2012/04/01

uma visão da maçonaria

«A Maçonaria do século XXI reconquistará e comandará poderosos foros de atuação nos segmentos políticos e administrativos das nações, iniciando em seus mistérios postulantes de ambos os sexos, sem distinção de raça, credo ou condição social, desde que preenchido o requisito fundamental de serem cidadãs e cidadãos livres e de bons costumes. Será a Maçonaria que reconheça, sob quaisquer circunstâncias, todo maçom - homem ou mulher – que haja sido regularmente iniciado ou iniciada numa Loja Maçônica, independente da Potência a que esteja subordinada.
 
A Maçonaria do presente século reconhecerá oficialmente toda e qualquer Loja Maçônica fundada por sete Mestres Maçons. Será a Maçonaria integralmente fiel aos princípios e sustentáculos básicos da fraternidade universal, da liberdade humana, da igualdade social e do direito de expressão. Em suas instruções e doutrinas, instituirá como dever de quantas e quantos integram os seus quadros um foro permanente de idéias pela paz, pela união, pela felicidade e prosperidade do gênero humano.
A Maçonaria do século XXI respeitará integralmente as leis justas dos países. Rejeitará com rigor qualquer Landmark ou Lei Maçônica que viole a Carta Magna das Nações, especialmente a igualdade de direitos e as garantias individuais, a liberdade de consciência.

A Maçonaria deste século excluirá de sua estrutura de obediência, o Landmark de No. 18, datado de 1723, incluído não se sabe por quem, igualmente aprovado não se sabe por que e por qual Assembléia, cujo texto, além de desfigurar os sustentáculos básicos da Ordem Maçônica, proíbe que mulheres sejam iniciadas nos seus quadros, passagem reconhecidamente ofensiva aos seus valores, artigo que também exclui de ingressar em seus quadros, coxos e aleijados ou quaisquer portadores de atenção especial.
Juntamente aos segmentos de elevada expressão no seio da comunidade internacional, instituições as mais avançadas do mundo, imaginadas, fundadas e implantadas por maçons, a exemplo da UNESCO, do ROTARY INTERNATIONAL, etc., que defendem a liberdade de consciência e a igualdade de direitos, a Maçonaria do século XXI entenderá que este Landmark é um anacronismo absurdo, cuja expressão contradiz flagrantemente os princípios de igualdade, liberdade e fraternidade, considerados cláusulas pétreas na estrutura da Ordem Maçônica Universal. O mencionado Landmark determina arbitrariamente de forma cruel, deselegante, anti-fraterna, quem tem e quem não tem direito à iniciação.»

texto integral aqui

Maçonaria no séc. XXI

«Há imensos paradoxos na actualidade! Um deles é a crescente “falta de tempo” que dispomos! Cada vez a esperança média de vida é maior, cada vez o progresso e o desenvolvimento tecnológico, nos “poupa” horas e horas de tarefas que antes nos absorviam e, seria portanto lógico que estivéssemos hoje mais disponíveis que os nossos antepassados, mas a verdade é que não estamos!

Um outro aspecto “profético” é a tendência cada vez maior para as mulheres se sobressaírem. (…) As mulheres da actualidade (abstraindo a parte fisiológica, o “invólucro”), nada têm a ver com a mulher da antiguidade, nem mesmo nada a ver com a do século XIX. Já não são apenas as donas de casa, as esposas submissas, as “cabeças fúteis”, as “apenas mães”. São seres maravilhosos, bem formadas, educadas, cheias de vontade de se enriquecerem espiritualmente, com carreiras de sucesso, com muito para partilhar e com um sentido estético e espiritual ímpar.

Ora o que tudo isto tem a ver com a Maçonaria? Imenso. Pois as lutas que os nossos antepassados, tenham sido eles portugueses ou de outras nacionalidades (muitos deles maçons), elaboraram no passado pela conquista de direitos humanos, pela libertação de povos, contra a opressão e tirania, pelas artes e pelas ciências... todo esse esforço não terminou. Cabe agora uma outra forma de luta, contra os males da nossa sociedade. É aqui que a Maçonaria tem um papel a desempenhar.»

Ler o texto completo aqui

2012/03/26

Universal

«A Maçonaria não é, não será, nem foi nunca regular, liberal, adogmática, operativa, especulativa, republicana, laica, monárquica, anarquista, socialista, mista, feminina, ecológica, verde ou libertária. Ela foi, e será sempre, Universal, atenta às mutações culturais, motor dos ideais vertentes sobre os valores que persegue, em cada momento histórico, em função de metas que vai atingindo e transpondo, fora de toda a estanqueidade, de todo o enquistamento que o mundo profano determina.»
Luis Conceição
M.•. M.•. (R.•. L.•. Convergência, n.º 501, a Oriente de Lisboa, G.•. O.•.. L.•..)

2012/03/05

Exercício de difusão

Uma entrevista que nunca existiu, na qual respondi a perguntas que nunca foram feitas, com respostas que nunca proferi.

P: - A maçonaria está sob os holofotes da opinião pública e não pelas melhores razões. Será a Maçonaria inocente de todas estas acusações?
R: - Efetivamente tem-se ouvido algum ruído do tipo: “A maçonaria isto; a maçonaria aquilo”, ora é bom que se compreenda, logo à partida, que a Maçonaria não é uma entidade singular mas um fenómeno plural. Existem várias ordens ou potências sem relação entre si, sem se reconhecerem sequer como organizações iguais. A única ligação possível, e efetiva, é a fraternidade universal que une todos os maçons. E esta relação acontece num plano singular/pessoal sem a intervenção de qualquer estrutura hierárquica que trace orientações ou imponha diretrizes. Até dentro de uma mesma Ordem, as lojas que a constituem possuem uma relativa autonomia não tendo que dar conta de tudo o que fazem. Por exemplo, ao decidir realizar um trabalho benemérito em favor do seu semelhante, pessoas do mundo profano que vivem uma conjuntura de provações, gente desamparada ou a braços com situações imponderáveis que lhes retiram o sustento ou empurram para uma condição de existência sub-humana, nenhuma chefia virá dizer que os proveitos terão de ser entregues ao grupo A ou B. Nesse sentido, uma ordem maçónica é mais flexível do que qualquer estrutura tradicional, seja ela política, religiosa, industrial ou militar.

P: - A maçonaria é composta pelos melhores cidadãos?
R: - A maçonaria tem nas suas fileiras alguns dos melhores mas, mais do que tentar juntar os melhores, procura alistar aqueles em quem reconhece potencial para virem a ser melhores cidadãos e melhores pessoas.
Até porque os melhores são, na maioria dos casos, cidadãos que já atingiram um pleno de experiência e de realizações, por vezes já com uma idade provecta, e que nem sempre estão animicamente disponíveis para integrar uma nova experiência tão envolvente como a maçonaria. Já os mais jovens, aqueles que possuem potencial e em que se reconhecem os atributos de pessoa de moral sólida e bons costumes, esses é que são a aposta da maçonaria. E poderão, ou não, vir a ser os melhores, mas em todo o caso virão a ser sempre melhores do que antes.

P: - E aqueles casos mediáticos, incidindo sobre suspeitas de tráfico de informação privilegiada, nomeadamente de âmbito económico, casos de apropriação indevida de património de empresas ou desvio de bens, e de que a imprensa e a blogosfera fazem eco?
R: - A maçonaria não é composta por marcianos mas por pessoas provenientes da nossa população e nesta, sabemos, existe uma percentagem relativa de pessoas com comportamentos desviantes. É, pois, natural que, à imagem da ideia errada que muitos fazem da maçonaria, por ignorância – atribuindo-lhe protagonismo em negócios e interesses obscuros -, alguns a procurem, e consigam introduzir-se nela, movidos por essas ideias e objetivos estranhos à maçonaria. Regra geral, desistem quando percebem que a instituição não serve para os seus fins; ou então são detetados e expulsos; ou não são detetados e por ali porfiam durante algum tempo.

P: - Porquê o secretismo da maçonaria?
R: - O secretismo advém da necessidade de salvaguarda, de reserva, dos rituais e dos processos de descoberta pessoal sobre as revelações acessíveis a todos aqueles que se propõem estudar os segredos iniciáticos, imbuídos do interesse de compreender o que é a condição humana e o sentido da vida: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Os ritos constituem a ligação ao passado, aos momentos primevos da decifração desses grandes mistérios e às formas ancestrais de transmissão do conhecimento. Colocar a nu estes aspectos é o mesmo que levar para a praça pública um concílio de bispos, uma reunião do Governo, ou as decisões do conselho de administração de uma grande empresa. Não é possível.

P:- Mas não é esse carácter secreto da sua existência e das suas práticas que conduz à desconfiança?
R: - Não há secretismo nas ações que relacionam a instituição com a sociedade, há descrição. O secretismo incide somente sobre o trabalho iniciático, de cariz filosófico, e na medida em que se alicerça numa busca, num estudo, numa caminhada pessoal e intima realizada por cada um dos maçons. Só as pessoas ignorantes devem desconfiança e receio àquilo que não conhecem.

P:- Numa Democracia faz sentido existirem sociedades secretas?
R:- A Democracia não é um regime consolidado: sem a participação ativa e permanente de cada cidadão, da maior parte possível da sociedade civil, e das suas instituições, livremente constituídas e exercendo livremente os seus direitos de cidadania, não é possível manter viva a Democracia. É conhecido, e recentemente verificado, que quando as situações económicas se tornam críticas, se levantam vozes clamando por revolução – mesmo em Democracia -, e também é sabido que muitas revoluções, mesmo as que terminaram em regimes ditatoriais ou totalitários, começaram evocando a libertação dos povos e a conquista de melhores condições para os cidadãos. Portanto, os velhos ideais da luta pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade mantém-se na agenda dos que por ela se bateram no passado, como aconteceu na 1ª República. Hoje, tal como então, faz sentido que existam estas instituições.

P: -Mesmo durante a 1ª República, período áureo da maçonaria em Portugal e que esta relembra constantemente, nem todo o protagonismo da maçonaria foi positivo, também houve muito desentendimento, muita luta fratricida, muita negociata na sombra, não?
R:- Nem tudo o que a maçonaria preconiza e procura influenciar se consegue realizar, sobretudo numa sociedade em convulsão. Se assim fosse já viveríamos numa sociedade mundial maçónica. Os seus detratores também têm poder, e prejudicam o saldo da ação maçónica. Por outro lado, sempre que um grupo se reúne disposto a fazer avançar as suas ideias através de algum tipo de influência no poder, logo se acercam outros elementos que parasitam esta dinâmica motivados por interesses contrários a ela. E conseguem, por vezes, ver os seus intentos realizados pois, regra geral, esses interesses são de cariz económico, pessoal e imediato.

P: - A Maçonaria Livre tem maior propensão do que a Maçonaria Regular para engajar políticos nas suas hostes?
Q: - Quanto à relação com a política atente-se no paradoxo de se partir do pressuposto de que a maçonaria livre é mais propensa à participação na vida política e, no entanto, os casos mediáticos recentes terem envolvido pessoas ligadas à maçonaria Regular, entendida como mais afastada da política. Parece-me que cai por terra a teoria da conspiração. Mas insisto, não podemos generalizar a partir de casos isolados. Faço parte da maçonaria dita livre, ou liberal, mas não me passaria pela cabeça qualificar a maçonaria Regular e todos os irmãos que a compõem, como prevaricadores, tendo como base dois episódios ocorridos na última quinzena de anos.


P: – Os maçons são acusados de se protegerem uns aos outros.
R: - Tal como os irmãos de uma família, já que o juramento e a relação que estabelecem entre si, assim constrói essa ligação de entreajuda e auxílio. Porém, não colocam acima da Lei a sua relação fraternal, iludindo a Justiça para proteger um irmão. Tal como o não devem fazer os membros de uma família. Aliás, sobre esse aspecto estou convencido que um juiz seria impelido a ser mais duro com um seu irmão maçom a quem tivesse de penalizar por um crime cometido, pois que reconheceria ali uma situação de dupla falta: contra a Lei civil e contra a lei maçónica.

P: -Também são acusados de através dessa relação fraternal conseguirem obter privilégios no acesso a um posto de trabalho, melhores remunerações, etc.
R: – Isso só pode ser falso. Se tal acontecesse não seria num país em que a cultura dominante está fortemente condicionada pela desconfiança e pela incompreensão em relação à maçonaria. Mais frequentemente acontecerá o inverso: os maçons é que terão razões para temer ser alvos de perseguição e detrimento profissional caso seja conhecida a sua filiação maçónica.


P: -Mas, e quando episodicamente se ouve falar de arranjos de negócios feitos entre maçons.
R: - E esses casos serão reais? E se são, não poderão ser legítimos e legais? Tal como se conhecem negócios semelhantes entre membros do mesmo clube de futebol, da mesma universidade, do mesmo partido político, entre profissionais do mesmo ofício, etc. 
O que é importante é denunciar os casos de violação da Lei e do funcionamento das instituições públicas. É isso que deve importar, independentemente de envolver maçons, militares, padres, gestores, políticos ou eletricistas. É uma questão de reorientar as baterias para os alvos certos.
Generalizar, estendendo à instituição o erro cometido por algum dos seus membros é que é um erro grosseiro, uma atitude de manifesta desonestidade intelectual. Se dois homens combinarem praticar uma ilegalidade e ambos pertenceram à mesma instituição de solidariedade social, vamos dizer que essa instituição é uma organização criminosa?

P: -Em toda esta desconfiança e suspeita instalada na opinião pública, não existirá um fundo de verdade? Não há fumo sem fogo, diz-se.
R: - Houve maçons condenados em tribunal, por crimes normais, mas nunca por associação criminosa ligada à instituição. Quanto à opinião pública, bem sabemos que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Muitas das revoluções registadas na história resultaram literalmente dessa falta de pão ou de outras contingências de carácter económico (razões comerciais estiveram na génese da revolução norte-americana, p. ex.). Logo, em cenários de crise económica e social, qualquer grupo ou instituição pode ser eleito como alvo dos contestatários, e apontado como responsável pela situação vivida. A maçonaria tem sido, ao longo dos seus 300 anos de existência, um desses alvos. A multidão tende a comportar-se acefalamente e é presa fácil dos mais absurdos argumentos.
Repare-se como uma sociedade democrática como a nossa, muda sensivelmente a perspectiva da fraternidade entre povos quando começa a faltar o trabalho e o emprego: recrudesce imediatamente a xenofobia e levantam-se vozes em coro contra a presença de imigrantes, mesmo em estratos culturais onde antes era impensável tal acontecer.  
E isto também tem a ver com a fragilidade da Democracia, atrás referida, fator que justifica o reforço da obra da ordem maçónica liberal, pois que é uma das instituições que combate o obscurantismo, a intolerância, a desigualdade, a opressão e toda a actuação própria dos regimes totalitários.

P: -Mas se existem outras instituições e outros actores que dão a cara pelos mesmos ideais, porque é que os maçons escondem a sua condição?
R: - Em parte pelo que se disse atrás, decorrente da natureza do seu trabalho de perfil iniciático que, pela sua essência singular, não contempla essa exposição pública; e em parte pela cultura intolerante enraizada na nossa sociedade, que retrai os impulsos de abertura. Noutros países isto não acontece, nomeadamente nos de cultura anglófona pois, ali, ser maçom é visto com naturalidade, ou até reconhecido como atributo dignificante para qualquer cidadão.

.˙.


2012/03/03

Ciências, Técnicas e Maçonaria

Tradução livre do castelhano de um excerto do artigo “Ciências, Técnicas e Maçonaria” de Amando Hurtado, publicado na revista espanhola CULTURA MASONICA Nº 10, Jan. 2012.

«(...) 
A Ciência é interpretada hoje – pela grande maioria das pessoas – não como um sistema teórico, mas como o conjunto das parcelas de conhecimento capazes de gerar aplicações técnicas socialmente úteis ( ou “rentáveis”), que se diluem no consumismo mercantilista.
A reflexão maçónica, perante este panorama, centra-se na busca pessoal do sentido que podemos dar à nossa própria vida enquanto membros da comunidade humana. Por ser humanista – ainda que sem situar o homem no centro do universo – e porque postula o trabalho como uma síntese de pensamento e acção, necessário à melhoria da condição humana, a Maçonaria envolve uma dimensão espiritual inseparável da sua própria natureza. Concebe o Homem como microcosmo, imagem do universo, com uma aspiração inata que o supera, que o transcende. Para além do mundo visível intui-se uma Arquitectura cósmica de que a humanidade faz parte e cujo código estrutural se torna gradualmente acessível através das ciências enquanto veículos do conhecimento.
A espiritualidade maçónica expressa-se na “busca da verdade”, simbolizada pela “Palavra Perdida”, identificável para muitos com a autêntica finalidade da Scientia de Philosophia Perenis, com o sentido que lhe atribui Karl Jaspers: apesar da grande variedade de escolas filosóficas e para além de todas as suas contradições e exclusões recíprocas como portadoras da “Verdade”, pontifica em toda a filosofia um “Uno” que nada contem mas em torno do qual gravitam os esforços filosóficos de todos os tempos como tema central de uma única e eterna Philopsophia Perennis.[*] O que implica também que os mesmos temas, intelectuais ou espirituais, podem ter diferentes aproximações e representações imaginárias e que a via para alcançar esse “Uno” universal não é exclusivamente místico-religiosa.
O permanente trabalho de busca exige uma praxis ética racional. A Maçonaria nasceu, evoluiu, e continuará evoluindo ao longo dos tempos, como projecto de fraternidade universal pioneiro na tomada de consciência da diversidade e da compatibilidade entre as culturas mundiais. Para a sua concretização, esse ideal de fraternidade terá de transcender os limites espaciais e temporais em que se cristalizou corporativamente no séc. XVIII, pois que o Homem é, como sublinha Jean-Marie Schaeffer, a cristalização genealógica instável de uma forma de vida em evolução.
A validade da metodologia simbolista maçónica perante os sucessivos reptos colocados pelas evoluções sócio-culturais afigura-se incontestável enquanto genuína expressão da Psychologia Perennis. Porém, a sua efectividade e alcance dependerão de que a nossa Ordem, como escola de uma Arte de viver em fraternidade, mantenha a sua própria capacidade evolutiva sem prejuízo da sua vocação iniciática, assimilando na sua didáctica ritualizada os valores essenciais dos conhecimentos que o buril inteligente vai criando.»


*[nota do obreiro deste blogue sobre Filosofia Pererne]
quem sou, de onde venho, para onde vou?
Visão ou intuição de muitos teólogos, místicos e filósofos espirituais de várias épocas, a Filosofia Perene é formada por pensamentos profundos e intemporais sobre as coisas e a vida. Sobre essa realidade os ensinamentos da Filosofia Perene afirmam que o universo não só está interligado e pulsando de vida como é multidimensional, e proclamam:
- A realidade ultima é composta pelo domínio físico (ou fenomenológico) e pelo domínio imaterial;
- os seres humanos existem nestes dois domínios e reflectem dos dois lados da realidade;
- os seres humanos possuem a capacidade de percepcionar a realidade imaterial e reconhecer a sua centelha espiritual mas essa capacidade de percepção encontra-se atrofiada, adormecida pela falta de uso;
- esta percepção é o objectivo maior (iluminação mística), e a sua busca é o bem maior (vivência espiritual) da existência humana.
Todos os grandes mensageiros espirituais e os mestres do misticismo declararam que o propósito da Humanidade é a reunião com o seu princípio criador. De acordo com os seguidores desta filosofia, podemos aceder ao reino espiritual através da meditação, dos rituais, e através de uma vida sagrada.


2012/02/28

o ritual, portal do verbo?


As reflexões não terminaram na câmara de preparação pois a ela segue-se a prática da racionalidade que nos coloca em permanente reflexão sobre nós e sobre o Mundo.
Quero falar-vos de uma das razões que sempre me impediram de praticar um culto religioso estruturado, i. e. abraçar uma das muitas religiões que existem, ainda que, como ser espiritual que também sou, tenha, por vezes, sentido necessidade de procurar, praticar, e partilhar uma exteriorização dessa espiritualidade, que bem podia acontecer através de uma abordagem essencialmente religiosa. Essa razão impeditiva foi o ritual: conjunto de gestos, posturas corporais, ritmos, palavras e formalismos eminentemente simbólicos que, ao “sapiens vertiginosus”, homem submetido ao materialismo e dominado pelo imediatismo, parecem coisa ridícula, senão burlesca.

Paralelamente, considerava de forma idêntica o exercício da exteriorização, da partilha, dos meus pensamentos e sentimentos com outros. Assim me formata a vida hodierna e profana, irónica e retoricamente postulando: Que homens são estes - do início do século XXI em que os avanços da ciência e da técnica são a quase todos os níveis sensacionais e vertiginosos -, que se prendem a pieguices de auto-crítica e contrição pelos seus actos e omissões perante outros que, frequentemente, até são completos desconhecidos?! Ora, nessa lógica superficial do mundo pragmático de hoje, tais coisas são próprias de gente fraca, medíocre, gente vencida, derrotada, que não acompanhou a mudança dos tempos. Neste pensar achava, portanto, ridículos os rituais, como se se tratasse de aprender danças exóticas e complexas de alguma ilha situada nos antípodas da civilização. Como achava ridículos os discursos de compunção, de penitência, ou mesmo a apresentação das mais simples reflexões das coisas espirituais, perante um colectivo.

E assim, neste mundo em que a doxa (opinião) leva a dianteira à aletheia (verdade), a prática de tais rituais e tais exposições pessoais são desconsiderados e desprezados como coisa lamecha e anacrónica. De lado ficam o exercício da racionalidade – a consciência dos valores fundadores da civilização e do humanismo –, e o desdém pela prática dos rituais recebidos em herança, com consequente perda da identidade cultural, da identidade espiritual e da própria consciência crítica.

E isto é grave? É, sim. Porque, descuidados, veremos que a nossa condição de seres humanos continua tão ambivalente como no tempo em que habitávamos as cavernas. Ora, descubro que os rituais possuem outra dimensão para além dos atributos proclamados, descubro que potenciam a aceitação da exteriorização dos nossos sentimentos. São, a um tempo, mnemónicas que abrem as portas do pensamento e do verbo e, simultaneamente, elementos ordenadores e disciplinadores do corpo e do espírito.

Eventualmente, alguns de vós não compreendereis a surpresa que constituiu o resultado desta reflexão pois para aqueles que praticam rituais desde jovens isto não prefigura nenhuma descoberta relevante, mas para aqueles que apenas conheceram uma realidade materialista e afastada de qualquer exploração no domínio do espiritual, ou para aqueles, como eu, que dessas abordagens sempre desconfiaram, esta reflexão é significativa.

Talvez esta exposição vos pareça um tanto falha de conteúdo, mas entendam-na como uma das reflexões iniciais sobre a nova realidade que me é apresentada, sendo também consequência da vontade de praticar e partilhar essa exteriorização da espiritualidade que não logrei reconhecer no culto de qualquer religião, em resposta a esta convicção: cada ser humano é um enigma porque para lá da sua existência material ele encerra um eu inacessível ao conhecimento alheio e difícil à auto-consciência.

2012/02/22

dos portugueses


No que toca à força anímica, não obstante a realidade se apresentar mais complexa e menos estremada do que a fórmula que enuncio a seguir, os portugueses dividem-se, grosso modo, em miserabilistas e cultores da “nacional fanfarrice”, i. e., ora encontramos compatriotas descrentes dos feitos do passado e nas perspectivas do futuro, ora deparamos com acérrimos defensores da exaltação de uma nação prodigiosa à qual está reservada um destino grandioso e iniludível, um protagonismo exclusivo determinado pelo demiurgo - que encontra eco, p. ex., no mito do V Império, desígnio que se cumprirá um dia (?) Pessoalmente, julgo-me num quadro mais colorido do que este, redutor, que acabei de referir. Algures a meio caminho entre um extremo e o outro, podendo tal dever-se à descrença na prática actual de valores basilares da civilização como o exercício da Justiça e o apego à Verdade

2012/01/30

reflexão inicial


«... Primeiro foi a espera, deixado sozinho numa pequena sala, com a sugestão de reflectir sobre a minha opção de entrar num mundo novo que me deveria aportar uma nova realidade, um modo diferente de estar e de ser. A preocupação que mais me assaltou, então, não incidia sobre essa opção, em si, mas sobre as qualidades que ela requeria: homem de bons costumes é algo difícil de definir neste tempo falho de valores em que as virtudes se misturam com atributos mundanos, e em que os referenciais desses valores herdados se mostram, muitas vezes, embotados ao discernimento. Vivemos num mundo repleto de ruídos ensurdecedores, em que não ouvimos os outros e, por vezes, nem a nós próprios. Ora, integrado neste mundo de probidade em convulsão, seria eu, ainda, um homem de bons costumes? Mas a resposta não poderia ser outra: Se o sou, estou no local certo para iniciar a caminhada, e se o não sou também estarei no lugar certo, pois pelo que anuncia a maçonaria, encontrarei nela a orientação para encetar uma caminhada rumo à justeza e à verdade. A busca da Luz.
(...)
Neste espaço obscuro, perante advertências e objectos singulares que convidam à meditação sobre nós próprios e a vida e, portanto, suscitam um olhar introspectivo sobre a minha existência, lembrei-me de um livro que narra as reflexões de doentes terminais, pessoas que, à beira do fim, manifestam frequentemente um profundo arrependimento por não terem tido a coragem de viver de acordo com as suas convicções mas segundo aquilo que acharam ser as expectativas dos outros; de não terem criado e alimentado fortes laços de amizade e fraternidade com os seus semelhantes, até mesmo com os seus familiares, rendendo-se a uma vida alucinante que impede a entrega e a partilha; e de não terem expressado mais vezes os seus verdadeiros sentimentos, tendo, ao invés, adoptado atitudes que visaram tão-somente viver em paz com os outros, afinal uma paz hipócrita, uma vida de falsidade.»