a eutanásia deverá estar fora de questão na ausência de uma “garantia absoluta” de que o desejo é competente. O problema é que esta exigência, tão forte que nunca poderá ser satisfeita, acaba por resultar no seguinte: vamos, então, tratar o paciente como se tivéssemos a garantia absoluta de que ele é incompetente. Assim, se uma pessoa estiver muito doente ou incapacitada, sofrerá ainda o infortúnio de ser tratada como se já não fosse um agente racional, como se a sua vontade a respeito de algo que lhe concerne primariamente (o modo como a sua própria vida irá terminar) nada contasse.
A exigência de PVP é descabida. Como devia ser óbvio, estar muito doente ou fisicamente incapacitado não implica cair num estado de perturbação mental que nos prive de fazer escolhas competentes. Em muitos casos, havendo um pedido de morrer expresso com lucidez ao longo de um período de tempo considerável, temos razões suficientemente fortes para julgar que esse pedido é competente. O ónus da prova, aliás, caberá a quem duvide desse juízo. Diria até que as pessoas têm o direito moral a uma presunção de competência – i.e. que tratá-las como incompetentes, na ausência de razões suficientemente fortes para crer na sua incompetência, é fazer-lhes uma injustiça.
Por que razão, então, se há-de exigir uma “garantia absoluta” de competência, impossível de satisfazer? PVP sugere que a irreversibilidade da eutanásia torna essa exigência apropriada. “É que a decisão de suprimir uma vida”, afirma, “é a mais absolutamente irreversível de quaisquer decisões, dela nunca pode voltar-se atrás.” Acontece que as coisas não são tão simples. Suponha-se que, sem nenhuma razão para considerar incompetente um pedido de eutanásia, recusa-se esse pedido e condena-se a pessoa que o fez a agonizar durante semanas. Todo esse sofrimento que ela terá de suportar — em virtude de a tratarem como se estivessem certos da sua incompetência — também será absolutamente irreversível.
http://www.sabado.pt/vida/detalhe/eutanasia_a_morte_nunca_e_resposta
http://www.sabado.pt/vida/detalhe/eutanasia_o_direito_de_dizer_nao_ao_sofrimento
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=889941571083759&id=882292341848682
2017/01/14
Soares foi da Maçonaria? Sim e não.
Histórias de Soares – IV
Soares foi da Maçonaria? Sim e não…
Quarta de cinco histórias sobre a vida de Mário Soares. Hoje sobre a sua relação com a Maçonaria e da sua Maçonaria com a nossa Maçonaria e da sua pessoa com os nossos maçons, de como ele se entediava de morte com tudo isso e de como alguém pagou por ele as quotas em atraso.
(Texto de Henrique Monteiro in Jornal EXPRESSO 13 JAN. 2017)
Soares foi da Maçonaria? Sem dúvida? E foi maçon? Sobre esta segunda pergunta a doutrina divide-se. Há os que pensam que basta ter sido iniciado numa Loja Maçónica para se ser maçon; e há os que pensam que ser maçon é ter uma vivência e uma permanência na maçonaria, não apenas ter sido iniciado. Digamos, em linguagem mais corrente, que Mário Soares é como aquelas pessoas que são batizadas, mas não são praticantes.
No fundo, qual é a história? Que Soares estava rodeado de maçons em Portugal (dos poucos que sobreviveram ao decreto que a extinguiu em 1935 e trabalharam clandestinamente) é claríssimo. No entanto, foi preciso esperar pelo ano de 1972, tinha Mário Soares 47 anos, a caminho dos 48, para que o convencessem a entrar na organização. Esse papel coube a Atilano dos Reis Ambrósio, que usava o pseudónimo literário de Jorge Reis e tem como romance mais famoso “Matai-vos uns aos outros”. Reis vivia em Paris, onde aliás faleceu há pouco mais de um ano, estando enterrado no cemitério do Père Lachaise, mas mantinha uma casa em Cascais. Militante do PCP nos anos 40, como Soares, exilou-se em Paris depois de se desligar do PCP e entrou na Grande Loja de França, a mais ritualística e rigorosa que pratica o Rito Escocês Antigo e Aceite e o Rito Escocês Retificado. Foi para uma Loja do Rito Escocês Antigo e Aceite que Reis levou Soares: Les Compagnons Ardents, na qual foi recebido como Aprendiz e, depois, elevado a Companheiro, ainda antes do 25 de Abril.
O percurso de Jorge Reis afastá-lo-ia, mais tarde, de Soares. Aquele tinha uma amizade que chegava à veneração a Vasco Gonçalves, primeiro-ministro pró-comunista de quatro governos do PREC (1974-1975), contra o qual Soares mobilizava todo o país e, em especial, os socialistas.
Durante a sua permanência na Grande Loja de França Mário Soares convidou a entrar um amigo, que havia de ser seu ministro da Cultura – António Coimbra Martins, atualmente à beira de fazer 90 anos. Porém, a sua própria adesão aos ideais e rituais maçónicos nunca foram entusiasmados. “Era muito maçador e não correspondia a nada do que eu pensava ser”, disse-me um dia. “Mas não tenho nada contra os maçons, a começar pelo meu filho e por ti, que também és”.
E sou. É sabido. Por isso posso continuar a história com algum conhecimento.
Após o 25 de Abril e por interferência de outras pessoas, que nada tinham a ver diretamente com Soares, a Grande Loja de França (GLDF) foi fundamental no restabelecimento ritualístico e organizativo do Grande Oriente Lusitano. Curiosamente, o tempo encarregou-se de tornar o GOL mais próximo do Grande Oriente de França (GODF) do que da GLDF, mas Soares jamais teve a ver com o GODF. Por seu lado, o GOL manteve sempre relações com as duas organizações francesas.
Com 39 anos de clandestinidade, quase todos eles dirigidos por Luís Rebordão (1937-1975), após o afastamento do último Grão-Mestre do GOL não clandestino, Norton de Matos, foram-se perdendo práticas ritualísticas e simbólicas. Rebordão, que conta, mais tarde, com o apoio do médico Dias Amado (também ligado a Soares) e ainda de outros maçons ilustres como Álvaro de Athayde (o cirurgião de Salazar) ou Adelino da Palma Carlos (o primeiro primeiro-ministro depois do 25 de Abril), entre outros, passa o testemunho justamente a Dias Amado (1975-1981) que consegue o apoio da GLDF para refazer os rituais, nomeadamente nas iniciações e nas passagens a Mestre que, devido à complexidade das respetivas cerimónias, eram difíceis ou impossíveis de realizar em clandestinidade, utilizando-se, nessa altura, sobretudo as chamadas ‘passagens administrativas’ (ou seja, sem provas e sem ritual).
Porém, na altura, o ‘Companheiro’ Soares já se desligara totalmente da organização estando, como se diz na Maçonaria, ‘adormecido’. O contacto só volta a ser estabelecido nos anos 90, quando era Presidente da República. A determinada altura, a GLDF decide entregar-lhe uma medalha e, simultaneamente, aumentar o seu grau administrativamente para o 4º do Rito Escocês Antigo e Aceite (o primeiro dos altos graus escoceses, o que tornou Soares numa espécie de Mestre Maçon honorário). A decisão e a carta que a acompanhava foi do Grão-Mestre da GLDF da época, Jean-Louis Mandinaud, que a fez chegar a Portugal via uma Loja do GOL que tinha particulares relações com aquela organização maçónica francesa.
Soares recebeu, então a carta e a medalha, que lhe foram entregues por Luís Nunes de Almeida, juiz do Tribunal Constitucional, e presidente da loja contactada pelos franceses, acompanhado do então Grão-Mestre do GOL, João Rosado Correia, que fora ministro do Equipamento Social do governo do Bloco Central, chefiado por Soares.
Além da medalha, havia uma pequena dívida a pagar à GLDF. Mas Soares nunca soube dessa parte. Nunes de Almeida, abriu os cordões à bolsa e pagou-a – gesto que foi do conhecimento de pouca gente.
Não sei se esta verdade é incómoda, desmente ou confirma preconceitos, desilude quem acreditou em mitos ou qualquer outra coisa. Sei que este foi o percurso de um homem, que apesar de achar as reuniões da Maçonaria entediantes, no essencial, procedeu de acordo com os seus valores.
2016/12/29
Os Cátaros e o Graal
Tradução José Filardo
Sete
séculos depois de combater os cátaros nas condições que conhecemos, a Igreja
Católica acaba de pedir perdão. Além da ideia muitas vezes mitificada e tingida
de esoterismo que temos dessa heresia medieval atualmente, este ato de
arrependimento reflete a permanência do sentimento de que, todas as
identidades, incluindo aquela que se atribuem os maçons repousa sobre a ideia
de que o inferno é sempre o outro.
Foi em 16 de outubro na igreja da vila
de Ariege, Montségur, muito pequena para acomodar as centenas de pessoas, a
maioria nunca indo à missa, que chegaram para participar de um evento que em
outros séculos revolucionaria a cristandade. Mas neste dia de outono, este ato
solene de “arrependimento” passava apenas pelo que era: uma cerimônia
folclórica destinada a acomodar um “occitanismo” que criara raízes no solo
fértil de uma identidade religiosa “cátara” construída na era moderna. No
entanto, o catarismo tocou igualmente o norte da França e foi lá também tão
cruelmente reprimido quanto no Languedoc (ver caixa).
Evento de âmbito folclórico, portanto,
vez que limitado aos católicos da região de Ariége. Não era, de fato, a Igreja
universal, quem pedia perdão, mas, como foi dito durante a cerimônia, os
representantes dos católicos de Ariége: “Nós, os fiéis católicos que estamos em
Ariège pedimos perdão de nosso Senhor, mas também a todos aqueles que
perseguimos (…)” palavras emocionantes! Compreende-se mal, no entanto, o
significado de um perdão formulado por uma igreja cuja legitimidade
contemporânea é baseada em uma história que ela renega. Ainda mais que não se
pode entender como, sete séculos mais tarde, o ato de arrependimento da igreja
de Ariège pode aliviar o sofrimento daqueles que ela perseguiu. A menos, é
claro, que se acredite em fantasmas e fantasmas que através do culto da
lembrança e do dever de lembrar, parecem assombrar muito mais a consciência dos
povos que a necessidade de fraternidade entre os vivos. “Este perdão, eu apoio,
mas é uma história interna dos católicos. Isso lhes dá prazer, para que se
sintam melhor por ter perpetrado um massacre” devia declarar no final da
cerimônia em 16 de outubro, Eric Delmas, secretário da associação “Cultura e
Estudos Cátaros”, apresentando-se ele mesmo como um cátaro do século XXI.
Então, quem foram esses hereges
chamados hoje de cátaros, mas que em seu tempo ignoravam essa palavra? O termo
cataros só se tornou generalizado para descrever os hereges do Languedoc e em
outros lugares que, desde o século XIX. Ele não foi, no entanto, uma invenção.
Em vez disso, uma ressurreição. Propõe-se com frequência uma origem grega: o
termo catharoi – καθαροί – que significa “puro”. Ele é usado no oitavo cânone
do primeiro Concílio de Nicéia (318 da era vulgar) e designa os Novacianos,
estes “fundamentalistas” que recusavam o perdão aos apóstatas e a admissão de
assassinos e adúlteros aos sacramentos. Na Idade Média, o mais antigo documento
conhecido em que aparece o termo cátaro é um ato de Nicolas, Bispo de Cambrai
(1164-1167), que registra a condenação imposta pelos bispos de Colônia, Trier,
Liège, entre 1151-1152 e 1156, contra um clérigo, Jonas, “convencido da heresia
dos cátaros”. Sem especificar a natureza da heresia.
Os
adoradores do gato preto
Em 1163, encontramos o mesmo emprego em
um sermão do abade Eckbert de Schönau para designar os hereges da Renânia. Em
seu manuscrito de 1164, Liber contra hereses katarorum, ele retomou o termo,
mas o toma emprestado de Santo Agostinho, que usou o termo cahtaristae para se
referir aos seguidores do dualismo maniqueísta. Mas se os cátaros de que fala
Eckbert criticavam a hierarquia da igreja, não comiam carne e pretendiam ser
castos, eles não constituíam, por isso, uma contra igreja. Além disso, os
contornos do catarismo são também difíceis de definir tanto geográfica quanto
doutrinariamente. Os Bogomilos na Bulgária e nos Balcãs, os Patarinos na
Itália, bugres e tecelões, na França, o seu principal ponto comum parece ser o
seu questionamento da autoridade quanto à legitimidade do clero e,
consequentemente, ter sido objeto de uma ferocidade da igreja em os demonizar.
É assim porque a doutrina dos cátaros é
se não muito vaga, pelo menos mal definida onde os contornos semânticos do
termo que a designa são sinuosos. À pureza evocada pelo termo catharoi, opõem-se seu contrário: a impureza do katarroos, o termo médico catarro para uma infecção com
fluxo. Para os demonizar, faz-se dos hereges adoradores do gato – catus em latim – de preferência preto, segundo o teólogo
do século XII, Alain de Lille, que o empresta do inglês Walter Map: “Então
desce por uma corda pendurada no meio, um gato preto de um tamanho incrível (…)
e cada um deles o beijava, uns sob a cauda, a maioria nas partes mais
vergonhosas (…)”. Evocação felina que facilita a proximidade em alemão da
palavra Katz, que designa o gato, com o termo ketzer designa o herege. Os
hereges beijam então o cú do gato antes de se dedicar entre si a todos os tipos
de baixeza. E onde eles cometem essas infâmias? Em uma sinagoga, nos revela
Walter Map. “Então esse é o fim da história, os cátaros eram judeus, pois se
reuniam em sinagogas, e vice-versa! ” escreve Gerald Messadié em sua” História
geral do anti-semitismo “.
A única coisa certa sobre o uso da
palavra cátaro é que ela não era usada no Languedoc medieval, nem por aqueles
designados hoje por esse nome, nem pela Inquisição encarregada de os
interrogar. É o termo mais geral, herege, às vezes Albigense, embora Albi
jamais tenha sido o centro da heresia, que está mais em uso.
É da própria natureza de toda religião
constituída procurar a causa da heresia. Toda doutrina de alcance universal
gera, necessariamente, contradições nascidas da administração de interesses
conflitantes. Se a palavra religião é derivada do verbo religare – religar – os
laços de religião, que são baseados em crenças tão incrível quanto
questionáveis, têm naturalmente a tendência de se tornar mais flexível do que
se estreitar. Especialmente quando tais ligações parecem não ter outra
finalidade que fazer crescer uma casta.
Por isso, em todas as épocas, vozes se
elevam para reformar a religião, invocando uma pureza doutrinária original, ou
alegada como tal, que convém restaurar. Mesmo ao preço dos rigores do
fundamentalismo. É exatamente isso o que aconteceu com o cristianismo no início
do século XI, quando a igreja começou o grande movimento de reestruturação e
regresso às fontes conhecidas sob o nome de Reforma Gregoriana. Opondo-se os
príncipes, chegando a excomungar o Imperador Henrique IV, o papado pretendia
restaurar seu poder unificador usando como pretexto a primazia do espiritual
sobre o temporal. A reforma, que durará mais de dois séculos tornou o clero
mais independente, formulou o direito canônico, pregou a pobreza dos clérigos,
instaurou o celibato clerical e reforçou a palavra evangélica. Não admira então
que neste movimento geral, algumas pessoas tenham acusado a igreja de falta de
zelo em denunciar os vícios que a roíam.
Nesse sentido, o catarismo era muito
mais um fundamentalismo cristão que uma heresia. Mas querendo ser mais cristãos
do que a Igreja “oficial”, os fundamentalistas do século XII inevitavelmente
entraram em confronto com o centralismo romano autoritário que queria
precisamente reduzir os feudos religiosos. O que explica por que uma das
principais tarefas da Inquisição era forçar os hereges a confessar a existência
de uma “contra igreja”. Para isso recorreram ao arsenal heresiológico herdada
dos pais da Igreja que combateram o arianismo e o maniqueísmo nos primeiros
séculos do cristianismo. Houve, como já se argumentou, e ainda se sustenta, uma
contaminação balcânica do Languedoc no século XII? Não há evidência disso hoje.
Em relação ao conhecimento preciso da
teologia, ou a falta de teologia cátara avançou-se muito pouco. E por uma razão
evidente: ao contrário do que aconteceu três séculos mais tarde para a Reforma,
os hereges do Languedoc não dispunham de imprensa para afirmar canonicamente as
suas teses e doutrinas. Estas foram, portanto, propagadas principalmente por
via oral com todas as aproximações, interpretações, adições e omissões que este
modo de transmissão supõe.
Doutrina
cátara
Os Evangelhos, especialmente aqueles de
João e Lucas, traduzidos para o vernáculo são as principais fontes de educação
“cátara”, os manuscritos mais específicos sobre a doutrina são escassos, as
fontes de uma heresia que considerava o mundo como a criação ruim eram tiradas
diretamente da Bíblia: “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo; se alguém ama
o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo que há no mundo, ou seja, a
concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não
vêm do Pai, mas do mundo ” (1 João 2:15-16)
A principal fonte documental sobre o
“catarismo” é constituída assim pela soma considerável de testemunhos,
depoimentos, entrevistas e comentários acumulados pela Santa Inquisição
encarregada de lutar contra a heresia de Languedoc. Confiada aos dominicanos e
franciscanos na década de 1230, a inquisição no Languedoc era geralmente
conduzida por prelados vindos do Norte que utilizavam intérpretes para
transcrever as respostas dadas em diferentes dialetos locais. Exceção notável,
os casos instruídos entre 1318 e 1325 pelo bispo de Pamiers, Jacques Fournier,
que será eleito papa em Avignon sob o nome de Bento XII em 1334, são de uma
precisão notável e constituem a fonte mais confiável sobre a realidade
sociológica da heresia. Conservados na Biblioteca do Vaticano, este documento
traduzido por Jean Duvernoy, serviu principalmente a Emmanuel Leroy-Ladurie
para escrever sua história notável: “Montaillou, Aldeia da Occitânia”.
Uma
anti-igreja elitista
Dados os seus muitos aspectos, ao norte
e sul da França, no Vale do Reno, nos Balcãs e na Lombardia, o catarismo –
tomemos o termo para facilidade de uso – se ele não é uma contra igreja, seria,
muito mais uma anti-igreja, no sentido de que os valores cristãos que ele alega
são interpretados e apresentados em uma série de significados contradizendo
sistematicamente aqueles oferecidos pela igreja oficial. A instituição é
fortemente hierárquica? Os cátaros restringem a hierarquia a um grau ou dois,
no máximo. A igreja e os seus príncipes são ricos? Os cátaros pregam a pobreza.
A igreja baseia sua autoridade em dispensar seus sacramentos? Os cátaros
rejeitamos sacramentos, exceto o do consolo, ao mesmo tempo batismo, ordenação
e extrema unção. Os clérigos, muitas vezes transigem com a castidade? Os
cátaros a tornam uma virtude primária, porque o ato carnal conduz à perpetuação
do mundo ruim. A Igreja proíbe comer carne apenas na sexta-feira e na Quaresma?
Os cátaros são vegetarianos e fazem jejum todos os dias. A igreja exalta a
salvação pelas obras nesta vida? Os cátaros acreditam que a salvação só pode
acontecer depois de um retorno ao nada de onde se vem a este mundo. Os
católicos fazem votos e juram, os cátaros recusam qualquer juramento e se
abstêm de mentir. Assim, no processo de desenvolvimento da heresia cátara, não
é a doutrina que estrutura uma comunidade, mas sim a oposição radical a uma
igreja considerada corrupta que forja gradualmente a doutrina de uma pureza
evangélica absoluta. Da rejeição da instituição, passa-se insidiosamente a
rejeitar sua doutrina. Ou, pelo menos, a uma reinterpretação radical da
doutrina cristã.
Para os cátaros, a realidade se impõe:
o mundo está sofrendo, o mal é galopante e aqueles que são responsáveis pela
aplicação da doutrina do bem se comportam mal. Conclusão lógica, o Bom Deus do
evangelho não pode ter criado um mundo mau e aqueles que assim afirmam são
mentirosos. Embora influência direta do maniqueísmo e do Paulicianismo possa
ser encontra nos escritos cátaros, nem nos registros da Inquisição, a analogia,
se não o parentesco é real. (Veja o quadro). As mesmas causas levam aos mesmos
efeitos, sem dúvida, devemos nos contentar em explicar esta analogia por uma
mesma reação de rejeição da instituição eclesiástica em diferentes redutos de
heresia no seio da cristandade, sem que nenhuma ligação entre eles tenha sido
provada até hoje.
Para os cátaros do Languedoc, os
Tecelões do norte da França, os Patarinos da Itália e os Bogomilos dos Balcãs,
uma leitura fundamentalista do Novo Testamento levou a uma dicotomia radical
entre o reino de Deus e do Céu, perfeição absoluta, e o mundo material
terrestre, corruptível e efêmero. A origem do mal não podendo ser atribuída à
ação de um Deus sumamente bom e perfeito, ela não pode ser a obra de um
princípio do mal no contexto de um mundo inacabado até que os homens não
permitirão à luz do bem se destacar da escuridão da matéria com o
desaparecimento da mesma. E esta operação só é possível pela graça do Espírito
Santo que proporciona o consolo administrado pelos homens de bem que são os
“homens bons” e acessoriamente, as “boas mulheres” que receberam o poder de
seus pares.
Tal religião, que não se limita aos
ritos, exige a manipulação de conceitos filosóficos, principalmente platônicos,
relativamente complexos. Ela repousa, portanto, em uma casta elitista de
“perfeitos”. Por isso, segundo relatam que os registros da Inquisição, o
Catarismo nunca foi uma religião popular. “Aparecem apenas os comerciantes,
advogados e notários, aos quais se juntam muitos pequenos nobres, habitantes
das cidades, assim como vilas e castelos. (…) sua natureza elitista, a torna
uma religião minoritária, afetando no máximo 2 e 5% da população do Languedoc.
Essa fraqueza numérica e sua falta de caráter popular favorecem seu
desaparecimento rápido, quando a repressão se abate sobre ela, assumindo duas
formas sucessivas: a cruzada e a Inquisição”, escreve o historiador Jean-Louis
Biget (2).
Retorno
do reprimido
No entanto, se a heresia dos cátaros foi
erradicada como tal, ela conheceu um destino extraordinário na forma como as
ideologias e as filosofias mais contraditórias foram utilizadas para inventar
uma genealogia. Se a heresia albigense reaparece ao longo dos séculos entre
vários autores como Bossuet, para a refutar mais uma vez, é no século XIX, que
ela faz seu grande retorno, com a invenção do catarismo e de seu simbolismo
carregado de romantismo, de anticlericalismo e de esoterismo. Em 1994, uma
conferência organizada pelo Centro de Estudos Cátaros (3) analisou finamente os
diferentes componentes do edifício imaginário cátaro, que, dos protestantes aos
maçons, passando pelo nazismo, os neo-Templários e os antropósofos reintegram
espetacularmente o retorno da perseguição reprimida na fantasia de uma pureza
cristã com aura de prestígio de sua vitimização. É compreensível, já que todos
os perseguidos, todos os párias – e procurando bem, que não os tenham entre
seus ancestrais ou parentes – têm procurado justificar a sua legitimidade
moderna através do doloroso passado cátaro. Começando com os protestantes cuja
atitude em relação aos cátaros era inicialmente de desprezo, em seguida, em um
movimento confundindo esses últimos com os valdenses, acaba por criar
antepassados putativos. É assim ao teólogo protestante alsaciano Charles
Schmidt (1812-1895) que devemos a “ressurreição” do termo cátaro em uma
“História e doutrina da seita dos cátaros ou albigenses”, publicada em 1849. Em
seguida, foi a vez do pastor de Ariége, Napoléon Peyrat (1809-1881) publicar em
1872 uma “História dos Albigenses” em cinco volumes. É a Peyrat que devemos a
ressurreição do mito romântico dos cátaros inocentes, “protestantes da Idade
média”, Camisards huguenotes precoces, perseguidos pelos povos do Norte, pela
igreja, os reis, o Papa … em suma, tudo por que, e em nome de quem a igreja de
Ariége – que talvez se tenha involuntariamente tornado protestante –
desculpou-se em 16 de outubro. Pagando passagem à “doutrina” cátara das origens
indianas e Alexandrinas, foi ele que reativou a memória de Monsieur, centro,
literalmente, bem como figurativamente, da tragédia dos cátaros que viu em
1244, após o sítio do castelo, o sacrifício de duzentos e vinte perfeitos que
se recusaram a renunciar à sua doutrina e foram queimados vivos em um pasto. É
também um protestante, americano desta vez, o Quaker Henry Charles Lea, que
publica em 1900 uma história da Inquisição na Idade Média. O livro, traduzido
pelo arqueólogo e antropólogo Solomon Reich, faz dos cátaros um tipo de
livre-pensador antecipado, apóstolos da tolerância. Daí a assunção do
catarismo, nestes anos de republicanismo de luta, pelos círculos anticlericais,
mas também pela corrente esotérica neo-Templária e Rosacruciana.
Cátaros,
Templários, Maçons na trilha do Santo Graal
Foi Eugene Aroux (1795-1859) um
literato italiano pouco focado na fantasia histórica, que lançou a primeira
ideia de uma relação entre cátaros e templários. Apaixonado pela obra de Dante
Alighieri, ele publicou em 1856, um livreto sobre a “Divina Comédia”, intitulado
“A chave da comédia anticatólica de Dante Alighieri, pastor da Igreja Albigense
na cidade de Florença, afiliado à ordem do Templo, dando a explicação da
linguagem simbólica dos fiéis do amor em composições líricas, romances e épicos
de cavalaria dos trovadores “. Os devaneios de Aroux não se contentam apenas em
transformar os piedosos e castos Homens Bons em trovadores, cantores do amor
cortês. Eles também estão com os Templários, um dos elos que levam a Maçonaria.
Em resumo, os cátaros eram iniciados que tendo herdado os antigos mistérios do
Egito através dos gnósticos, preservaram o Santo Graal em grande segredo. Eles
os remetem aos Templários que teriam se apossado dele antes de fugir em Aragão,
depois para a Escócia, onde fundaram a maçonaria. Você sorri? Mas muitos são os
que acreditaram e alguns ainda acreditam nessa fábula. Entre outras bobagens,
Eugene Aroux imaginou que existia dentro da Ordem dos Templários, uma sociedade
secreta chamada o Massénie do Santo Graal que teria criado a Maçonaria. Naturalmente,
alguns maçons, já convencido da existência real do Templo de Salomão e da
verdade histórica da lenda de Hiram se precipitaram com entusiasmo neste
turbilhão esotérico obscuro. “Com cerca de 26 anos, ingressei na Maçonaria.
Encontrei com ela o caminho das catedrais (…) E agora o caminho das Catedrais,
das igrejas românicas ficou claro para mim, límpido, assim como os romances do
Graal. Mas foi o catarismo que me atraiu mais profundamente. Eu fui a
Peyrepertuse, e também a outros lugares. Na Capela do Graal, eu chorei. E
quando saí do país cátaro, eu ainda chorava … Eu encontrei um gato psíquico, um
mestre do amor … “(4) confiei em um ” iniciado” membro de uma massénie do Santo
Graal moderna fundada em 1973.
Foi o suficiente para atrair alguns
espíritos mais ávidos por fantasias medievais, bem como de ciências ocultas.
Joséphin Péladan foi um deles. Envergando o título Oriental místico de Sar
Mérodack, este crítico de arte e escritor simbolista decadente fundo em 1891 a
Ordem da Rosa-Cruz Católica do Templo e do Graal. Enquanto os republicanos
anticlericais viam nos cátaros os precursores do livre pensamento, ou do
espírito do Iluminismo, Péladan, ao contrário, se inspira no catarismo
assumindo como missão “desintoxicar a França do seu materialismo”. Próximo do
ocultista e fundador da ordem Martinista, o lionês Gerard Encuase, dito Papus,
Péladan é também um admirador fanático de Wagner. Que relação com os cátaros?
Parsifal, é claro. A famosa ópera criada por Wagner em 1882 foi inspirada no
épico medieval Parzival de Wolfram von Eschenbach e Perceval ou o Conde do
Graal de Chrétien de Troyes. Seu libreto começa com esta frase: “No céu há um
castelo e seu nome é Monsalvat. “Droga, mas … é claro! ” deduz imediatamente
Péladan: “A ficção e história, a este respeito, respondem com um paralelismo
singular: os Templários não realizam a ordem do Graal, e Monsalvat não era um
nome real, Montsegur? ” escreveu ele em 1906 em um panfleto intitulado “O
segredo dos trovadores, de Parsifal a Dom Quixote”.
O mito do Graal associado a Montsegur
não cessou, portanto, de ser explorado por uma corrente neorromântica esotérica
e Occitanista alimentada por tudo o que a terra tem de néo-gnósticos,
Martinistas, Rosacruzes, ganhos, por vezes, pela maçonaria como Déodat de Roché
(1877-1878)
Ocultismo
cátaro: Déodat Roché e Antonin Gadal
Déodat Roché, próximo do ocultista
Papus foi em sua juventude discípulo de Jules Doinel (1842-1902), martinista,
espiritualista, teósofo, maçom do Grande Oriente de França (GODF) e primeiro
bispo da Igreja Gnóstica sob o nome de Valentin II. Arquivista em Carcassonne,
Doinel fará de Déodat Roché o “bispo gnóstico” de Carcassonne e o fez entrar na
Maçonaria na Loja do GODF Les vrais amis réunis de Carcassonne, à qual ele
permaneceu fiel até o fim de sua vida, surpreendentemente longa para um
seguidor da ideia de que o corpo não passa da prisão da alma… Se Déodat Roché
era maçom e se considerava cátaro, ele foi principalmente capturado pela
Antroposofia de Rudolf Steiner, que lhe serviu de prisma para interpretar o
significado do catarismo, assim como o da Maçonaria. Na década de 30, a outra
figura no Languedoc do ocultismo catarisante foi Antonin Gadal (1877-1962). Um
nativo de Tarascon-sur-Ariège, este professor tornou-se guia do sindicato da
iniciativa de Ussat-les-Bains, fora discípulo de Adolf Garrigoux, pequeno
notável local, antigo carbonário, adepto de esoterismo e arqueologia,
convencido de que as sociedades de “carbonários” tinham mantido a conexão com o
“puro catarismo” através dos lesfaiditas, estes cavaleiros do languedoc
despojados de seus bens durante as cruzadas e vivendo na clandestinidade.
Convencidos de que as cavernas da região, refúgio dos últimos cátaros, tinham
preservado o traço “psíquico”. Gadal afirmava que seu mentor tinha recebido em
1822 a transmissão da “Força do verdadeiro cristianismo da Igreja Cátara” nas
enormes grutas de Lombrives. Gadal foi membro tardio dos Rosacruzes de Ouro e
se considerava a reencarnação do cavaleiro Galaad, de modo que ele esteve na
origem do “Monumento a Galaad” de Ussat em torno do qual, a cada cinco anos, os
Rosacruzes de todo o mundo vêm se recolher antes de excursionar pelos Pirineus
em busca de vestígios da “Tríplice aliança da Luz”.
Hitler,
um cátaro?
Estas maravilhas nascidas de uma
imaginação tão fértil quanto confusa experimentaram nos anos 30 um desenvolvimento
inesperado quando Gadal encontrou o iluminado romântico e futuro SS alemão Otto
Rahn (1904-1939), que se estabeleceu em 1934 no Hotel des Marronniers de
Ussat-les-Bains. Rahn tinha acabado de publicar seu primeiro romance “Cruzada
contra o Graal” em que ele tomou e desenvolveu as elucubrações de Péladan sobre
a identificação de Montsegur com Montsalvage. Então, sob a influência de Gadal
e suas teorias esotérico-gnósticas, ele publicou um segundo romance, “A Corte
de Lúcifer”, no qual ele sustentava a tese de que os cátaros eram os herdeiros
de um paganismo ariano iniciático estranho à tradição judia do Antigo
Testamento. “Moisés é que era imperfeito e impuro (…) Nós, os ocidentais de
sangue nórdico nos chamamos cátaros, como os orientais de sangue nórdico se
chamavam “Parsis”, os puros (…) nosso céu só apela àqueles que não são
criaturas de raça inferior, bastardos ou escravos (…) ” o livro foi muito
apreciado por nazistas que não sabiam como agir para libertar a Alemanha de
suas raízes judaico-cristãs, enquanto permanecia cristã. Himmler, que protegia
vagamente Otto Rahn, ofereceu o livro a Hitler com dedicatória do autor, por
seu aniversário em 1937. Rahn, em seguida, entrou para a SS para continuar suas
pesquisas sobre o Graal e o catarismo no seio da Ahnenerbe – Instituto de
pesquisa e ensino sobre o patrimônio dos antepassados. Após um estágio no campo
de Dachau para completar a sua formação militar, ele foi expulso do exército
por homossexualidade, e de acordo com o escritor Christian Bernadac, devido à
sua origem judaica. Seu corpo foi encontrado congelado em uma montanha em 1939.
Isso fez com que se dissesse ter ele sofrido a endura, a morte voluntária que
era necessário para o cátaro perfeito para sair deste mundo iníquo.
Pretendeu-se também, e alguns ainda afirmam que em 1944, durante os
setecentésimo aniversário da queima de Montsegur, um avião alemão havia traçado
com fumaça uma cruz celta segundo alguns, uma suástica segundo outros, no céu
de Montsegur. Conta-se ainda aos turistas que a SS realizou escavações
misteriosas ao pé da fortaleza…
Este inventário de extravagâncias
cataristas seria incompleta sem a Sociedade de Polares a que pertencia o
conhecido poeta da occitânia, teósofo e viciado em ópio, Maurice Magre, co-fundador da Sociedade dos Amigos de “Montségur e
do Santo Graal”. Em 1937, os Polares empreenderam escavações para tentar
encontrar o “tesouro dos cátaros” ao pé da fortaleza de Montsegur. O
orientalista Jean Marquès-Rivière, budista, maçom renegado, antissemita e
nazista participou da aventura.
A cada ano, no dia do solstício de
verão, uma tropa de mais ou menos calmos iluminados e outros adeptos das
ciências ocultas sobem até as ruínas de Montsegur para participar do nascer do
sol, em que a luz penetra no recinto, de uma abertura à outra. “Prova”,
garantem alguns, de que a fortaleza foi um templo solar cátaro! O único pequeno
problema é que as ruínas atuais são bem posteriores ao castelo cátaro que foi
completamente destruído em 1244. Quanto aos outros “castelos cátaros” nada em
sua arquitetura permite distingui-los dos “castelos católicos” da região.
Em uma boa lógica comercial, dada a
ampla gama de pessoas interessadas em tal abundância de mistérios, o “País
cátaro” é desde 1991 uma marca registrada, propriedade do Conselho do
Departamento do Aude. É por isso que hoje encontramos os embutidos cátaros, mel
cátaro, camisas cátaras, cestas cátaras e, o Languedoc agradece, vinho cátaro.
“(…) há um desejo de turistas de crer, de ouvir uma história. Na verdade, os
turistas, por seu interesse pelo catarismo, não aproveitam as férias, para
recusar e desafiar a ordem da sua própria sociedade? “. Assim conclui o
relatório da conferência de 1994 (5) dedicada ao imaginário catarófilo. Não se
podia dizer melhor.
Maniqueístas
e Paulicianos, os ancestrais dos cátaros?
Se uma afiliação orgânica entre o
maniqueísmo e o catarismo ainda está por ser demonstrada, é certo que as
analogias entre essas duas correntes religiosas são numerosas. Mani, que deu
seu nome ao maniqueísmo era um príncipe persa que viveu no século III d.C. Sua
doutrina combina elementos cristãos, zoroastristas, elcasaitas – judeus
cristianizados – e budistas. Para o maniqueísmo, o mundo consiste de dois
princípios opostos: luz e escuridão, um conceito que também inclui a noção do
bem e do mal, da vida e da morte, da alma e a matéria, e duas entidades
divinas, uma absolutamente boa, a outra completamente má. Estes princípios
misturando-se para dar o mundo e o homem, e cabe aos maniqueístas separar
novamente para liberar a luz ao final de várias reencarnações e abstendo-se,
para alguns “eleitos” de praticar o do ato da carne.
O Paulicianismo, nascido após a perseguição contra o maniqueísmo, se
espalhou no século VII, pela Armênia e Grécia. A doutrina, que retoma o
dualismo maniqueísta, tira o nome da importância que atribui aos escritos de
São Paulo. Os Paulicianos rejeitavam o clero, a cruz, os santos, a Eucaristia,
os sacramentos, o casamento e a cerimônia das igrejas gregas e romanas. Eles
defendiam uma leitura pessoal das escrituras, a meditação e a oração. No século
XI, os seguidores de Paulo constituíram um estado militar que enfrenta o
Império Bizantino em aliança com os muçulmanos a partir do território da
Turquia moderna. Finalmente derrotados em 878, os seguidores de Paulo teriam,
então, se espalhado por todo os Balcãs, onde se tornariam a Bogomilos, e talvez
pela Europa Ocidental e Itália, onde estariam na origem do catarismo.
Cruzada
contra os cátaros: também no norte da França
O catarismo não foi, de modo algum, um
fenômeno estritamente do Languedoc. No século XI, a mesma heresia, com pequenas
variações, é encontrada na Lombardia, e, Flandres, no Vale do Reno e na parte
norte da França, onde foi perseguida tanto quanto no Sul, conforme mostra a
ação de Robert, o Bugre. Bugre significando na época Búlgaro, por analogia com
o Bogomilos. Este cátaro milanês renegado foi nomeado inquisidor para a
Borgonha por Gregório IX, em 1233. El se distinguiu pela crueldade de seu zelo
que o fez se opor ao arcebispo de Sens depois de ter queimado cinquenta hereges
em Charite-sur-Loire. Tornou-se inquisidor geral do reino da França em 1234.
Ele queimou hereges em Chalons-en-Champagne, Cambrai, Peronne, Douai, Lille e,
especialmente, Provins onde mandou para a fogueira 187 pessoas em 1239. A
brutalidade do personagem era tal que levou a igreja a amolecer e regulamentar
os procedimentos inquisitoriais em Languedoc.
Publicado em 22 de novembro de 2016
– http://www.fm-mag.fr/article/societe/des-cathares-au-saint-graal-1374
2016/10/25
Fraternidade
Apesar
de toda a fraternidade que existe na Maçonaria, os primeiros tempos de vida de
um maçom podem parecer-lhe estranhos porque terá de se relacionar com gente que,
no mundo profano, talvez evitasse. Se tal coisa acontecer ainda bem, pois assim
é possível um entendimento que de outra maneira não seria viável: como irmãos serão
levados a confraternizar, logo, a construir convergências, a adoptar
compromissos, a exercitar a Tolerância. E relacionando-se, conhecer-se-ão
melhor desfazendo preconceitos. Ou talvez não, talvez a má impressão e opinião negativa
sobre aquele irmão se mantenha. Afinal de contas os maçons são pessoas como as
outras, e não são perfeitos; a forma como combatem as suas
paixões e evitam os seus vícios é que os diferencia das outras pessoas.
2016/10/23
Reflexões de um aprendiz do Mundo
Reflexões de um aprendiz do
Mundo
Definir o que é a Maçonaria não
é fácil, para além daquelas definições que encontramos nos nossos catecismos e
manuais. A razão para essa dificuldade reside no facto da Maçonaria não
ser isto ou aquilo. A Maçonaria sente-se e vive-se, não se reduz a
interpretações textuais (logo, sínteses superficiais que não revelam mais do
que a forma sem tocar no conteúdo). Assim é a natureza da Maçonaria porque
é sentida e vivida de forma diferente por cada Obr.˙. da Arte Real. Ora,
descrever sentimentos e experiências pessoais é algo que depende do ponto de
vista individual e da sensibilidade de cada um.
No entanto podemos dizer que
a Maçonaria, para além daquelas concepções que já temos como adquiridas, é
o caminho do equilíbrio entre a ciência e a espiritualidade, é um método de
compreender a harmonia de todas as coisas na busca pela Verdade, e é
também a práctica do Amor Universal. É, pois, muito mais do que a evocação
exaustiva do Lema (Justiça, Verdade, Honra, Progresso) e
da Divisa da Ord:. (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) que integra
profusamente a práctica ritual - porventura numa evocação bastamente mecanizada
e de sentido embotado pela repetição mas que em outros momentos devem ser
interiorizados como valores, regras de capital importância para a vivência do
quotidiano.
Que a mesma palavra pode ter
valores e poderes diferentes consoante o momento e o contexto em que as
aplicamos, isso já aprendemos; afinal de contas elas também transportam e
potenciam energias fundamentais, assim como o silêncio e a meditação. Descobri
que, quando realizamos a Cadeia de União, ao fechar os olhos me é mais fácil
canalizar o meu pensamento e, espero, a inestimável energia espiritual, em
benefício das pessoas que conheço - que vou fazendo desfilar na minha mente
como se fosse uma fita de cinema. Talvez sem tanto sucesso, mas também vou
tentando sentir a energia dos demais IIr:. em cadeia, canalizando-a para a
mesma finalidade.
Eis o terreno virgem a
explorar, a caminhada a percorrer por cada um de nós nesta fraternidade que dá
pelo nome de Maçonaria, onde não existem gurus nem líderes
infalíveis, pois não defendemos nenhum dogma religioso, nenhuma apostilha
indefectível, nenhum modelo de realidade singular. Para o Maç.˙. o
Mestre está dentro de si mesmo, e é seu dever procurar encontrá-lo.
Não buscamos o reconhecimento
e a fama entre os seres nossos iguais. Após décadas de estudo, práticas, erros
e acertos aprendemos e aceitamos ser indivíduos anónimos, sendo cada um de nós
apenas mais um na multidão, sem reconhecimento ou distinção especial e sem
nenhum engrandecimento social resultante dessa condição de ser Maç.˙..
A educação e instrução
tradicionais não nos preparam para aceitar o facto de que quando um indivíduo
se eleva, a sociedade humana, como um todo, também se eleva concomitantemente.
Então, todo esse trabalho individual representa na verdade uma caminhada
colectiva. A cada ser humano que tivermos o privilégio de tirar das trevas da
ignorância, mais Luz é derramada sobre toda a realidade mundana.
Para muitos a Luz e o
conhecimento significam independência, e esta independência é intolerável para
os que acreditam ser superiores aos outros. Por esse motivo a Maçonaria continua
a ser olhada com desconfiança e a ser desconsiderada, até atacada. Cada passo
que damos na direcção da Verdade e do conhecimento, congrega mais inimigos
contra nós. É, pois, uma caminhada de coragem e determinação.
Cada um de nós tem o poder de
transformar a sua própria vida e a vida dos que nos estão próximos, com os
nossos actos e exemplos. Afinal de contas de nada adiantaria que uma
fraternidade orientada por tão altas aspirações nos oferecesse tais
conhecimentos e práticas visando o equilíbrio espiritual, se não colocássemos
tudo isso em prática. Portanto, a Maçonaria exige de cada um dos
seus OObr .˙. mais do que estudo e dedicação, exige que pratiquemos
aquilo que aprendemos.
Se um pedinte nos pede
dinheiro, como MMaç.˙., temos a obrigação moral e espiritual de atender a
esse pedido de esmola. Não sabemos se aquela moeda irá contribuir para aliviar
um estômago vazio ou evitar que uma criança caia na perversidade por falta de
escolha. A beneficência é uma obrigação irredutível do Maç.˙.
Também os instrutores ou
guias devem ter humildade e equilíbrio, caso contrário estão a ser desleais
consigo e com os princípios que defendem. “Pobre daquele que se julga mestre e
pensa ter sobre si a responsabilidade espiritual dos actos de todos aqueles que
considera discípulos” O verdadeiro Mestre, está dentro de cada um de nós.
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
Reflexões de um aprendiz do Mundo
Reflexões de um aprendiz do
Mundo
Definir o que é a Maçonaria não
é fácil, para além daquelas definições que encontramos nos nossos catecismos e
manuais. A razão para essa dificuldade reside no facto da Maçonaria não
ser isto ou aquilo. A Maçonaria sente-se e vive-se, não se reduz a
interpretações textuais (logo, sínteses superficiais que não revelam mais do
que a forma sem tocar no conteúdo). Assim é a natureza da Maçonaria porque
é sentida e vivida de forma diferente por cada Obr.˙. da Arte Real. Ora,
descrever sentimentos e experiências pessoais é algo que depende do ponto de
vista individual e da sensibilidade de cada um.
No entanto podemos dizer que
a Maçonaria, para além daquelas concepções que já temos como adquiridas, é
o caminho do equilíbrio entre a ciência e a espiritualidade, é um método de
compreender a harmonia de todas as coisas na busca pela Verdade, e é
também a práctica do Amor Universal. É, pois, muito mais do que a evocação
exaustiva do Lema (Justiça, Verdade, Honra, Progresso) e
da Divisa da Ord:. (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) que integra
profusamente a práctica ritual - porventura numa evocação bastamente mecanizada
e de sentido embotado pela repetição mas que em outros momentos devem ser
interiorizados como valores, regras de capital importância para a vivência do
quotidiano.
Que a mesma palavra pode ter
valores e poderes diferentes consoante o momento e o contexto em que as
aplicamos, isso já aprendemos; afinal de contas elas também transportam e
potenciam energias fundamentais, assim como o silêncio e a meditação. Descobri
que, quando realizamos a Cadeia de União, ao fechar os olhos me é mais fácil
canalizar o meu pensamento e, espero, a inestimável energia espiritual, em
benefício das pessoas que conheço - que vou fazendo desfilar na minha mente
como se fosse uma fita de cinema. Talvez sem tanto sucesso, mas também vou
tentando sentir a energia dos demais IIr:. em cadeia, canalizando-a para a
mesma finalidade.
Eis o terreno virgem a
explorar, a caminhada a percorrer por cada um de nós nesta fraternidade que dá
pelo nome de Maçonaria, onde não existem gurus nem líderes
infalíveis, pois não defendemos nenhum dogma religioso, nenhuma apostilha
indefectível, nenhum modelo de realidade singular. Para o Maç.˙. o
Mestre está dentro de si mesmo, e é seu dever procurar encontrá-lo.
Não buscamos o reconhecimento
e a fama entre os seres nossos iguais. Após décadas de estudo, práticas, erros
e acertos aprendemos e aceitamos ser indivíduos anónimos, sendo cada um de nós
apenas mais um na multidão, sem reconhecimento ou distinção especial e sem
nenhum engrandecimento social resultante dessa condição de ser Maç.˙..
A educação e instrução
tradicionais não nos preparam para aceitar o facto de que quando um indivíduo
se eleva, a sociedade humana, como um todo, também se eleva concomitantemente.
Então, todo esse trabalho individual representa na verdade uma caminhada
colectiva. A cada ser humano que tivermos o privilégio de tirar das trevas da
ignorância, mais Luz é derramada sobre toda a realidade mundana.
Para muitos a Luz e o
conhecimento significam independência, e esta independência é intolerável para
os que acreditam ser superiores aos outros. Por esse motivo a Maçonaria continua
a ser olhada com desconfiança e a ser desconsiderada, até atacada. Cada passo
que damos na direcção da Verdade e do conhecimento, congrega mais inimigos
contra nós. É, pois, uma caminhada de coragem e determinação.
Cada um de nós tem o poder de
transformar a sua própria vida e a vida dos que nos estão próximos, com os
nossos actos e exemplos. Afinal de contas de nada adiantaria que uma
fraternidade orientada por tão altas aspirações nos oferecesse tais
conhecimentos e práticas visando o equilíbrio espiritual, se não colocássemos
tudo isso em prática. Portanto, a Maçonaria exige de cada um dos
seus OObr .˙. mais do que estudo e dedicação, exige que pratiquemos
aquilo que aprendemos.
Se um pedinte nos pede
dinheiro, como MMaç.˙., temos a obrigação moral e espiritual de atender a
esse pedido de esmola. Não sabemos se aquela moeda irá contribuir para aliviar
um estômago vazio ou evitar que uma criança caia na perversidade por falta de
escolha. A beneficência é uma obrigação irredutível do Maç.˙.
Também os instrutores ou
guias devem ter humildade e equilíbrio, caso contrário estão a ser desleais
consigo e com os princípios que defendem. “Pobre daquele que se julga mestre e
pensa ter sobre si a responsabilidade espiritual dos actos de todos aqueles que
considera discípulos” O verdadeiro Mestre, está dentro de cada um de nós.
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
O juiz mais rigoroso e mais exigente deve ser a nossa própria consciência. Se não somos capazes de cumprir um juramento feito a nós próprios, como podemos esperar cumprir os juramentos feitos nas cerimónias solenes e perante os nossos IIr.˙.?
Liberdade
O meu conceito de
Liberdade
Entendo que a Liberdade é o desejo
inato do ser humano em se tornar integralmente livre. Por isso a verdadeira
Liberdade não é apenas a liberdade física e política, mas também a liberdade de
pensamento. Só nesse estado o homem pode dar asas a todas as suas
potencialidades.
Porém, sendo algo tão grandioso e
completo, a Liberdade também assume significado diferente perante situações e
culturas diferentes.
Sob o jugo de uma ditadura o conceito
de liberdade poderá ser diferente dependendo de quem a avalia ou deseja: um
oprimido que nunca a experimentou ou um oprimido que a perdeu terão dela a
mesma perspectiva? Por outro lado, será livre aquele que não sofre expressa
coacção física, política ou mental mas que vive na insegurança de uma situação
de desemprego permanente?
Sei que para muitos a Liberdade não
pode ser uma figura de retórica mas um estado no qual o Homem, mesmo
amordaçado, permanece fiel áquilo em que acredita de forma integral, física,
moral, cultural e espiritual. Mas também sei que existem outros que consideram
viver em liberdade mesmo dando a terceiros o poder de decidir tudo em seu
lugar, aceitando, até, viver sob o jugo de pesadas regras e restrições,
preferindo viver nessa “segurança protectora” de um encarceramento relativo.
Daqui decorre a noção de que a liberdade não é mensurável pela austeridade ou
permissividade das regras, mas sim em função dos seus objectivos e da forma
como é sentida pelo indivíduo.
Uma coisa parece certa: para se ser
efectivamente livre é preciso que o Homem queira ser livre e que só em função
desse querer se liberte efectivamente das amarras da servidão, seja física,
política, religiosa, cultural, ou da sua própria consciência.
E chegamos a uma ideia de Liberdade que
trás implicada a ideia de Razão, esse juiz supremo dos nossos actos e ideias. A
ideia de julgar implica, inevitavelmente, a existência de regras e de limites.
E tal asserção conduz-nos agora à perspectiva maçónica: Para nós, maçons, o
conceito de Liberdade envolve a ideia de uma liberdade interior apenas limitada
pelo próprio indivíduo, e em que a limitação não depende de quaisquer
circunstâncias mas somente das qualidades éticas e morais do indivíduo.
A Liberdade maçônica – que não deveria
ser diferente da Liberdade em sentido genérico -, reside portanto no pensamento
pois é através do processo cognitivo que qualquer indivíduo se torna
absolutamente livre.
É pelo pensamento que a Maçonaria
liberta o homem para sua função de edificador da sociedade. Nenhum tirano
consegue censurar o que se passa na mente do indivíduo. Apenas o próprio pode
aprisionar-se ou libertar-se no íntimo dos seus processos mentais; libertar-se
implica trabalhar a pedra bruta; i. e. procurar e alcançar o autoconhecimento.
É esse esforço individual que conduz à
liberdade efectiva do indivíduo. Eis a mecânica libertadora que a Maçonaria
realiza, contribuindo com a metodologia, o local e as ferramentas; e o obreiro
com a sua alma, o coração, a mente, e o seu querer.
E, finalmente, para além de tudo o que
já falei atrás, qual é então o meu conceito de Liberdade?
Sou livre? Sinto-me livre? Sim e não!
Sim, no que concerne à consciência que
tenho acerca do exercício do meu livre arbítrio; não, pois entendo que a
Liberdade também implica Independência e esta não a consigo alcançar nesta
sociedade em que tudo tem um elevado valor monetário e em que eu estou limitado
no que toca a esse, erradamente híper exaltado, recurso financeiro.
Livre, mas não convencido, disse!
H.
O Marquês e os Jesuítas
O
Marquês e os Jesuítas
Passou
há pouco tempo na RTP Memória a série “O Processo dos Távoras”, em que o
ministro de D. José, Sebastião de Carvalho e Melo (Conde de Oeiras e futuro
Marquês de Pombal), é apresentado como um político injusto, um funcionário
prepotente animado de sanha persecutória contra nobres e religiosos. E a série
retrata a sua actuação contra os opositores, nomeadamente contra aqueles
que são apresentados como os seus maiores adversários: A ordem jesuíta.
Ora,
para além da nobreza caduca, refém do seu atavismo secular e da estagnação que
representa, os jesuítas constituem o outro pólo desse imobilismo que resiste às
reformas encetadas por Pombal na implementação de um singular modelo político
de Despotismo Esclarecido que constituiu o seu consulado.
Sobre
os jesuítas convém relembrar que embora esses homens cultos tenham desempenhado
um papel importante na difusão da cultura e da ciência (no início do século
XVII acompanharam alguns dos progressos astronómicos de Galileu e chegaram a apoiar
e complementar as suas descobertas), em meados do século XVIII recuaram a uma
cultura do passado distante, opondo-se às extraordinárias descobertas da última
centúria. Tanto assim foi que, em 1746, o padre jesuíta José Veloso, reitor em
Coimbra, proibiu o estudo de Descartes, Gassendi e Newton, entre outros, assim
como «quaisquer conclusõis oppostas ao
sistema de Aristoteles».
A
Companhia de Jesus tinha passado à posição de obstrução do progresso científico
mas a sociedade tinha-se transformado radicalmente, e o conflito explodiu em
1759, com a expulsão dos jesuítas de todo o território português.
Independentemente
de outras razões, mais triviais, moverem o 1º Ministro de D. José – interesses
comerciais familiares no Brasil, eventualmente causticados pelos jesuítas-, o
facto é que Sebastião de Carvalho e Melo, talvez doutrinado na dinâmica e na
política inglesa, que admirava, protagonizou o corte com a inércia da
fidalguia que não preconizava nem deixava florescer progressos idênticos ao que
outras nações registavam.
Os
jesuítas nunca foram esses destacados portadores dos ideais
humanistas, que alguns lhes atribuem. Uma abordagem antropológica à missionação
jesuíta no Brasil também é, disso, estudo bem revelador.
Com todos os erros que terá cometido no desempenho das suas funções, acrescentados pelas suas fraquezas e defeitos como pessoa, ainda assim Pombal reunirá um crédito de protagonismo benéfico para o Portugal dessa época, que os feitos da Companhia de Jesus e da nobreza coeva não terão logrado, sequer, imitar.
H.
Da Beleza
DA BELEZA
A Beleza
nunca foi algo de absoluto e imutável, pelo contrário assumiu formas diferentes
segundo a cultura de cada período histórico e de cada região, quer na
apreciação do homem ou da mulher quer na dos objectos, dos animais e das
paisagens, ou mesmo a beleza das ideias e, até, da divindade.
Por vezes,
num mesmo tempo histórico a beleza é abordada de forma muito diferente
consoante é retratada pelos pintores e escultores ou pelos escritores. Basta
pensar como um ser alienígena interpretaria a noção de beleza feminina se
deparasse simultaneamente com uma pintura de Almada Negreiros e uma descrição
literária de Camilo Castelo Branco, ainda que estes autores não tenham
coexistido no tempo (Camilo morreu em 1890, Negreiros nasceu 3 anos depois).
Do Almada
refiro-me a uma daquelas mulheres matronas, cubistas e debruçadas sobre si,
contendo o mundo em si. Do Camilo, a pormenorizada descrição de uma Isaura que,
cito: «… não é alta. Pertence àquela
estatura que chamam mediana, a mais regular, a menos defeituosa, (…) [os
cabelos] Negros e luzentes, levemente ondeados, nus de enfeites e ataviados com
comodidade, e gentileza. Duas grandes tranças lhos dividiam, para se
entrançarem de novo, presas em duas grossas roscas por travessas. Quando as
soltava, as duas serpentes ondeavam-lhe por sobre as espáduas até à cinta. (…)
[as sobrancelhas] irrepreensivelmente curvas, dividem-se por uma incisão quase
imperceptível: longas, negras, e bastas. As pestanas, se ela descai as
pálpebras naquele pendor da meiguice natural, quase lhe quebram a luz dos
olhos, alindando-os, se é possível, ainda mais. (…) [os olhos] Meigos e
vertiginosos. Reflectem a luz frouxa das paixões suaves, e as labaredas
cintilantes das paixões escandecidas.».
Ora, na
sociedade ocidental é o ideal masculino que pontifica, um ideal preso ao
instinto sexual que explica e justifica o apreço pelos traseiros femininos proeminentes,
com reservas de gordura para a gestação, os quadris largos que facilitam o
parto, e os seios fartos para amamentar. E contra isto pouco pode a moda,
contra essa memória táctil dos homens que por muito que apreciem uma mulher
linda e magra jamais esquecerão a diferença entre estreitar nos seus braços uma
cintura feminina que deixa revelar os ossos ou uma cintura substancial, bem
mais voluptuosa.
As
sociedades modernas ocidentais estabelecem ainda uma relação entre beleza
física, inteligência e poder económico, ou seja, cultiva-se a crença de que uma
pessoa bonita tem mais capacidades e mais sucesso. Dos feios considera-se
sempre que são pobres, rudes, e falhos de êxito. Tal preconceito ainda amplia mais
as dificuldades de ascensão social dessas pessoas; o poeta Vinicius de Morais já
tinha escrito a respeito das mulheres: «as muito feias que me perdoem, mas
beleza é fundamental.».
As
preocupações com o Belo já vêm de longe. Platão terá sido um dos primeiros
pensadores a formular a pergunta “O que é o Belo?”, empreendendo uma resposta
ampla e cabal em que o Belo é identificado com o Bem, a Verdade e a Perfeição.
Assim, ao
conceito de beleza atribuiu uma natureza autónoma, separada do mundo sensível,
justificando que uma coisa é mais ou menos bela dependendo da sua inscrição/participação
na ideia suprema de beleza; e criticou a arte que se limitava a copiar a
natureza ignorando a beleza que o mundo das ideias contém. Mas se Platão ligou
a arte à beleza, Aristóteles separou-a, anunciando que a arte é uma criação
especificamente humana, e que o Belo não pode ser desligado do homem pois
existe neste intrinsecamente.
Na Idade
Média o cristianismo fundou um conceito de Beleza identificando-a com Deus, o
Bem e a Verdade. E por aqui se seguirá durante séculos, numa colagem excessiva
da ética à estética. Santo Agostinho acorrentou a beleza à harmonia, evocando o
concurso da unidade, do número, da igualdade, da proporção e da ordem; reiterando
que a beleza do mundo não é mais do que o reflexo da suprema beleza de Deus. Por
sua vez, São Tomás de Aquino ligou-a ao Bem e à observância de determinadas
condições fundamentais: Integridade ou Perfeição; Proporção ou Harmonia;
Claridade ou Luminosidade; uma vez mais identificando a beleza com Deus.
Entre os
séculos XVI e XVIII as academias impõem as estéticas aristotélicas e as suas
regras visando alcançar a perfeição na arte, ainda que na segunda metade do
séc. XVIII comecem a emergir ideias que proclamam a subjectividade do Belo. É o
tempo em que as sociedades europeias atravessam grandes convulsões, com o
início da revolução industrial e as importantes alterações políticas verificadas
na América e na França. Nesta conjuntura de efervescências novas ideias
despontam e a questão do Belo é equacionada como um problema de gosto.
E neste contexto surge Immanuel Kant, o criador do pensamento
que embasa a estética contemporânea. Para este filósofo do séc. XVIII os nossos
entendimentos estéticos têm fundamentos subjectivos dado que não se podem
apoiar em conceitos pré-determinados. E assim, o critério de beleza que neles
se exprime é o do simples prazer que nos acomete. A universalidade do Belo
passa a ser subjectiva, como subjectivo é o juízo do gosto.
«Continua a ser verdade que, ao
julgar belo um objecto, consideramos que o nosso juízo deve ter um valor
universal e que todos devem (ou deveriam) partilhar o nosso julgamento. Mas
como a universalidade do juízo do gosto não requer a existência de um conceito
a que e deva adequar, a universalidade do belo é subjectiva: é uma pretensão
legítima da parte de quem exprime o julgamento, mas não pode assumir de maneira
nenhuma o valor de universalidade cognoscitiva. “Sentir” com o intelecto que a
forma de um quadro de Watteau que representa uma cena galante é rectangular ou
“sentir” com a razão que cada gentil-homem tem o dever de oferecer ajuda a uma
mulher em dificuldade não é o mesmo que “sentir” que seja belo o quadro que
está a ser examinado: de facto, neste caso, tanto o intelecto como a razão
renunciam à supremacia que respectivamente exercem no campo cognoscitivo e no
moral, e metem-se em jogo livre com a faculdade imaginativa, segundo as regras
ditadas por esta última.» ECO, Umberto – História da Beleza (p. 264)
Embora se reconheça,
então, a incapacidade da Razão em impor os seus valores sobre esta matéria tão
subjectiva que é a definição do Belo, ela (a Razão) não está afastada da
discussão; mormente pela mão daquele eminente filósofo que consegue inscrever
parcialmente essa natureza vaga nas regras da Razão.
Ainda no
século XVIII ganham força as noções de génio, gosto, imaginação e sentimento e
assiste-se à construção do conceito Sublime. Uma vez que o Belo é uma expressão
da liberdade, sentimo-nos livres na beleza porque os instintos sensíveis estão
em harmonia com a lei da razão; já o sentimento de liberdade no sublime deriva
do facto dos instintos sensíveis não terem influência sobre as leis da razão,
porque aqui é o espírito que age autonomamente. Esta aparente contradição mais
não espelha do que o dualismo da natureza humana.
Em seguida,
os românticos exploram as dualidades, nomeadamente a anterior entre Belo e
Sublime, e levam mais longe essa constatação da natureza dual, da ocorrência
dos géneros, na nossa qualificação estética do mundo: beleza e melancolia;
coração e razão; reflexão e impulso coexistem, sendo essa coexistência encarada
como natural.
O Séc. XIX
trará consigo uma autêntica religião da beleza, emoldurada pela efémera época
de ouro do Ocidente: o período vitoriano em Inglaterra, o Segundo Império em
França, o pontificado das virtudes burguesas e o despontar do capitalismo.
Neste ambiente os artistas arriscam e avançam quebrando todas as normas,
procurando o inusitado, o excêntrico, o inalcançável, ofendidos e talvez
assustados pelas máquinas que oferecem a pura funcionalidade de novos materiais.
Em parte, como reacção a essa uniformização e democratização galopantes,
artistas como Courbet, Monet, Manet, Cézanne e outros rompem com os cânones e
as convenções do academismo, anunciando a eclosão da arte moderna.
E no século
XX sucedem-se as rupturas e explode uma multiplicidade de novas manifestações
criativas. Surgem as artes decorativas, a art
naif, a arte dos povos primitivos coevos, o artesanato rural; a Fotografia,
o Cinema, o Design, a Rádio, etc.
Por outro
lado, assiste-se a uma permanente insistência desconstrutivista em relação a
todas as categorias estéticas: os conceitos e as fronteiras entre as artes são contestados;
a arte é dessacralizada e perde a sua carga mítica e iniciática, tornando-se
frequentemente um simples produto de consumo.
Neste
ambiente, as estéticas normativas concebem uma beleza fundamentada em
princípios inalteráveis, como a estética fenomenológica de Husserl; as estéticas
marxistas e neomarxistas que vincam marcadamente a sua orientação sociológica; ou
a estética informativa que procura sistematizar a avaliação da componente
inovadora presente em cada obra de arte; mas é na estética das ciências que os
ideais de beleza alcançam um discurso tanto mais revelador quanto inesperado.
Raul Penaguião, um jovem matemático português, de 18 anos, dizia em 2012: «…a Matemática aplicada não me entusiasma
muito, entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas, pelo que quero seguir
Matemática pura e investigação, e não tanto o
quanto se relaciona com a realidade, pois nesse relacionamento perde-se muito:
já dizia Albert Einstein, “Se as
leis da Matemática se referem à realidade, elas não estão correctas; e, se
estiverem correctas, não se referem à realidade”.»
Eis como
ideia do Belo se impõe de uma forma tão óbvia aos valores concretos da
realidade, reafirmando que a vida também encontra sentido numa componente subjectiva
que existe para além do universo material.
Nós, seres humanos,
temos necessidade de procurar ou criar a beleza, não só para recreação
intelectual mas sobretudo porque ela é um guia para a vida, mesmo que o seu
conceito dependa apenas de uma noção pessoal de harmonia.
H.
Fontes
consultadas:
- BOHM, Camila Camacho - UM
PESO, UMA MEDIDA - O padrão da beleza feminina apresentado por três revistas
brasileiras, Universidade Bandeirante de São Paulo
São Paulo, 2004
- ECO,
Umberto – História da Beleza, Ed. Difel, Lisboa 2005
- GUATIMOSIM,
Bárbara Maria Brandão - O BELO E O SUBLIME, Psicanálise &
Barroco em Revista v.6, n.3: 48-59, jul.2008
- LINO,
Alice de Carvalho - Considerações kantianas sobre os Gêneros -
PADÊ:estudos
em filosofia, raça, gênero e direitos humanos, UniCEUB, FACJS Vol.2,N.1/07. ISSN 1980-8887
- LINO, Alice de Carvalho – Belo e Sublime: A
Mulher e o Homem na Filosofia de Immanuel Kant – Universidade Federal de Ouro
Preto, 2008
- PENAGUIÃO,
Raul “entrevista em 2012” http://caras.sapo.pt/famosos/2012-09-09-raul-penaguiao-entusiasma-me-a-beleza-das-ideias-matematicas
- SATIE, Luis - Estética e ética em Kant - Escola Superior de Administração Fazendária,
Filosofia Unisinos, 2009
- VALENTE, Mariana – A Beleza das Ideias na
Educação Científica – Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência,
Departamento de Física, Universidade de Évora. Comunicação ao Seminário
transdisciplinar “Currículo, Didáctica e Formação de Professores”- Évora, Maio,
2014
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