2012/04/20

A Maçonaria em Portugal




A MAÇONARIA EM PORTUGAL
(Segundo textos de Isabel Oliveira)

Ínicio
Herdeira do ritual de transmissão de conhecimentos dos construtores de catedrais da Idade Média, a Maçonaria transforma-se numa ordem de carácter especulativo no século XVIII. Desde então, a pedra bruta é o homem, que se deve ir aperfeiçoando no contacto com os «irmãos» através de uma aprendizagem simbólica. Na comemoração de 200 anos de existência, o Grande Oriente Lusitano entreabre as suas portas ao mundo profano, procurando rectificar algumas ideias feitas sobre a matéria.
O que é então a Maçonaria? Maçonaria (de maçom, pedreiro) significa literalmente pedreiro-livre, podendo traduzir-se modernamente por livre-pensador. Historicamente, a Ordem Maçónica é herdeira das associações de artistas do Mundo Antigo, especialmente do Egipto, da Grécia e de Roma, e está ligada às corporações de pedreiros da Idade Média (século VIII). A religiosidade então dominante exprimiu-se, sobretudo, na construção de templos e catedrais góticas, todas, de resto, semeadas de sinais maçónicos, como acontece, entre nós, na Batalha, em Tomar e nos Jerónimos. Os arquitectos e construtores desses monumentos tinham de ser dotados de profundos conhecimentos técnicos, científicos e artísticos. Tais conhecimentos eram interditos a elementos estranhos, pois a sua divulgação e entrada no domínio público implicavam a perda de prerrogativas. Por isso, apenas eram transmitidos secretamente nas lojas (local de reunião dos maçons) pelos mestres aos discípulos de reconhecida aptidão e honorabilidade, após um juramento solene. Assim surgiu a maçonaria operativa (de operários construtores) e o segredo maçónico ou iniciático. Há indícios de que o chefe destas corporações passou a designar-se em Inglaterra, a partir de 1278, por mestre maçons, o mesmo sucedendo em França com a construção da catedral de Notre-Dame (1283).

Reforma de Lutero
Com a Reforma de Lutero e a cessação da edificação de templos, as irmandades e lojas maçónicas franquearam as portas a pessoas não iniciadas na arte da construção, desde que fosse aprovada a sua admissão e depois de serem regularmente iniciados. Com o passar do tempo, estas lojas foram ficando nas mãos dos membros adoptados. A organização profissional dos construtores de catedrais deriva então para esta Maçonaria, não operativa, mas especulativa, que tomou corpo a partir de 1717, quando quatro Lojas de Londres - cujos membros eram exclusivamente especulativos ou adoptados - fundam a Grande Loja de Inglaterra.

Obediência ou federação de lojas
Nasce também um novo conceito: o de obediência ou federação de lojas. Daqui por diante residirá a soberania, já que unicamente a Grande Loja de Inglaterra tinha autoridade para criar novas lojas. O que o Grande Oriente Lusitano comemora este fim-de-semana é a carta patente que lhes foi concedida pela Grande Loja de Inglaterra em 12 de Maio de 1802, permitindo criar a primeira Obediência portuguesa. O seu primeiro grão-mestre foi um neto do marquês de Pombal: Sebastião José de Sampaio e Melo Castro Lusignan, conde de São Paio.

As Constituições de Anderson
Redigidas em 1723, mas ainda hoje veneradas e respeitadas por toda a Maçonaria - viriam esclarecer que o templo de pedra deixava de ser a tarefa do maçom: o edifício a ser levantado em honra e glória ao Grande Arquitecto do Universo passaria a ser a catedral do Universo, ou seja, a Humanidade. Assim como o trabalho sobre a pedra bruta destinada a transformar-se em cúbica, quer dizer, apta às exigências construtivas, seria o homem, que se iria polindo no contacto com os seus irmãos através de um ensinamento em grande parte simbólico.
Cada instrumento dos pedreiros passou a ter um sentido simbólico: o esquadro para regular as acções; o compasso para dar o sentido dos limites; o avental, símbolo do trabalho, a indicar a simplicidade dos costumes e a igualdade; as luvas brancas, para recordar ao maçom que nunca deve manchar as mãos com a iniquidade; e a Bíblia, para regular ou governar a fé. A finalidade da Maçonaria, à luz destas Constituições, consiste na construção de um templo de fraternidade universal baseado na sabedoria, na força, na beleza, na prática da tolerância religiosa, moral e política, na luta contra todo o tipo de fanatismo e no exercício da liberdade.

Maçonaria anglo-saxónica e a latina
Como existem muitas Maçonarias, há especialistas que estabelecem uma divisão entre a Maçonaria anglo-saxónica e a latina. A primeira é qualificada também como regular, porque se fundamenta na fidelidade aos princípios e às regras ditadas pelos fundadores. As que se encontram sob a influência da Grande Loja de Inglaterra são teístas: apenas aceitam no seu seio os que (cristãos, muçulmanos, judeus, hindus) reconhecem um Deus como princípio criador - o Grande Arquitecto do Universo e uma fé na verdade revelada, tal como se encontra na Bíblia ou noutros livros sagrados como o Corão, os Vedas, etc.

Maçonaria em Portugal
Em Portugal, a Maçonaria regular é representada pela Grande Loja Regular de Portugal/Grande Loja Legal de Portugal (GLRP/GLLP) A outra corrente, dita latina, é de inspiração racionalista ou liberal e renega, como o Grande Oriente de França, a referência ao Grande Arquitecto do Universo. Professa um estrito laicismo, suprimindo a Bíblia dos seus rituais. Deste ponto de vista, o Grande Oriente Lusitano tende a seguir a tendência latina, embora se afirme plural: aceita crentes e não crentes, católicos, judeus, muçulmanos, agnósticos e ateus. «Acima de tudo, somos anti-dogmáticos», afirma João Soares Louro, destacado membro do GOL, acrescentando que «a única certeza que temos é que nos assiste a dúvida permanente. Esta atitude confere uma abertura muito grande». Admite que «nos tempos da I República cometeram-se excessos, o que levou a que muitos pensassem que a Maçonaria era anticlerical. Não somos. Colocamos todos os credos em pé de igualdade». Não obstante a divisão de águas, os maçons de todas as Obediências trabalham com o mesmo objectivo, respeitando-se e tratando-se como irmãos. O projecto de uma Europa unida é também obra dos maçons sem distinção de Obediências. Se se construir, de facto, a Europa dos direitos sociais, talvez se tenha iniciado o que Krause, filósofo maçónico alemão do século XIX, chamou a terceira etapa da Maçonaria, depois das fases operativa e especulativa, ou seja, a transformação do mundo na verdadeira «Aliança da Humanidade».

A maçonaria é uma sociedade secreta?
A maioria dos maçons nega pertencer a uma sociedade secreta. António Arnaut - membro assumido do GOL - chama-lhe «organização discreta», na medida em que «não está aberta ao público e reserva apenas aos seus membros o conhecimento de certas práticas e saberes. Nisso consiste o segredo maçónico». Como afirma Manuel P. Santos no livro «Com a Maçonaria não se Brinca!»: «Actualmente ser maçom não é fácil, pois a discrição que envolve toda a sociedade maçónica revela-se como oposta à ‘transparência’ que deve existir em qualquer sociedade democrática.»
Os maçons reconhecem-se entre si como irmãos, identificando-se com toques, sinais e palavras. Discretíssimo, Ramos Horta, na cerimónia em que recebeu o Premio Nobel da Paz, em 1996, não deixou de levar a mão ao peito, num gesto ritual de agradecimento à Maçonaria. «Este é um dos nossos sinais que passou para a sociedade profana e tende a generalizar-se», explicam-nos. A Maçonaria, como organização iniciativa que é, não pode viver sem um ritual, isto é, sem uma acção simbólica constituída por objectos, gestos e palavras sistematicamente repetidos, os quais, no seu conjunto, representam uma ordem cósmica, um universo ordenado. Parte da iniciação maçónica consiste na vivência, pelo candidato, da sua passagem pelos quatro elementos: terra, ar, água e fogo. A primeira fase tem lugar na Câmara de Reflexões, símbolo da Terra, onde o candidato redige o seu testamento filosófico, ou seja, a manifestação das suas últimas vontades antes de deixar o mundo profano. Numa das paredes desta câmara estão patentes as letras V.I.T.R.I.O.L., significando Visita Interior Terrae Rectificando que Invenies Occultum Lapidem (Visita o Interior da Terra e Rectificando Encontrarás a Pedra Oculta). De natureza alquímica, esta mensagem chama a atenção para o trabalho interior que o profano deve fazer sobre si mesmo, mediante a meditação. Entrado no templo, o neófito submete-se à prova do ar, da água e do fogo. Terminada a cerimónia da iniciação, o candidato, que durante estas três provas tem os olhos vendados, toma pela primeira vez contacto visual com o templo e com os irmãos que fraternalmente o rodeiam e acolhem. Ao entrar na Ordem Maçónica, o iniciado recebe o avental de aprendiz, cuja finalidade simbólica é protegê-lo na sua missão de desbastar a pedra bruta. E é junto às duas colunas que se encontram à entrada do templo - e que simbolizam as colunas da Força e da Estabilidade do Templo de Salomão - que o aprendiz recebe os ensinamentos do seu grau.
O toque deve ser dado em sinal de reconhecimento maçónico, entre irmãos. É um código que, apesar da sua utilização dever ficar circunscrita ao espaço do templo, com o avançar do tempo, ganhou foros universais, permitindo em qualquer sítio saber se alguém foi iniciado como maçom. Quando alguém estranho à Maçonaria estava entre maçons, era costume usar a palavra «chove» para dar a conhecer a presença de um não iniciado. Passados os tempos da clandestinidade, só a tradição justifica o seu uso. O espaço do templo é muito específico, o que exige que o caminhar (marchar) seja executado segundo regras particulares. A marcha no templo varia conforme o grau em que os maçons trabalham, mas obedece à regra da geometria, que salienta a posição vertical do maçom, exemplo da conduta que ele deve levar na vida profana.
A cadeia de união é outro acto praticado por todos os maçons em loja, no qual eles dão as mãos, colocando o braço direito sobre o esquerdo, de forma a criarem entre si uma verdadeira cadeia. Se, por um lado, o cerimonial maçónico exige silêncio, por outro, requer a presença de música, de modo a que os sentidos sejam estimulados para o ritual que se pratica. A tradicional música maçónica de Mozart ainda hoje é tocada nos trabalhos de loja, em particular nas sessões de iniciação e noutras de carácter solene. Não é por acaso que no III Encontro da Maçonaria Latina se inclui uma ópera de Mozart, neste caso «A Flauta Mágica». Identificando-se o aprendiz com a pedra bruta, os instrumentos simbólicos que lhe são atribuídos para o seu aperfeiçoamento são o martelo e o escopo, próprios ao desbaste. Já o companheiro requer instrumentos de maior precisão, nomeadamente o esquadro, o nível, a perpendicular, a alavanca e a régua. Os companheiros são elevados a mestre na Câmara do Meio. A partir deste grau, que pode demorar anos a obter, o maçom está em condições de ajudar novos obreiros no seu percurso iniciático.
Actualmente, para se ser maçom é preciso ter mais de 18 anos, ter recursos para pagar as captações - a quota mensal no GOL ronda os 17,5 euros (3500$00) - ser livre e de «bons costumes».
Tem de se procurar um padrinho ou proponente e submeter-se às «provas».
Na Maçonaria regular, a estes requisitos junta-se a obrigatoriedade de se crer num Deus, o Grande Arquitecto do Universo. A relação da Igreja Católica com a Maçonaria conheceu períodos de grande tensão, sobretudo a partir do século XVIII. Nas décadas de 1720-1730 e 1730-1740, a Maçonaria penetrou em toda a Europa e fora dela. Foi um avanço impressionante, que assustou sobretudo a Igreja. O Papa Clemente XII, logo em 1738, promulgou a primeira bula de excomunhão contra os pedreiros-livres, iniciando uma longa série de documentos papais a condenar a Ordem Maçónica. Ordenou ainda à Inquisição a perseguição dos seus adeptos. No nosso país, a Inquisição prendeu, torturou e condenou ao degredo os maçons da loja de John Coustos, um suíço, depois naturalizado inglês, que se tinha radicado em Lisboa.

A Maçonaria e o marquês de Pombal
A Maçonaria só voltaria a ter paz sob o governo do marquês de Pombal, um estrangeirado, que se supõe ter sido iniciado durante o período de residência além fronteiras. Na sequência do terramoto de Lisboa, em 1755, o plano de reconstrução da cidade contaria com a colaboração do arquitecto húngaro Carlos Mardel, um destacado maçom da Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitânia. A praça do Rossio e a do Comércio têm a sua «assinatura». Há quem considere que o Terreiro do Paço (também chamado Praça do Comércio) não é mais do que a recriação de um templo maçónico: o Cais das Colunas, que actualmente se encontra em obras, representaria a entrada, com as colunas J e B; o Arco da Rua Augusta é visto como a sua continuidade. De notar ainda que o triângulo por cima do Arco é outro símbolo maçónico por excelência.

A maçonaria com Pina Manique
Derrubado o marquês de Pombal, a Maçonaria voltou a conhecer a perseguição, agravada com D. Miguel e com Pina Manique. O triunfo definitivo do Liberalismo (1834) e a ascensão de D. Pedro IV, grão-mestre da Maçonaria brasileira, marca um período de apogeu da Ordem, que só viria a terminar com a revolução de 28 de Maio de 1926. Em finais do século XIX e princípios do XX, o ideário maçónico começou a identificar-se com a ideologia republicana, apesar de haver muitos obreiros monárquicos. Por isso, a República foi, essencialmente, obra de maçons. A revolução de 28 de Maio de 1926 não promoveu, nos primeiros anos, qualquer ofensiva contra a Maçonaria, talvez porque alguns dos seus chefes, incluindo Carmona e o Almirante Cabeçadas, eram maçons. A entrada de Salazar para o governo e a sua rápida ascensão tutelar reavivaria os velhos ódios das forças obscurantistas. Em 19 de Janeiro de 1935 é apresentado na Assembleia Nacional um projecto de lei a proibir as associações secretas e a confiscar-lhes todos os bens. O alvo era claro: a Maçonaria. Nem a circunstância de o presidente da Assembleia Nacional, José Alberto dos Reis, ser um antigo maçom lhes valeu. Curiosamente, o Estado Novo não varreu completamente a Ordem do mapa de Lisboa: muitas ruas mantiveram os nomes de destacados maçons, como ainda hoje se pode verificar.
Outro dos actos comemorativos dos 200 anos do GOL será, precisamente, a divulgação completa da toponímia lisboeta associada à Maçonaria.
Com o 25 de Abril de 1974, é restabelecido o direito de associação. O primeiro Governo Provisório foi chefiado por um maçom, Adelino da Palma Carlos. O Palácio Maçónico, no Bairro Alto, ocupado durante a ditadura pela Legião Portuguesa, foi restituído ao Grande Oriente Lusitano.

A Maçonaria nos tempos que correm
Nos tempos que correm, sobretudo após João XXIII, o Concílio Vaticano II e a própria Companhia de Jesus, a Igreja encara com outros olhos o fenómeno maçónico. Não é, pois, de estranhar que o actual Código de Direito Canónico (1983) tenha omitido qualquer referência à Maçonaria, e revogado o cânone 2335 do anterior (1917), que excomungava «ipso facto» os inscritos na «seita maçónica» e em organizações «que maquinam contra a Igreja ou contra as legítimas autoridades civis». À intolerância sucedeu a compreensão e uma certa simpatia. A esta mudança de mentalidade não foi, seguramente alheia a circunstância de muitos católicos e altos dignitários da Igreja serem maçons. Regimes como o comunismo e o fascismo também não quiseram nada com a Maçonaria. O IV Congresso Internacional dos partidos comunistas, em 1922, aprovaria a seguinte resolução: «Aquele que não tenha declarado abertamente à sua organização, e feito público através da imprensa do partido, a sua ruptura total com a Maçonaria, será automaticamente excluído do Partido Comunista». Curiosamente, no mesmo ano em que a Internacional Comunista lançava o anátema contra os maçons, na Itália, o primeiro Estado fascista da história, dirigido por Mussolini, convidava «os fascistas que são maçons a escolher entre pertencer ao Partido Nacional Fascista ou à Maçonaria, porque para os fascistas somente há uma disciplina, a disciplina do fascismo; uma só hierarquia, a hierarquia do fascismo; uma só obediência absoluta, devotada e diária ao chefe e aos chefes do fascismo». «Onde há um maçom, há uma semente de liberdade. Por isso fomos considerados um perigo tanto para o comunismo como para o fascismo», diz-nos Fernando Sacramento, membro do GOL. «Nas lojas, tudo é debatido (excepção feita para a política e a religião) e tudo é votado (através de bola preta e bola branca), é o centro de maior democracia que pode existir», garante, acrescentando que «não temos um projecto de poder nem de afirmação na sociedade». Explica: «Os maçons têm obrigação de intervir na vida pública e política, de lutar pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade (os nossos três grandes princípios), mas apenas a título individual.»
No mundo profano, a Maçonaria funciona em grande parte através de instituições que fomenta, cria ou dirige, mas que têm vida própria, desligada da vida maçónica interna.
Em Portugal, este tipo de instituições que o historiador Oliveira Marques designa como «para-maçónicas» existem desde o século XVIII, especializadas em múltiplos aspectos da actividades social: cultura, beneficência, política, direitos do homem, relações internacionais, etc. Os exemplos são inúmeros: a Academia das Ciências (nos idos de Setecentos), as «Escolas Livres» fundadas no princípio do século passado; A Voz do Operário (1883); os Jardins-Escola João de Deus (1911). As associações para-maçonicas também intervieram para criar estruturas laicas na vida social, como a Associação Liberal Portuguesa (1889) e a Associação do Registo Civil (1895). Há ainda notícia de grupos de combate à escravatura e à pena de morte fundados no século XIX com ampla participação maçónica, e de alguns criados no século XX para lutar contra a prostituição, o alcoolismo e o jogo.

A Maçonaria e os seus Santos Patronos
A Maçonaria tem dois santos patronos e protectores: São João Baptista e São João Evangelista. Porquê São João? Porque foi a 24 de Junho - dia de São João - que, em 1717, as quatro lojas de Londres se reuniram e deliberaram criar a Grande Loja de Londres, dirigida por um grão-mestre. São João Evangelista abre o solstício de Verão; São João Baptista é comemorado com o solstício de Inverno. A Ordem maçónica respeita e venera o ciclo solar - os trabalhos dos pedreiros fundadores realizavam-se entre o meio-dia (zénite solar) e a meia-noite em ponto (zénite polar) - e as estações do ano. O equinócio de Setembro marca o início dos trabalhos, que são encerrados por altura do solstício de Junho. Este calendário maçónico seria depois importado pelo sistema judicial e académico. Ainda hoje, tanto os tribunais como as universidades continuam fiéis a esta programação ditada pela Natureza. Mas os maçons distinguem-se ainda por comemorar a passagem de ano no equinócio de Março, com a chegada da Primavera. De acordo com as suas contas, estamos no segundo mês do ano de 6002. Antes de encerrarem as lojas para as férias de Verão e logo após os festejos do bicentenário, os maçons do GOL entram em campanha eleitoral. As eleições para grão-mestre estão marcadas para 1 de Junho. Entre os candidatos já conhecidos, estão António Arnaut, José Fava e Carlos Morais dos Santos. Os dois mais votados irão ao tira-teimas da segunda volta. Outra importação dos modelos maçónicos, novamente por parte do meio judiciário e académico, tem a ver com o traje. O balandrau, bata preta comprida, com gola ampla para tapar a cabeça, é a indumentária «oficial» da Maçonaria, por cima da qual se coloca a paramentação (avental). Ora, as becas dos advogados e juízes e as togas, usadas em cerimónias solenes nas universidades, não são mais do que «adaptações» do ritual maçónico. As becas e as togas antigas chegaram a ter também gola e aquela espécie de capuz que caracteriza o balandrau.

Maçonaria no Mundo
Existem cerca de dez milhões de maçons em todo o mundo. Mas é na Inglaterra e nos Estados Unidos da América que a sua influência mais se faz notar. Convém não esquecer que a Inglaterra foi o berço da Maçonaria: em 1717, quatro lojas de pedreiros de Londres organizaram-se numa espécie de federação a que deram o nome de Grande Loja, elegendo um primeiro grão-mestre com autoridade sobre todos os maçons. Seis anos mais tarde, o pastor escocês James Anderson era incumbido de elaborar umas Constituições que todos aceitassem. Fernando Sacramento, membro do GOL, não tem dúvidas em afirmar que os ingleses edificaram o seu extenso império colonial com a ajuda da Maçonaria: «A instalação de lojas militares nos quatro cantos do mundo - abertas, posteriormente, às profissões liberais, e integrando as classes com maior influência social e económica nas diferentes possessões - contribuiu decisivamente para a propagação do sistema democrático defendido e praticado na Grande Loja de Londres.» Organismos de grande prestígio internacional como a ONU, criada em 1945 em Nova Iorque, a UNESCO (instituição da ONU para a Educação, Ciência e Cultura) ou a Cruz Vermelha Internacional, foram impulsionados sobretudo por maçons. Há também quem diga que o Acordo de Paz de Camp David, firmado em 1978 entre Israel e o Egipto, parecia um encontro de irmãos, pela simbologia utilizada nas saudações finais.
A crer nesta interpretação, os três protagonistas do acordo - Menahem Begin, primeiro-ministro de Israel, Anouar el-Sadate, primeiro-ministro egípcio, e Jimmy Carter, presidente dos EUA - quiseram dar provas da sua gratidão para com a Maçonaria, que tinha manobrado intensamente nos bastidores para que tudo desse certo.
Em Inglaterra - à semelhança de outros países nórdicos - existe ainda uma ligação estreita entre a Monarquia e a Maçonaria e o grão-mestre é o rei por inerência de cargo. Actualmente, e porque está uma mulher no trono (Isabel II), é o duque de Kent que detém a autoridade máxima da maçonaria inglesa. Em terras de Sua Majestade ninguém estranha a influência e a participação de maçons nas mais altas esferas do poder: da Câmara dos Lordes aos Serviços Secretos, Forças Armadas, Governo. Winston Churchill, primeiro-ministro inglês em 1940-45 e em 1951-55, era maçom. A disposição espacial da Câmara dos Comuns (rectangular, com cadeiras face a face) é uma recriação de um templo maçónico.
A Maçonaria desempenhou também um papel importantíssimo na fundação dos Estados Unidos da América. Não é com certeza por acaso que a nota de um dólar está ainda repleta de símbolos maçónicos. Como não é por acaso que a Bíblia sobre a qual prestam juramento todos os presidentes dos EUA é proveniente de uma loja maçónica.
O Livro Sagrado foi usado por George Washington, o primeiro presidente dos EUA e maçom assumido. Antes, Benjamin Franklin, cientista e «pai» da independência dos «States», também pertencera à organização. E o mesmo se pode dizer de outros presidentes dos EUA: Abraham Lincoln (republicano) e Franklin Roosevelt (democrata), à frente da nação americana entre 1933 e 45.


Em Portugal
O GOL não é a única organização maçónica em Portugal. Um grupo descontente com a tendência laica do Grande Oriente decide promover o ressurgimento da Maçonaria Regular no nosso país, criando em 1991 a Grande Loja Regular de Portugal (GLRP).
Em 1996, já com Luís Nandim de Carvalho como grão-mestre, a sede - a célebre Casa do Sino - é tomada por cisionistas (entre os quais figurava José Braga Gonçalves, que viria a ser preso em 2001 na sequência do «caso Universidade Moderna»), que assumem o nome de Grande Loja Regular de Portugal, pelo que os fundadores da Maçonaria Regular, mantendo a designação, têm de adoptar para efeitos legais profanos o nome de Grande Loja Legal de Portugal (GLRP/GLLP). O seu atual grão-mestre, José Manuel de Morais Anes, sublinha que a Maçonaria anglo-saxónica «reconhece exclusivamente em Portugal a GLRP/GLLP», que também comemorará o aniversário da criação da primeira Obediência maçónica regular portuguesa. José Anes insiste que não se poderão comemorar os 200 anos de Maçonaria Regular «porque a Grande Loja Unida de Inglaterra decidiu retirar o reconhecimento ao GOL pouco mais de 100 anos depois». A sessão solene de Junho, que marca o 11º aniversário da Grande Loja Regular de Portugal, contará com a presença do marquês de Northampton, pró-grão-mestre da Maçonaria inglesa. O programa das comemorações inclui ainda uma homenagem ao rei Eduardo VII.
Júlia Maranha é a grã-mestra da Grande Loja Feminina de Portugal, que integra nomes conhecidos, como Helena Sanches Osório (ex-directora de «A Capital», ex-subdirectora de «O Independente»), Leonor Coutinho (ex-secretária de Estado da Habitação) e Maria Belo (antiga euro deputada do PS).
Entre as correntes menos expressivas, destaca-se a Jurisdição Nacional da Federação Internacional do Direito Humano, por ser um caso único de organização mista. É liderada por Jorge Gomes.
A Grande Loja Regular de Portugal (cisionista), que foi fundada por diversas personalidades ligadas ao «caso Universidade Moderna», é actualmente dirigida por Marques Miguel.
E a Grande Loja Nacional de Portugal, que foi criada após uma cisão com a anterior, tem como dirigente máximo Álvaro Carva. Finalmente, a Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia, que é fruto de uma segunda cisão operada entre os dissidentes que haviam ocupado a Casa do Sino, está praticamente extinta.

Literatura sobre a matéria
Sobre a matéria recomenda-se a leitura da «Introdução à Maçonaria», de António Arnaut (Coimbra Editora), «A Maçonaria em Portugal» e «A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo», de Oliveira Marques (Edição Gradiva e Publicações Dom Quixote, respectivamente), «História da Franco-Maçonaria em Portugal», de M. Borges Grainha (Edições Vega), «Com a Maçonaria não se Brinca!», de Joaquim M. Zeferino e Manuel P. Santos (Hugin Editores) e «O que é a Maçonaria», de Alberto Victor Castellet (Madras Editora).

Personagens maçónicos portugueses:
Afonso Costa - Alexandre Heculano - Alfred Keil - Almeiga Garrett - António Augusto de Aguiar - António José de Almeida - Bissaia Bareto - Bocage - Camilo Castelo Branco - Carlos Mardel - Castilho - Duque de Loulé - Duque de Saldanha - Eça de Queiroz - Egas Moniz - Elias Garcia - Fernando II - Gago Coutinho - Gomes Freire de Andrade - Henrique Lopes de Mendonça - Miguel Bombarda - Norton de Matos - A. H. de Oliveira Marques - Pedro IV - Rafael Bordalo Pinheiro - Raul Rego - Ribeiro Sabches - Teófilo Carvalho dos Santos - Viana da Mota

(Segundo textos de Isabel Oliveira 2007/8)

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