2013/09/07
2013/06/07
Reflexões de um Eterno Aprendiz
Reflexões de
um Eterno Aprendiz
Definir
a Maçon.˙. para lá dos manuais
Para além
dos catecismos habituais
Não
foi, não é fácil, nem será jamais
É que a
Maçon.˙. não é isto ou aquilo
Ela
vive-se, não se reduz a coisas textuais
Livros,
segredos e outras coisas tais.
Saibamos
que essa natureza
Vivida na
obra da Arte Real
Em que
a dúvida é feita certeza
Sentida
e vivida de modo desigual
Pois
sentimentos e provas pessoais
Vêm do
sentir e da visão individual.
Maçonaria
é a forma do equilíbrio
Entre
ciência e espiritualidade
Método
de entender a harmonia
Das
coisas, na busca da Verdade
Tudo
isso e mais, eis quanto vale:
É
a práctica de um Amor Universal.
Mais
do que a evocação do Lema
Justiça,
Verdade, Honra, Progresso
Ou
a repetição da Divisa da Ord:.
Liberdade,
Igualdade, Fraternidade
Profusamente
praticados no ritual
A
Maçon.˙. é bem mais do que isso
Sendo
tudo isso, e muito mais, afinal.
Eis
o terreno difícil a explorar
A
longa caminhada a percorrer
Onde não
há um guru infalível
Nem um único dono da Verdade
Nem dogma ou modelo indefectível
Tampouco uma singular realidade.
Escolas e práticas profanas
Não ensinam que quando subo
Trabalhando no plural
Sobe toda a humanidade
E sob essa Luz da Verdade
Ajudo a elevar um igual.
Não buscamos reconhecimento
Nem fama entre os demais
Após muito estudo, erros e acertos
Progredimos, subimos, só então
Aprendemos a ser mais um
Apenas mais um, na multidão.
Mas há os que se julgam superiores
Desconsiderando e atacando
Fingindo-se vítimas de horrores
Porque caminhar para a Verdade
Tem esse grande embaraço, afinal
Contra nós atiça muita verrina do
Mal.
Se posso transformar a vida
A minha, a tua, a do vizinho
Sempre nisso devo instar
Dizendo: - ali está o caminho!
Dessa caminhada aprendida
Jamais negando esse ensinar.
Se um pobre esmola, devo dar
Poderá, sei lá, uma fome evitar
Ou a queda de uma criança
Nas malhas da perversidade
Sem poder fazer escolha
Como da árvore, cai a folha.
Cada um é um Mestre potencial
Que se pode revelar pela Arte Real
Tu, Mestre: - não esqueças a
humildade
Ou serás contigo próprio desleal
Ao pensares que és sumidade
Não és mais que um erro magistral.
H.
2013/02/22
2013/02/03
Abraço
Contra todas as
fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precário.
Se és maçon,
Sou mais que maçon – sou templário.
Esqueço-te santo
Deslembro teu indefinido encanto.
Meu irmão, dou-te o abraço fraternal.
Contra tudo que torna o homem precário.
Se és maçon,
Sou mais que maçon – sou templário.
Esqueço-te santo
Deslembro teu indefinido encanto.
Meu irmão, dou-te o abraço fraternal.
F. Pessoa
2013/01/06
Convite
Meu caro, venho por este meio
convidar-te a integrar uma instituição de que faço parte. Trata-se de um grupo
de homens que trabalham para um objetivo comum sob o signo da Fraternidade e da
Tolerância. Homens que repudiam a injustiça, a desonestidade, a corrupção, o
obscurantismo e a ignorância. O que achas? Estarias disponível para integrar um
grupo assim?
Imagino a tua perplexidade em
relação ao convite que te faço nesta mensagem. Afinal, não dispor de nenhuma
informação sobre a instituição para a qual te convido deve-te causar muita
estranheza. Por isso escrevo estas linhas. Elas não irão revelar mistérios que
existam ou que imaginas existir, até porque só se aceitares o convite é que
irás, pelo teu esforço, trabalho e estudo, encontrar a resposta a todas as
interrogações que tens e outras que virás a ter.
E o que é, então, esta instituição?
A sociedade humana tem-se
organizado, ao longo dos tempos, em grupos de interesses: religiosos,
políticos, económicos, etc. Mas ao mesmo tempo que um determinado interesse, ou
um conjunto deles, caracteriza um grupo, origina também antagonismos entre
grupos com interesses divergentes. A História é profícua em exemplos desses
conflitos. O próprio carácter religioso protagonizou embates e incoerências
cruéis em nome de Deus, por exemplo.
Ora, o que pensas de poder reunir
homens que professam as mais variadas religiões, mas que aceitam, por comum acordo,
denominar a entidade suprema como sendo o Grande Arquitecto do Universo e que aceitem a partir
deste ponto comum praticar a tolerância e nunca tentar impor a outrem a sua
religião? Ou até mesmo homens que não professam religião alguma mas que não se
importem que outros o façam? Já teremos aí dirimido um factor histórico de
divisão entre os homens, não concordas?!
Outro aspecto que te apresento para
análise é a própria composição de um grupo. Normalmente os grupos são compostos
por uma determinada característica que estabelece a afinidade entre os seus
componentes. Este de que te falo tem a proposta de multidisciplinaridade. Sem
que haja predominância de uma área do conhecimento sobre outras procuramos pessoas
de qualquer profissão: médicos, marinheiros, engenheiros, pedreiros, professores,
advogados, empresários, comerciantes, operários, etc. Enfim, a tónica é que a
possibilidade de troca entre pessoas com diferentes conhecimentos constitua um factor
de impulso para o aperfeiçoamento individual e colectivo.
Esta aprendizagem é norteada
apenas pelo limites do Livre Arbítrio, ou seja de uma maturidade instalada e
instrumentalizada para estar permanentemente à disposição de actuar em prol dos
avanços e progressos da humanidade, do combate ao obscurantismo, ao
autoritarismo, na defesa dos direitos universais individuais e colectivos, e na
incessante busca de justiça.
Nesta altura já deves estar a
pensar quão difícil é juntar um grupo de homens que busquem estes princípios e
que não estejam diferenciados e divididos na sua forma de actuação. Pois bem, é
necessário estabelecer aí um novo acordo. Já ouviste alguma citação do tipo “sou
totalmente contrário ao que pensas, mas defenderei com a minha vida o direito
que tens de pensar assim”? Pois este é o acordo! Independente da concepção
política, económica, religiosa ou filosófica de um membro do grupo, este
respeita o direito do outro pensar de forma diferente. Posso imaginar que o meu
igual esteja enganado, mas parto sempre do pressuposto de que ele está convicto
e que ao defender o que pensa o faz honestamente. Portanto só posso pretender
uma mudança pela persuasão e para isso deverei encontrar a forma e os
argumentos adequados.
Vês, assim é possível fazer funcionar
com harmonia um grupo formado por homens que pertençam a partidos políticos
diferentes, a diferentes clubes de futebol, a igrejas diferentes, etc. Outra
característica que deves conhecer é a de que estes homens se tratam com
fraternidade e apoiam-se mutuamente para atingir os seus objectivos. Nada mais
natural já que a luta de um é a luta de todos, e em prol da sociedade. Mas, atenção,
é preciso deixar claro que este auxílio mútuo não se aplica a outros objectivos
que não sejam comuns. Está aqui uma diferenciação transparente e definitiva com
os grupos corporativos que bem conhecemos na sociedade. Através de sinais
próprios estes homens identificam-se em qualquer parte do mundo, reconhecem-se
como irmãos e tratam-se como tal.
Pelo que leste até aqui já podes
imaginar quanto de superstições, de incorrecções, de invenções e de distorções
são propagadas a respeito deste grupo. Imagina quantos interesses foram
desestabilizados pela acção de homens assim, livres. Libertação de nações,
movimentos abolicionistas, campanhas de instrução, entre muitas outras visando
a valorização dos indivíduos, dos cidadãos, e dos direitos humanos.
Tais acções de homens livres
carrearam a ira e a reacção de monarcas, governantes, igrejas e outros poderes
tradicionais. Portanto, a partir da óptica dos ameaçados na perda do seu poder
discricionário era preciso combater, difamar e expor ao ridículo com informações
incorrectas e assustadoras que pudessem convencer a opinião pública mantendo-a
atrelada ao discurso dos difamadores. Pois aos que dominam por crendice e
engodo, um grupo de homens livres, corajosos, libertários e coesos
representava, realmente, um sério risco.
Obviamente que um grupo de homens assim não
poderia circular por aí com autocolantes ao peito, no meio a tantos obstáculos
que hoje, infelizmente, ainda perduram e que noutros tempos foram muito
perigosos, fatais até.
Portanto o grupo é fechado,
discreto; mas não secreto. As suas acções e a identificação pública de alguns
de seus componentes acontecem, normalmente, vários anos após os factos em que
intervieram. Até porque o anonimato é cultivado mais como uma virtude que uma
omissão ou fuga. Assim, a entrada de um novo membro é tomada por decisão dos
demais que através de cuidada observação de alguém e das suas acções na
sociedade, entendem convidá-lo. Ninguém bate à nossa porta a pedir entrada,
pois para isso teriam de saber onde se situa a porta e, mais importante, como
bater correctamente. Estes obstáculos funcionam como um mecanismo de manutenção
da qualidade de recrutamento e, portanto, da manutenção da homogeneidade do
grupo.
Para que analises as parcerias a
que estarás submetido se aceitares este convite, e para que conheças algumas acções
que nos são atribuídas posso citar: A Revolução Liberal de 1820; a Abolição da
Pena de Morte em 1867; a Implantação da República em 1910. E outra acção
importante que contou com a participação de elementos da nossa instituição: A Revolução
de Abril de 1974.
Entre personagens públicos posso citar alguns nomes da segunda
metade do século passado: os generais Norton de Matos e Humberto Delgado; o
escritor Vitorino Nemésio; o cardeal Costa Nunes; o médico e filantropo Bissaya
Barreto; o advogado e Provedor de Justiça José Magalhães Godinho; os autores da
música e da letra do Hino Nacional, Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça,
respectivamente; e o humorista Raúl Solnado, entre muitos outros notáveis ou anónimos.
No panorama internacional cito
apenas alguns, dos muitos que por todo o mundo deram ou dão o seu contributo à
mesma causa: Edwin Aldrin, o primeiro homem a pisar o
solo lunar, Alexandre Fleming, inventor da penicilina, o pintor Marc Chagall,
Churchill, Garibaldi, Simon Bolívar, Salvador Allende.
Ao contrário daquilo que muitos pensam
este grupo não age institucionalmente na sociedade. Com excepção de acções
filantrópicas e educativas, sempre anónimas, todas as demais acções são
individuais e constituem reflexo da postura consciente e cidadã de cada membro,
mesmo que outros membros do grupo estejam também a apoiá-lo.
Após esta explicação e caracterização da instituição em causa, ainda
é necessário que tenhas clara uma condição definitiva e importante. Este grupo/instituição
é uma sociedade de HOMENS
especiais, mas HOMENS. Não é uma sociedade de SEMIDEUSES como alguns imaginam e outros
acreditam. A condição humana, por mais apertada que seja a selecção, carrega
contradições e imperfeições, e isto reflecte-se também nas acções individuais
dentro do grupo. A humildade está em reconhecer estas deficiências e procurar um
constante aperfeiçoamento capaz de superá-las para que não possam comprometer
os objetivos a que a instituição se propõe.
Agora, mais esclarecido, estás
predisposto para uma conversa mais profunda? Espero que sim, pois explicitei
por escrito até onde me é possível, a minha visão e as minhas convicções a
respeito desta instituição que integro. Deves perceber porque te faço o convite
e o quanto gostaria de contar contigo nesta instituição.
Uma
resposta declinando o convite será recebida com toda a naturalidade por
quem cultiva o total e livre arbítrio e respeita a liberdade de escolha
e decisão.
Com um abraço amigo.
(adaptado de um texto retirado da
internet, indicado como de autoria anónima)
2012/12/07
da existência metafísica
De Giordano
Bruno à Física Quântica
E à demonstração da realidade de uma existência
metafísica
(excerto de tradução do artigo de Franz Moser “Giordano Bruno e a Física
Quântica”, 1990)
As concepções de Giordano Bruno são mais actuais do que nunca. A ciência moderna
e sobretudo a física quântica confirmam as suas teorias de forma surpreendente.
A concepção que Bruno tinha era de uma modernidade espantosa se a
transcrevermos com a terminologia contemporânea. É evidente que isso implica
abandonar totalmente a abordagem mecanicista, caduca, para se adoptar uma
terminologia nova. Actualmente, o nosso problema consiste, não em comparar a
concepção do mundo de Giordano Bruno com a visão mecanicista de Galileu, Newton
ou mesmo Einstein, mas com as teorias de Niels Bohr, Werner, Heisenberg ou
David Bohm. Comecemos pela noção de matéria em Bruno. É evidente que Bruno não
dá a este termo o mesmo significado que nós. Ele fala de matéria "corpórea"
e "incorpórea", referindo-se nesses termos à Energia. Esta é uma
formulação que não se usava na sua época. Podemos assim admitir que Bruno
considera todo o ser como uma forma de "matéria", portanto de
energia, segundo o sentido que hoje damos a esta palavra.
Em seguida, Bruno refere-se às duas substâncias
básicas do ser: forma e matéria. Que quer ele dizer com isto? Se nos detivermos
com mais atenção na noção de "forma" em Bruno, constatamos que ela
corresponde ao que hoje designaríamos pelo termo "informação". Ele
distingue uma "causalidade de acção" e uma "causalidade de
forma". Esta causalidade ligada à forma transmite à matéria a sua
consistência, o seu modelo ou informação, como diríamos hoje. Nas ciências não
há unanimidade quanto ao sentido do termo "informação". Os
informáticos pensam nos "bits", os biólogos pensam no modelo e os
físicos pensam numa "medida da quantidade de forma". Poder-se-ia
dizer que esta quantidade de informação diferencia-se segundo os diferentes
planos do ser (mineral, vegetal, animal) enriquecendo-se à medida que sobe na
escala. Todo o ser que se organiza nos diferentes planos de existência, através
de um conteúdo diversificado de informação, retorna à Energia. Ordem e
informação estão igualmente ligados, como é possível verificar no segundo
princípio da termo-dinâmica.
Encontramos, assim, em Bruno estas duas substâncias básicas do ser, energia e informação. Como chama ele o laço que as une? Bruno fala de alma ou de substância: "Matéria e forma dão a substância". Hoje dir-se-ia: "energia e informação dão a consciência". Bruno diria: todo o ser tem uma alma; e nos nossos dias: todo o ser é consciente. Existe aqui um problema de linguagem. Na nossa época, entendemos normalmente, pelo termo consciência, a consciência humana. "Ele perdeu a consciência" significa "ele desmaiou". Mas os físicos deram à noção de consciência um sentido lato e inusitado. Perguntaram a David Bohm: "Uma pedra tem consciência"? e ele respondeu: "Sim, uma pedra tem uma consciência". No entanto, não se trata de consciência humana, mas de uma consciência que responde à definição "energia e informação dão a consciência" ou, segundo a formulação de Bruno "matéria e forma dão substância ou alma". Podemos agora compreender Bruno quando fala de uma alma do mundo ou ainda quando diz que "a totalidade da substância retorna à Unidade". Isso quer dizer que todo o ser regressa à energia/informação, o que hoje também se compreende e aceita.
Ao ler a obra "Causa, Princípio e Unidade" de Giordano Bruno, à luz da teoria quântica e da "auto-organização", ficamos desorientados: pensaríamos estar a ouvir - basta mudar a terminologia -, um físico do século XX. Pode ler-se: "Segundo a visão do Nolano, é a razão que dá às coisas a sua existência: a matéria (energia) de que cada coisa se compõe - a alma (consciência), enquanto princípio formal que constitui e dá forma a todas as coisas.". Na realidade, tal como falamos de um princípio de matéria constante e eterna, torna-se absolutamente necessário considerar de igual modo um princípio de formalização do mesmo tipo. Vemos na natureza todas as formas da matéria (energia) desaparecerem e a ela voltarem. Em consequência disso, acontece que nada é imutável e eterno. Por outro lado, as formas não têm nenhuma existência fora da matéria; é ela que as engendra e é a ela que voltam. Emergem do seu seio e a ele retornam. É por isso que a matéria deve ser reconhecida como o único princípio substancial, enquanto as formas, no seu conjunto, apenas devem ser consideradas como definições diversas da matéria, que vão e vêm, que acabam e se renovam; e é por essa razão que não as podemos considerar como um princípio. Concluindo, as formas não passam de acidentes e de definições da matéria". Bruno distingue uma forma "acidental" e uma forma "substancial" da matéria. O que é que isso significa? Para o compreender, é indispensável ter em consideração dois princípios da física quântica, a saber, o paradoxo EPR e o paradoxo do gato de Schrödinger.
O que é que se deduz do paradoxo EPR? O princípio da
mecânica quântica, formulado em 1935, só em 1982 encontrou a sua explicação
experimental definitiva e a sua confirmação por Alain Aspect da Universidade de
Paris. O resultado deste paradoxo é o conceito de não-localidade. Entende-se
por localidade o carácter espacial da realidade, e por não-localidade, a
não-espacialidade. Confirmou-se experimentalmente que há uma dimensão do ser na
qual reina a não-localidade. Podemos dizer que existe uma dimensão do nosso ser
na qual não há "espaço". Ora, se não há espaço, e por conseguinte
distância, também não há tempo. Portanto, nesta dimensão, não há futuro nem
passado, o que implica sincronicidade e simultaneidade. Esta dimensão é, pois,
uma sincronicidade na não-localidade e, por isso, também uma a-causalidade.
Poderemos imaginar o mundo assim? Esta deveria ser uma dimensão metafísica.
Teremos demonstrado, quem sabe pela primeira vez na história da humanidade, de
modo experimental, a realidade de uma existência metafísica? Escreve a este
propósito o filósofo Wolfang Stegmüller: "Pela primeira vez na história
das ciências, acontece que uma afirmação física e empiricamente verificável
permite-nos estatuir sobre uma posição filosófica. Se o Realismo tem razão, a
diferença de natureza existe; se a física quântica tem razão, não existe".
As experiências dos físicos actuais e os métodos experimentais convergem no
mesmo sentido, ou seja, que esta diferença de natureza não existe e que o
Realismo está errado. Se o Realismo não conta, é o Idealismo que impera, isto
é, a existência de dimensões metafísicas. Por conseguinte, vivemos ao mesmo
tempo em dois mundos, uma realidade e um mundo de consciência metafísica. Eis o
resultado do paradoxo EPR. Mas esta é também a posição através da qual podemos
compreender melhor a concepção do mundo de Giordano Bruno.
E o que se entende pelo paradoxo dos gatos de
Schrödinger? A questão está em saber como nasce a nossa realidade. A física
quântica demonstra-nos que este mundo é um mundo de probabilidades. A equação
de base pela qual os físicos descrevem a realidade, é a famosa função Phi de
Schrödinger. É uma função de probabilidade que indica apenas a probabilidade do
aparecimento das partículas de matéria, por exemplo, dos electrões, mas não a
sua posição exacta. É certo que a dita "redução", ou a queda, desta
função de probabilidade conduz a uma realidade concreta. A questão que se
coloca prioritariamente hoje em dia é como se produz a redução da função Phi.
Actualmente há duas respostas: 1- Não se sabe. É assim. É uma lei da natureza
(segundo Kodennagen); 2- A redução da função Phi é o produto de uma troca de
informação de uma consciência para outra (segundo V. Neumann). Se excluirmos a
primeira explicação positivista que não nos satisfaz porque não nos traz
nenhuma luz, só nos resta a segunda. Mas esta última é sensacional, pois, mais
uma vez, confirma o Idealismo. O mundo nasce, por outras palavras, é criado
pela nossa consciência, qualquer que ela seja. Será que o mundo nasce das
nossas representações mentais? Qual é o grau de realidade da realidade? H.
Maturana, biólogo chileno, um dos pais da teoria da auto-organização, diz:
"Criamos o mundo no qual vivemos, vivendo-o". Poderíamos acrescentar:
"em função das nossas próprias representações". A milenar disputa:
"Qual é o grau de realidade da realidade?", ou "O que é a
realidade?", parece ter chegado ao fim. Mas num sentido diferente do
esperado pela maioria dos filósofos.
Voltemos a Bruno. Quando se tenta compreender os
escritos de Bruno a esta luz, conclui-se com espanto que ele já possuía estes
conhecimentos. Só assim podemos compreender as suas palavras obscuras. Mas como
é que elas podiam deixar de ser obscuras se ultrapassavam largamente a
capacidade imaginativa do homem? Vivemos num mundo multidimensional de nove, ou
doze dimensões, ou ainda mais. É esse o nosso problema! Este problema é o mesmo
de um cão incapaz de compreender as equações diferenciais. Estas fazem parte da
realidade e, contudo, o cão vive muito bem sem elas. Não necessita delas nem as
compreende. Vive na "sua realidade de cachorro" como nós num
reducionismo positivista. Assim, através das descobertas da mecânica quântica,
a distinção estabelecida por Bruno entre formas substanciais e acidentais é
bastante compreensível. As formas substanciais são aquelas que hoje
consideramos como funções de probabilidade (as funções Phi). São estados no
mundo metafísico da consciência. Através da interacção de diferentes
consciências nascem as formas acidentais da matéria: a nossa realidade
biológica. Também podemos compreender Bruno quando diz "que a pluralidade
não passa de acidente", e mais adiante: "Assim compreende-se que tudo
está em tudo, mas não integralmente em cada coisa, e de maneira diferente em
cada nível". Vê-se assim como todas as coisas estão no universo, e o
universo em todas as coisas, nós nele, ele em nós, tudo convergindo para uma
unidade perfeita. Pois esta Unidade é única, imutável e eterna. Sendo eterna,
tudo o resto é orgulho, equivalente a nada. Por conseguinte, este mundo, este
ser, o verdadeiro, o universal, o infinito, o incomensurável, está
permanentemente presente em cada uma das suas partes". E podemos perguntar: Como é que sabemos que a
concepção do mundo de Giordano Bruno revela uma qualquer verdade, mesmo que ela
coincida com os resultados da física quântica? De onde extraiu Bruno as suas
ideias? Não poderemos supor que as teorias e as descobertas da mecânica
quântica estarão ultrapassadas daqui a alguns séculos? Esta questão é
fundamental e não é fácil responder a ela. A resposta exige uma visão global da
evolução da humanidade, da evolução do homem desde os tempos pré-históricos,
dos diferentes ensinamentos da Sabedoria e das suas aplicações nas religiões e
filosofias do Oriente e do Ocidente. A este respeito há uma grande confusão e
inúmeras contradições que ao longo de milhares de anos têm dificultado esta
visão global. De onde nos vem o conhecimento da "verdade" da
existência, na medida em que a podemos reconhecer? Duas ideias nos parecem
importantes: 1- O conhecimento humano está submetido a um paradoxo. O homem vive
num mundo (multidimensional) que não compreende perfeitamente. Contudo, ele
deve incessantemente tentar compreendê-lo para sobreviver. Eis um paradoxo!; 2-
O homem conhece a verdade do ser; por um lado através das ciências e por outro
através dos ensinamentos da Sabedoria (Taoísmo, Hinduísmo, Budismo,
Cristianismo e outros).
O conhecimento científico pode evoluir: desde os
Gregos, a nossa imagem do mundo não parou de se modificar. O conhecimento
científico não é constante. Além disso, existe a Philosophia Perennis, a
filosofia eterna que nasce e se encontra em todas as sabedorias. Daqui se pode
deduzir que o conhecimento científico tem fortes probabilidades de indicar a
verdade, quando, e apenas quando, está em conformidade com os princípios da
Philosophia Perennis. É o caso da mecânica quântica. Podemos supor que nos
encontramos perante uma síntese entre a fé e o conhecimento. A mecânica
quântica e a Philosophia Perennis estão de acordo.
E como pôde Giordano Bruno conceber as suas teorias?
Como já afirmámos, ele viveu quatrocentos anos avançado para a sua época. Onde
é que os sábios vão buscar os seus conhecimentos, uma vez que é surpreendente o
facto de todas as doutrinas convergirem nas suas ideias fundamentais? Existem
desde há milénios afirmações sobre a realidade do ser que o homem não pode
aceitar porque elas não correspondem à sua capacidade de representação. Quer
isto dizer que não pode deixar de ser assim? Toda a história da ciência é a da
concordância entre o realismo naïf - da confiança concedida aos sentidos - e a
razão.
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